BLOG DO GUSMÃO

Vamos derrubar estes símbolos

Devemos rever, sobretudo, as estátuas, os ícones, os modelos sociais que norteiam nossas ações hoje. E caso identifiquemos neles a presença do racismo, da misoginia, da homofobia, do desprezo à vida dos demais seres humanos, que leva à morte, tenhamos a mesma coragem dos manifestantes europeus, arrancando e jogando no fundo do rio tudo aquilo que não serve mais para o mundo melhor que desejamos construir.

Por Julio Gomes.

Estados Unidos, dia 25/05/2020. Após ser acionada, a polícia intercepta um home negro acusado de tentar comprar um maço de cigarros com uma nota falsa. Quatro policiais brancos participam da operação e colocam o acusado contra o chão, imobilizando-o, e um deles passa a comprimir com o joelho o pescoço do homem, que se debate por quase nove minutos dizendo que não conseguia respirar. Toda a cena é filmada por uma adolescente negra, de 17 anos, e termina com a morte de George Floyd, de 47 anos, por asfixia.

A cena, que você provavelmente já assistiu pela TV aberta ou pela internet, viraliza no mundo inteiro e provoca fortes protestos em todos os Estados Unidos e em diversos outros países do mundo, durante vários dias, contra a violência racial e contra as violências praticadas também em face de outras minorias sociais, como imigrantes, homossexuais, mulheres, pobres em geral e outros grupos discriminados.

Além do alcance e intensidade dos protestos na nação Americana onde Floyd foi assassinado, outro aspecto destas manifestações também merece atenção especial: o ataque e derrubada de diversas estátuas na Europa.

Não se trata de quaisquer estátuas. Na Inglaterra os manifestantes derrubaram, rolaram e atiraram no rio a estátua de Edward Colston (1636 – 1721), comerciante que se tornou multimilionário mediante a exploração do tráfico de pessoas, arrancadas da África para o trabalho escravo e a morte, no Caribe e na América. Estima-se que Colston tenha transportado cerca de 84 mil homens, mulheres e crianças, reduzidas à escravidão, e que em torno de 19 mil morreram na viagem de navio para as Américas.

Outra estátua vandalizada foi a do Rei Leopoldo II (1835 — 1909), da Bélgica. A História nos diz que ele se apossou e administrou como uma propriedade privada o Congo Belga (Atual República Democrática do Congo, na África), escravizando, mutilando e matando cerca de 10 milhões de pessoas negras. A estátua foi retirada da praça pública pelas autoridades locais e guardada em um museu.

Estas ações trazem em si uma simbologia fortíssima: a não aceitação, por parte das pessoas e do mundo atual, de celebrações em torno daqueles que atingiram o ápice da pirâmide social e política utilizando como base a escravização, o racismo, a miséria e a matança de milhares ou milhões de seres humanos.

O mundo grita, nas manifestações que ocorrem nas ruas, nos cartazes, na internet, a plenos pulmões que não aceita mais as práticas desumanas que promovem o enriquecimento absurdo de alguns poucos, mediante a degradação e o sangue de populações inteiras. Nem ontem, nem hoje.

Também nós podemos derrubar estátuas. Não tanto a das praças públicas, que tem sempre algum valor histórico, embora muitas vezes amplamente questionável.

Devemos rever, sobretudo, as estátuas, os ícones, os modelos sociais que norteiam nossas ações hoje. E caso identifiquemos neles a presença do racismo, da misoginia, da homofobia, do desprezo à vida dos demais seres humanos, que leva à morte, tenhamos a mesma coragem dos manifestantes europeus, arrancando e jogando no fundo do rio tudo aquilo que não serve mais para o mundo melhor que desejamos construir.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.

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Respostas de 2

  1. Vamos reescrever a história pq eu sou esquerdista leite com pera e não gosto da estátua dele… Deus do céu. O esquerdismo, quando não quer tolher ou cercear os direitos alheios, seja através de censura, seja através do bloqueio das liberdades individuais, quer reescrever a história. É um passado de triste lembrança, mas precisará sempre ser RECORDADO para que não se repita. Já que o nobre articulista que se arvora professor quer reescrever o passado, que tal começarmos também pelos próceres da esquerda? Che Guevara era racista e misógino. Vamos derrubar estátuas dele? Marighella era assassino e terrorista, um vagabundo, lixo da pior espécie. Vamos tirar o nome dele das escolas? E que tal mudarmos o nome da Fundação Getúlio Vargas? Vocês são muito HIPÓCRITAS!

  2. Devemos derrubar as estatuas das praças públicas, no nosso Brasil está cheio de homenagens traficantes negreiros, torturadores. Devemos, concordo, derrubar as estatuas racista s, preconceituoso em nosso interior.

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