BLOG DO GUSMÃO

OS EMPREENDEDORES DE SONHOS DE ILHÉUS

SAM_1787Por Katianny Estival

Li um artigo esses dias sobre A Percepção do Espaço Turístico Urbano pela Comunidade de Ilhéus – Bahia, publicado na revista Caminhos de Geografia, no ano de 2012, que quando os entrevistados na pesquisa realizada foram indagados sobre os lugares da cidade que os moradores não indicariam para o turista visitar, as respostas convergiram, em sua maioria, para bairros violentos da cidade, a exemplo do Teotônio Vilela, que também é o bairro que concentra o maior percentual dos habitantes de Ilhéus (NERES & BONFIM, 2012).

Infelizmente isso é verdade: de acordo com dados sobre o índice de homicídios em Ilhéus apresentados no trabalho de Guirra et al (2010) com base na análise de informações da Coordenadoria Regional da Polícia do Interior de Ilhéus, está classificado como um dos bairros mais violentos da cidade. Conheço pessoas que têm vergonha de informar aos empregadores o endereço residencial, com receio de sofrerem algum tipo de discriminação…e realmente sofrem discriminação e até mesmo rejeição na hora de obter um trabalho quando informam o local real de residência.

Nesse contexto a maioria é excluída. Os resultados desse processo de exclusão das maiorias não são somente os altos índices de desemprego e violência – principalmente entre as populações jovens. As maiorias não são responsáveis somente por contabilizarem números negativos no desenvolvimento de Ilhéus, também constroem novos cenários para o desenvolvimento, sonham e agem para melhorar o lugar onde vivem.

Inquietos com os problemas sociais e com a motivação de tornar as pessoas menos dependentes do governo e do assistencialismo, identificamos no nosso dia-dia pessoas com interesse e capacidade para contribuir na mudança do cenário e no desenvolvimento de melhorias sociais, econômicas e ambientais – essas pessoas são os chamados empreendedores sociais.

Um empreendedor social pode ser vinculado a uma organização ou não, pode trabalhar exclusivamente a atividade de empreender ou não, mas reconhecemos essas pessoas como àquelas que mostram um “brilho” nos olhos e uma força inabalável para acreditar, apoiar e investir tempo e trabalho nos seus sonhos e nos sonhos de outras pessoas, por isso também gosto de chamá-las de empreendedores de sonhos. Fazem nossa vida mais vibrante e desafiadora! Fazem parte do nosso dia-dia: é o estudante que mobiliza os colegas para a resolução de problemas da escola ou do seu bairro, a sua vizinha que ensina outros vizinhos a fazer bolos para vender na comunidade e aumentar o emprego e renda nas famílias, é o professor que incentiva e orienta um aluno para desenvolver suas potencialidades como profissional e como ser humano…entre outros exemplos…

Empreendedores de sonhos não fazem meramente caridade…não que deva ser desmerecida a importância da caridade e da responsabilidade dos governos na assistência ao cidadão, mas esses indivíduos atuam de forma a “replicar” conhecimentos e trabalhar para a construção de dias melhores junto a outras pessoas. Fomentam a capacidade de sonhar e agir para a concretização dos sonhos nos lugares onde vivem e trabalham. Multiplicam e alimentam a visão de que as pessoas podem concretizar seus objetivos através do trabalho e da coletividade e que também são capazes de tomar decisões sobre o que querem para suas vidas e comunidades.

O conceito de empreendedorismo social proposto pela ISE (Institute Social Entrepreneurs, 2013) define o empreendedor social como:

 “…executivos do setor sem fins lucrativos que prestam maior atenção às forças do mercado sem perder de vista sua missão (social) e são orientados por um duplo propósito: empreender programas que funcionem e estejam disponíveis às pessoas (o empreendedorismo social é base nas competências de uma organização), tornando-as menos dependentes do governo e da caridade.”

De acordo com o conceito de empreendedor e empreendedorismo social, podemos identificar em nossa sociedade pessoas que atuam através de ações de fomento ao desenvolvimento econômico, cultural, político, debate de questões de gênero, entre outras áreas de atuação, que buscam fomentar o empoderamento de outros indivíduos para o desenvolvimento das suas capacidades, o conhecimento dos seus direitos básicos e da liberdade para buscarem a construção de um presente melhor e de um futuro sustentável para as gerações futuras.

Na construção da sociedade do Sul da Bahia ainda caracterizada pelo poder hierárquico e tomada de decisões centralizadas, o conceito de empoderamento deve ser retomado para que as discussões e projetos políticos sejam delineados visando o desenvolvimento, considerando que “o desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas para exercerem ponderadamente a sua condição de agente” (SEN, 2000, p. 10).

A possibilidade do desenvolvimento e de desenvolver-se envolve o aumento da capacidade de ação dos atores, além da promoção de um questionamento aberto sobre em que consistem as privações destes. Outros questionamentos giram em torno das possibilidades de eliminar as privações, e como as políticas públicas criam oportunidades e ajudam a eliminar as privações.

É preciso retomar a análise sobre conceito de empoderamento de uma forma crítica, para além da perspectiva reducionista do transformismo, aonde muitas organizações adotam este novo nome para legitimação de práticas de cunho assistencialista, que sempre fizeram parte do escopo de suas ações (ROMANO, 2003).

As ações de coletivos sociais institucionalizados como organizações sem fins lucrativos ou independentes como movimentos sociais na sociedade ilheense são acontecimentos que mostram que a sociedade está em processo de mobilização contra a perspectiva reducionista do transformismo, com exercício da capacidade crítica frente aos governos, empresas, organizações não governamentais, políticas, ações, programas, projetos de cunho assistencialista e direcionados aos interesses de indivíduos e não da coletividade. Não é possível enganar o povo fácil com discurso bonito.

Sugiro que como cidadãos não sejamos omissos aos processos, ações coletivas, mas que acima de tudo sejamos capazes de refletir que a riqueza da transformação social virá da diversidade e da liberdade de expressão das diversas vertentes dos movimentos sociais, com a garantia da proteção aos direitos humanos e do direito à liberdade de expressão.

Somente com a garantia da proteção aos direitos humanos e à liberdade de expressão as pessoas poderão sair do estado das privações das suas necessidades básicas (alimentação, saúde, saneamento, entre outras) e ampliarem suas capacidades para que possam participar ativamente dos processos de empoderamento nas discussões das questões que legitimam seus interesses. Como diz a reflexão de Chico Science e Nação Zumbi:

 “E com o bucho mais cheio comecei a pensar que eu me organizando posso desorganizar…” (NAÇÃO ZUMBI – DA LAMA AO CAOS)

 *Este artigo é dedicado aos empreendedores sociais do Sul da Bahia que dedicam seu trabalho e suas vidas para a melhoria das condições de vida, de trabalho e problemas socioambientais, principalmente aos educadores e aos artistas populares de Ilhéus que exercem no seu dia-dia o papel de empreendedores de sonhos.

Katianny Estival é Doutora em Ciências Sociais, Desenvolvimento e Agricultura (UFRRJ). Ela atua como Professora e Pesquisadora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

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Respostas de 2

  1. Parabéns DSc. Katianny Estival pelas sugestivas reflexões sobre um sociedade eternamente em construção.

  2. Excelente texto, meus parabéns, esperamos que esse novo modelo de empreendedorismo seja efetivamente multiplicado, pois somente assim, como diz Nação Zumbi, nossas vontades e expressões serão corajosamente postas no mínimo em discussão.

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