BLOG DO GUSMÃO

PROFESSORA DEFENDE SISTEMA DE COTAS DA UFSB

Gabriela Andrade da Silva. Imagem: Reprodução/Facebook.
Gabriela Andrade da Silva. Imagem: Reprodução/Facebook.

A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) estabeleceu cota de 75% das vagas do segundo ciclo para estudantes de escolas públicas, pretos, pardos, indígenas, populações de comunidades tradicionais e pessoas transexuais. O Conselho Universitário tomou a decisão de forma unânime, na última sexta-feira (1º).

A medida gerou reações diversas nas redes sociais. A professora Gabriela Andrade da Silva, docente da UFSB, publicou um “textão” – como ela disse – sobre o assunto no Facebook.

No texto, relembrou como mudou de opinião sobre a legitimidade das cotas. Durante anos, posicionou-se contra a medida que agora defende. Leia.

Por Gabriela Andrade da Silva

Fiquei na minha durante o debate sobre cotas para 2o ciclo na UFSB. Não porque o assunto não fosse de meu interesse, mas porque tenho me dedicado a tantas outras questões, profissionais e pessoais, que precisei economizar energia. E já via minha opinião representada por estudantes e colegas docentes.

Agora me manifesto porque, vendo tantos posts de ódio nas redes sociais pela aprovação dos 75% de cotas, a coisa me incomodou a ponto de eu sentir que preciso dedicar algum tempo ao assunto. Venho aqui não para dizer o que cada um deve fazer ou pensar, mas para contar algo sobre minha vida, na esperança de que possa gerar alguma reflexão em militantes de todos os lados das trincheiras.

Eu já fui contra cotas de qualquer tipo. Acreditava em meritocracia, pura e simples. Estudava na USP e meus colegas eram quase todos brancos-cis-classe média alta. Não dá para dizer que a maioria era hétero, porque na Psico-USP a diversidade de orientações sexuais sempre foi grande. Isso e as formas todas de vestir-se, de expressar-se, me davam a falsa impressão de diversidade. Eu não percebia que éramos dos grupos mais privilegiados da população, porque esse quase sempre tinha sido meu mundo.

Um de meus melhores amigos, na época de graduação e até hoje, era um dos poucos (creio que eram 5 em 350!) estudantes negros da Psico-USP entre 2002 e 2006. Leandro Nascimento, militante da causa negra, era a favor de cotas raciais. Discutimos cotas várias vezes, tomando cerveja ou café, ele com posição favorável, eu com posição contrária. Vejam bem, nós discutimos, mas nunca brigamos. Continuamos grandes amigos.

Hoje em dia, essa relação de amizade seria quase impensável, né? Sabem qual foi o segredo? Nós discutíamos em cima de argumentos lógicos. Ele nunca me chamou de racista / nazista / coxinha, eu nunca o chamei de nenhum nome – que em respeito, não vou mencionar – pejorativo ou racista desses que estão sendo ditos em relação a negros e outros cotistas nas redes sociais. De fato, considero que minha posição não era racista, pois eu nunca fui contrária à população negra. Apenas discordava que cotas raciais seriam boa estratégia de reparação das injustiças existentes na nossa sociedade.

O que me fazia ser contrária a cotas? Alguns argumentos como:

1. Somos todos humanos, temos direitos iguais.
2. Criar cotas raciais seria uma forma de racismo, pois estaríamos dizendo que negros têm menor capacidade que brancos.
3. O que precisamos para melhorar o acesso de negros e pobres ao ensino superior é melhorar a qualidade da educação básica.
4. Colocar pessoas na universidade com menos conhecimento, por meio de cotas, pode causar uma queda na qualidade do curso.

Terminei o curso de psicologia ainda com opinião contrária a cotas em universidades. Mudei de ideia uns 4 a 5 anos depois, quando entrei na UFABC. O que me mudou (em poucos meses!) foram dois fatores: A. ouvir muitas histórias de vida de estudantes, sem julgamentos prévios, como exigia minha posição de psicóloga. B. entrar em contato com dados estatísticos, que o professor e então pró-reitor de Políticas Afirmativas, Joel Pereira de Felipe, me mostrou.

Hoje, em relação aos argumentos que eu tinha antes, considero que havia falácias em meu raciocínio. Eu desconsiderei que a desigualdade de oportunidades causada pela ineficiência da educação básica e pública faz com que não sejamos iguais. Ou seja, meu argumento 1 estava furado. Sim, temos os mesmos direitos, mas justamente para assegurá-los é que se faz necessário um tratamento diferenciado entre os grupos sociais. Essa é a diferença (que eu desconhecia) entre igualdade e equidade, tão bem expressa na figura que ilustra este post.

Quando finalmente compreendi isso, passei a ser favorável a cotas para estudantes de escolas públicas, mas não a cotas raciais. Para mim, um estudante branco ou preto de escola pública tinha as mesmas condições. Mas depois fui saber que não tem! O dado estatístico que Joel me mostrou, e que me sensibilizou, foi saber que jovens negros têm menor chance de concluir os ensinos fundamental e médio quando comparados a jovens brancos. E negros adultos têm, em média, menos anos de escolaridade que brancos. E em média, se compararmos negros e brancos com o mesmo número de anos de escolaridade, negros ganham menos que brancos. Em relação à educação, além do racismo explícito e bullying que crianças negras enfrentam nas escolas – suficientes para prejudicar o rendimento escolar –, algumas pesquisas mostram que professores esperam menos de estudantes negros, dando-lhes também menos desafios e oportunidades de aprendizagem. Então, meu argumento 2 caiu por terra: as cotas raciais não seriam uma forma de dizer que negros têm menor capacidade, pois o que eles têm é menos oportunidades!

