Do blog O Recôncavo.
A revolução industrial pressupunha a acumulação de capital. A história registra que na Inglaterra, berço desta revolução, esta acumulação ocorreu, em grande parte, devido ao processo de expulsão dos trabalhadores do campo e a tomada, mediante o uso da força, das terras em que viviam.
O historiador Eric Hobsbawn (A era das revoluções: Europa 1789-1848) afirmou que:
“Uns 5 mil “cercados” estabelecidos por decretos gerais e particulares ocuparam cerca de 6 milhões de acres de campos e terras comuns a partir de 1760, transformando-os em propriedades privadas, e foram reforçados por inúmeras regulamentações menos formais. A Lei dos Pobres de 1934 foi projetada para tornar a vida tão intolerável para os pobres do campo que eles se vissem forçados a abandonar a terra em busca de qualquer emprego que lhes fosse oferecido. E, de fato, logo começou a fazê-lo. Na década de 1840, vários condados já estavam à beira de uma perda absoluta de população, e a partir de 1850 a fuga do campo se tornou generalizada”.
As cidades, com o advento da revolução industrial, passaram e ser, portanto, o lugar por excelência da vida moderna. Foram nas cidades que a população expulsa de suas terras se via diante de um mundo completamente diferente daquele vivido por seus antepassados. A cidade lhe reservava realidades novas e mudou a relação dos homens com o tempo, com o espaço e com eles mesmos.
Desta forma, novos elementos foram impostos a esta população: a poluição, a concentração populacional, a violência urbana, o alcoolismo, as doenças advindas da vida insalubre, as modificações na estrutura familiar, na identidade social do individuo e até mesmo a sua relação com o tempo, agora ocupado integralmente com o seu trabalho na indústria, como nos mostra a professora Tânia Quintaneiro e demais autores do livro “Um toque de clássicos” (Editora UFMG/2009).
Cruz das Almas é uma cidade situada no Recôncavo Baiano, região que, segundo Milton Santos, é uma das áreas urbanizadas mais antigas das Américas.
Faço esta introdução para me reportar à crítica, legítima e equivocada, do vereador André Eloy com relação à construção da Praça da Juventude, no espaço da antiga estação ferroviária, num projeto que custará R$1,5 milhão.
A Praça da Juventude terá campo de futebol (que o nosso anglicismo chama de “society”), teatro de arena, anfiteatro, quadra coberta, quadra de futebol de areia, pista de ciclismo, atletismo e skate, além de uma sala de reunião para a terceira idade, obras que irão abranger 8.241 m² de construção.
André Eloy (PMDB) é vereador da oposição e cumpre o seu papel de oposicionista, o que é plenamente justificado e de acordo com as regras democráticas. O que aqui está em discussão é o mérito da crítica.
Entretanto, na condição de cidadão de Cruz das Almas, só tenho o que comemorar com a iniciativa da prefeitura.
Primeiro porque precisamos resgatar os espaços de sociabilidade das cidades, um dos graves problemas da vida moderna. Segundo por tratar-se de uma praça destinada, sobretudo, à prática de esportes, atividade salutar que se contrapõe à cultura da morte, tão bem personificada e representada pela pandemia do crack, oxi e outras drogas pesadas que ceifam milhares de vidas e geram violência e a desagregação de inúmeras famílias. Ou será que esperamos combater esta epidemia somente com a força policial?
Ouso dizer, correndo o risco de se apedrejado, que esta ação é, ainda, uma política de saúde pública, afinal, dezenas de doenças possuem com principal vetor a vida sedentária, a obesidade, o tabagismo e outros fatores em que os esportes são a melhor indicação.
Eu seria contra a Praça da Juventude se, antes, a prefeitura não tomasse a iniciativa de, por exemplo, providenciar o saneamento básico da cidade, o que, como é de conhecimento de todos, não é o caso.
Justiça seja feita: foi esta gestão que, numa grande parceria com o Governo Federal e Governo do Estado, está implantando a rede de saneamento em toda a cidade, algo que as gestões anteriores, inclusive aquelas em que o vereador André Eloy apoiou com entusiasmo, nunca se dignificaram a fazer.
A Praça da Juventude, a despeito de estar sendo construída agora, já está sendo chamada de obra eleitoreira pela oposição, em Cruz das Almas. Tivesse ouvido estes mesmo argumentos, o presidente Lula não teria levado à frente o Bolsa Família, PAC I e II, e ainda o programa Minha Casa Minha Vida, a interiorização do ensino federal superior bem como a maioria dos programas que, o tempo mostrou, deram resultado.
Terrível, por certo, seria o poder público local não buscar parcerias, como a que por hora garantiu os recursos para a construção da Praça da Juventude, em que a prefeitura local deu sua contrapartida.
Deprimente e preocupante era ver a Praça Senador Temístocles, a principal da cidade, jogadas às traças, em completo abandono.
A acumulação capitalista e a Revolução Industrial criaram as grandes cidades desumanas, fétidas, violentas e insalubres.
Numa sociedade capitalista, somente o bom senso, a participação popular e as boas práticas administrativas podem nos devolver um pouco da dignidade que nos roubaram.
A Praça da Juventude, em Cruz das Almas, é um bom exemplo de resgate da cidadania. Como então se opor a ela?
Por Charles Carmo.








