Do Blog O Recôncavo.
O jornal baiano A Tarde mantém um espaço para artigos, sabidamente democrático. Não conheço, nem de “ouvir falar”, qualquer tipo de censura naquele espaço.
Nesta segunda-feira (22/08), quem desfila seus pensamentos no A Tarde é o “diretor Master em jornalismo” Carlos Alberto Di Franco, numerário do Opus Dei, corrente ultra-mega-conservadora da Igreja Católica.
Em artigo intitulado “Radiografia da corrupção”, o jornalista Carlos Alberto Di Franco convoca a imprensa ( e a sociedade) a entrar numa espécie de Cruzada para pressionar o STF e forçar a condenação dos réus do “mensalão”. Mas ele vai bem além.
Logo no início da convocação o numerário da Opus Dei afirma:
“O governo de Dilma Rousseff, sustentado por uma coligação pragmática e aética que foi concebida por seu sucessor, é, rigorosamente, refém do crime organizado. O mensalão do PT, que dificilmente será julgado em tempo hábil pelo Supremo Tribunal Federal (STF), foi o primeiro lance. Representou o pulo-do-gato, o caminho das pedras de um projeto de poder autoritário, corrupto e corruptor”.
Depois, Carlos Alberto Di Franco dá a dica de como a imprensa deve se portar para influenciar na decisão do STF. “Não atiraremos a esmo. Não publicaremos no domingo para, na segunda, mudar de pauta. Vamos concentrar. Focar no mensalão. E você, caro leitor, escreva aos ministros do STF, pressione, proteste, saia às ruas numa magnífica balada da cidadania. Em segundo lugar, exija de nós, jornalistas, a perseverança de buldogues. É preciso morder e não soltar. Os meios de comunicação existem para incomodar”, afirma Di Franco, sem mencionar os escândalos de corrupção e pedofilia que contaminam a Igreja Católica e causam a revolta de padres austríacos. Quando o assunto é pedofilia na igreja, a tal “perseverança” é de porquinho-da-índia.
Segundo a revista Época, Di Franco é “um dos numerários mais influentes e bem relacionados do Opus Dei”. Ainda segundo a revista, Di Franco “dá formação cristã ao governador Geraldo Alckmin e treinou mais de 200 editores da imprensa”.
A revista Época traz ainda uma revelação pitoresca: Di Franco seria virgem. Como as questões de fé não objeto de análise desta postagem, deixemos então isto de lado.
Agora amarremos os fatos.
O Papa Bento XVI confirmou, na manhã deste domingo (21/08), em Madri, que o Rio de Janeiro será a sede da próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em 2013, véspera das eleições presidenciais no Brasil. Um dia depois, “um dos numerários mais influentes e bem relacionados do Opus Dei”, vem a público convocar uma Cruzada contra a corrupção, mas não a corrupção no Vaticano, explique-se, mas aquela que seria o “pulo-do-gato” de um “projeto de poder autoritário, corrupto e corruptor”, representado pelo PT.
Ora seu Di Franco, a corrupção deve ser banida do Governo Federal, do governo de São Paulo, Minas Gerais e no mundo inteiro. Entretanto, fazer dos jornalistas “buldogues” a serviço da Opus Dei e dos partidos de oposição não me parece lá muito ético. Nem muito cristão.
E que história é essa de que a função da imprensa é incomodar? Não seria informar? Função de incomodar quem tem são os pernilongos. A imprensa pode debater, criticar etc. Possíveis incômodos deveriam ser sempre uma consequência, nunca um fim em si mesmo.
Curioso mesmo é fato do numerário do Opus Dei advertir que o “mensalão” dificilmente será julgado “em tempo hábil”. Tempo hábil para quê? Para influenciar nas eleições? Pareceu-me um ato falho.
Em julho de 2010 denunciamos aqui a suspeitíssima visita do chefão do Opus Dei ao Brasil, às vésperas das eleições. Como num filme manjado, o final era previsível: uma campanha eleitoral recheada de hipocrisia em que setores conservadores da Igreja Católica se empenharam em derrotar a presidenta Dilma Rousseff e impor uma agenda ultraconservadora aos candidatos. A Opus Dei fez o que pôde para eleger José Serra e acabou como um jacu baleado.
Para alguns o artigo do senhor Di Franco no jornal A Tarde parece um chamado ao combate à corrupção.
Para mim, entretanto, o artigo parece ser um primeiro movimento da Opus Dei para influenciar nas eleições de 2014. Ou será nas eleições para a escolha dos prefeitos, já no ano que vem?
Abre o olho presidenta Dilma Rousseff: o Papa vem aí!
A Opus Dei, como sempre, chega antes.
Por Charles Carmo









Uma resposta
Então por este ou aquele motivo não se deve combater a corrupção? E se o assunto influenciar em eleições também não se deve abordar o assunto? E porque alertar a Presidente Dilma? Ela não deve permitir o combate à corrupção? Que eu saiba ela tem sido a principal liderança “contra” a corrupção mantendo-se fiel a seus princípios de ética e moralidade. E vamos combater a pedofilia na Igreja também! Corrupção e pedofilia não são assuntos partidários. São assuntos a serem combatidos por todos, independentemente de partidos ou religiões.