Pensando desta forma, meu argumento 3 ainda poderia estar correto: melhorar a educação básica seria a melhor resposta para dar igualdade de oportunidades. Ainda penso assim. Mas ouvindo os históricos de vida dos estudantes cotistas da UFABC, me caiu a ficha que faltava: a melhor medida é, também, a mais difícil e lenta. Se começarmos a investir pesadamente na educação básica hoje, teremos resultados somente daqui a uns 10 anos. E esses estudantes que estavam falando comigo, me contando incríveis histórias de superação de desafios diários para estudar, não tinham como esperar 10 anos. A vida deles é aqui e agora. Esperar 10 anos (no mínimo!) significaria perder toda uma geração.

Que histórias eram essas? Eram estudantes que trabalhavam 40h semanais em serviços braçais e faziam um curso de graduação de 20h presenciais, tendo apenas o final de semana para estudar (e limpar a casa, lavar as roupas, cozinhar, dar atenção para companheira / companheiro / filhas / filhos). Que andavam quilômetros a pé por falta de dinheiro para o busão, que chegavam a dormir nos sofás dos corredores do campus quando tinham uma aula à noite e outra na manhã seguinte, para economizar condução. Que passavam fome – literalmente – quando o Restaurante Universitário fechava por falta de luz, água ou porque terminou o contrato com a empresa terceirizada. Que quando tinham problemas de saúde, precisavam contar com o SUS e aguardavam meses, até anos, por alguma consulta especializada ou procedimento e conviviam com a dor enquanto estudavam. Ainda assim, eram pessoas extremamente inteligentes e criativas, eu não tinha a menor dúvida quando conversava com elas.

Então, quanto ao meu argumento 4, de que a entrada dessas pessoas com menos conhecimento provocaria queda na qualidade dos cursos, concluí que também era uma grande bobagem. A qualidade de um curso não pode ser medida pelo conhecimento técnico que entra na bagagem do estudante, mas sim pela diferença que o curso faz na vida dele, pela pessoa que será quando concluir o curso. Eles me pareciam ter algo muito superior aos conhecimentos sobre logaritmos, reprodução de pteridófitas ou império bizantino que eu tinha quando ingressei na USP via vestibular da Fuvest. Tinham maturidade e experiência de vida! Se os professores soubessem aproveitar essa bagagem, poderíamos assistir à maior onda de inovações jamais vista neste país. Quanto ao conhecimento técnico, sem dúvidas necessário, seria possível correr atrás. Não eram quaisquer estudantes, eram os melhores estudantes negros / pobres / de escolas públicas! Com toda a disposição que eles tinham para aprender, não seria difícil de preencher essas lacunas de formação se alguém dispusesse de algum tempo para mostrar a eles as fontes e os métodos de estudo.

Por fim, na UFSB, pela primeira vez fui levada a pensar sobre cotas para segundo ciclo. Acredito que são necessárias, sim. Porque na UFSB, como em geral acontece nas outras universidades federais, nunca implantamos nenhum projeto, serviço ou sistema que ajude estudantes cotistas a vencerem a lacuna de formação da educação básica. Esses estudantes precisaram se virar sozinhos em relação aos conhecimentos técnicos de química, português ou matemática, por exemplo, que os que vieram de uma educação básica de melhor qualidade já tinham quando ingressaram. Portanto, se nosso critério para 2o ciclo em baseado em coeficiente de rendimento acadêmico, é justo pensar em cotas para essa seleção também. Em relação à proporção (se são 50%, 70% ou porcentagem “flutuante”), há o que se discutir, mas não podemos deixar que cotistas consigam acessar o primeiro ciclo, mas depois caiam no mesmo sistema de oportunidades desiguais que os impede de prosseguir para ciclos posteriores de estudos.

Foi assim, com base em pensamento (estatísticas, argumentos lógicos) e sentimento (conhecer as pessoas, ouvi-las, entrar em sintonia com elas), que mudei de opinião e de postura. Acredito que foi uma evolução pessoal, que só se deu porque eu tive abertura para essa mudança e porque as pessoas que interagiram comigo nunca foram agressivas. Se Leandro alguma vez tivesse me chamado de nazista ou racista, provavelmente teríamos brigado e eu teria me fechado para essas descobertas que mudariam minha vida. Se Joel tivesse me dito que com essa opinião eu não poderia trabalhar naquele setor, eu não teria entrado em contato com os números e relatos que mudaram minha vida.

Por isso, pessoal, eu gostaria de pedir, dos dois lados da trincheira, mais abertura para ouvir e civilidade para discutir. A tal intolerância com intolerantes só vai gerar uma disputa de poderes vazia. A discussão fundamentada e escuta às diferenças é que pode mudar posturas, atitudes e vidas.

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