BLOG DO GUSMÃO

AS ESTAÇÕES DA VIDA

jamal-padilha-1Por Mohammad Jamal

Há coisa de um ano atrás, eu escrevia aqui sobre o “velho”, seu esquecimento e abandono. Digo “velho”, porque idoso traduz uma conotação humana e, velho, nos remete a algo objeto, descartável e prescindido.

Falava da progressiva transparência que, gradativamente, vai acometendo os velhos, fragmentando os seus átomos, apagando seus fótons, emudecendo seus sons, extraindo-lhe a própria sombra através a remoção da matéria junto aos ectoplasmas da sua alma.

Que a partir de certo ponto da temporalidade percorrida pelo velho, até já se pode enxergar através sua silhueta diáfana, absolutamente desprovida dos elementos da razão, da sensibilidade, dos sentimentos, dos méritos da alma.

Que as velhas medalhas de latão oxidadas pelo tempo, agora são apenas quinquilharias inúteis; que as lembranças antigas são obsolescências na atualidade; que as “gratidões” são rapidamente prescritíveis mercê dos curtíssimos prazos de validade hoje postos em pratica.

Que o antigo e tão ansiado perfume de amor, de afeto, de carinho e do aconchego paternal se tornou intolerável porquanto se mesclou ao passar do tempo, ao odor azedo que caracterizam os “velhos” de poucos banhos, do pijama respingado pela sopa da semana passada; do odor de urina que a próstata não permitiu escorrer por completo ou que a bexiga baixa nas velhas, relaxou os esfíncteres para um contínuo gotejar incontrolável.

Lembro que também falei dos beijos babados fugidos pelos filhos e netos que tanto amávamos. Hoje beijos abstratos, beijos ansiados pelo supremo toque da alma carente, tardiamente prenhe do amor que transcende o tempo; mas que só nós, os velhos, sabemos disso, pois a ninguém mais interessa.

Das mãos ressequidas e frágeis, amarelecidas pelo tempo. As mesmas mãos com que seguramos nossos filhos ainda bebês por noites a fio com seus corpinhos encostados ao nosso peito, às vezes febris, de tal forma que sentíamos o bater acelerado daquele coraçãozinho sobre o nosso coração de pai. Mãos hoje suspeitas de duvidosa assepsia, de precavidas e humilhantes recomendações de “vá lavar as mãos primeiro”.

Falei também do quartinho lá no fundo, do banheiro/sanitário de serviço, antigamente chamados de “sanitário da empregada”; do comer em separado, depois de todos, do esquecimento que nos faz deixar pra trás naquele pré-programado Domingo na Praia, da televisão quebrada, do copo, talher, prato e xícara, naquela velha bandeja de plástico, testemunhas do mais cruel isolamento.

Mas não falei àquela crônica dos elementos que vou classificar como: DAS RAZÕES.

Das razões das desatenções, das deseducações, dos gestos inesperados de franca brutalidade psicológica. Como se fosse o velho, uma simples planta do deserto, um zacum, um cacto que sobrevive vegetativo, sem a água da vida que brota na fonte do amor reciprocidade.

Das razões de não poderem nos ouvir, mesmo não sendo surdos, mas por mera razão de tempo. Da razão de não compreenderem a tristeza e a solidão existenciais, porquanto “já estão cheios dos próprios problemas, por isso, não podem agregar problemas desimportantes de velhos”; das grosserias veladas e daquelas por mera omissão e egocentrismos que, não sabemos por que, se lhes atribui direitos, privilégios e alforria para praticá-los, desde que estejam aborrecidos com qualquer coisa.

Velhos e velhas, incômodos; paquidermes moribundos vagando sozinhos no desterro irreversível do deserto da solidão, local onde imagina, resignadamente, poder encontrar uma última pontinha de autoestima que lhe resta, um lugar para morrer sozinho, sem gemidos ou estertores afogados na tristeza e decepção, mas, com o pudor de falecer longe dos olhos daqueles para os quais já nada representam, senão o repúdio à sua condição de estar velho, e morrer como morrem os elefantes. Em segredo, na confidencialidade do próprio sentimento de haver sido alguém.

Ainda não cheguei lá, ainda sou suficiente forte para carregar dois netos ao colo, nadar e mergulhar com eles. Ainda estou bastante lúcido e tenho viva a memória e a consciência que me permitem antever a decrepitude que, sorrateiramente, vai sendo cumulativa e irreversivelmente instalada sem cerimônias ou distinções sobre a fisiologia da materialidade humana, recurvando-a com a ferrugem do tempo… Invernos gelados… Verões mornos…

Tenho pelo idoso, pelo velho, pelo “vô”, uma imensa gratidão e um irremovível respeito. Sou o que sou graças ao que eles me ensinaram desde quando ainda criança e, muito mais tenho ainda a aprender com todos os meus queridos velhinhos. E porque me sinto envelhecer ao decurso dos invernos gelados e verões mornos que não respeitam idades, precavidamente aprendi bem cedinho a degustar sem refluxos, o sabor amargo do pretérito. A inexorabilidade do tempo nos fará velhos, queiramos ou não.

Pensem neles com amor, por favor. 

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