BLOG DO GUSMÃO

Direção do Hospital Costa do Cacau demorou 9 meses para afastar diretor acusado de injúria racial; farmacêutica ofendida está em tratamento psiquiátrico

Médico reagiu à divergência invocando instrumento de barbaridades do período escravocrata. Fotos: Google e Facebook/reprodução.

Uma acusação grave de injúria racial que remete à cultura dos senhores de engenho, típica da colonização do Brasil, caiu sobre o médico José Américo Resende Jr, ex-diretor clínico do Hospital Regional Costa do Cacau.

No dia 3 de fevereiro de 2021, após uma divergência de fundo técnico com a farmacêutica Rute Apóstolo Evangelista (mulher negra e também funcionária do hospital), o então diretor José Américo teria dito: “Santa Princesa Isabel, porque retirastes o tronco!”.

Não satisfeito, José Américo teria mencionado uma suposta ancestralidade nobre: “vou ficar de pé porque eu sou um lord e tenho origem inglesa, sou sangue azul”. A fala preconceituosa teria sido presenciada por três testemunhas: a diretora-administrativa Cristine Câmara; a farmacêutica Luise; e Tiana (identificada como “integrante do colegiado”).

O caso foi publicado em primeira mão pelo site Bahia Notícia. Neste link é possível ler mais detalhes.

Rute Apóstolo, a vítima. Foto: Facebook/reprodução.

A fala do médico, caso fique provada, é completamente inadmissível uma vez que lamenta o fim das torturas praticadas contra os negros no período da escravidão. A primera frase Invoca o retorno dos troncos, instrumentos em que os negros eram amarrados e submetidos a castigos cruéis, muitas vezes em praças públicas.

A direção do IBDAH (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Administração Hospitalar), empresa que administra o Costa do Cacau, abriu processo interno para apurar o fato. Apesar da gravidade do caso, o médico só foi afastado nove meses depois, no dia 16 de novembro de 2021. O afastamento só veio à tona após o caso ter sido divulgado pela imprensa.

Rute Apóstolo, que também é sargento da PM, afirma ter sofrido represálias ao tentar desenvolver a sua função na unidade a partir do momento em que registrou a ocorrência na delegacia, cinquenta e três dias depois. A coordenação de sua área teria decidido impedi-la de executar procedimentos comuns aos farmacêuticos.

A reportagem do BG conversou com a vítima. Ela nos disse que ficou muito abalada com a ofensa. Devido ao trauma, Rute está passando por tratamentos médico e psicoterápico. Desde julho, um psiquiatra decidiu afastá-la tanto da PM como do Hospital Costa do Cacau.

Emocionada, Rute disse ter esperado uma retratação sincera do médico, que nunca ocorreu. No dia 10 de março, mandou um e-mail para o departamento jurídico da empresa, mas não recebeu resposta.

No dia 24 do mesmo mês, foi chamada pela diretora-administrativa Cristine Câmara (testemunha ocular da ofensa) para conversar. Segundo Rute, a diretora lhe disse que o “doutor José Antônio” (sócio do IBDAH) orientou que lhe transmitisse um pedido de desculpas em nome do Instituto. Na ocasião, o médico José Américo teria dito ser descendente de escravos.

A maneira como as desculpas foram ditas deixou Rute Apóstolo mais indignada. “Quando a diretora citou a recomendação do proprietário da empresa, compreendi que não houve uma retratação movida pelo arrependimento. Eles estavam preocupados apenas com as consequências”.

Rute se arrepende de não ter reagido quando ouviu a ofensa. “Me questionei bastante por não ter dado voz de prisão a ele. Como não reagi da maneira necessária, passei a me questionar. Esse foi o primeiro assunto que falei para a minha psicóloga”.

Outro lado.

Por meio de uma ligação via Whatsaap, às 11h47 conversamos com José Américo. Nos disse que antes de falar com a reportagem buscaria auxílio do seu advogado.

Até a publicação ele não retornou.

Encaminhamos as seguintes indagações à assessoria de comunicação do IBDHA.

Qual a posição do Instituto sobre a acusação de injúria racial feita pela farmacêutica Rute Apóstolo contra o ex-diretor José Américo?

O fato aconteceu em fevereiro. Por qual motivo o instituto demorou para afastá-lo de maneira preventiva até o devido esclarecimento?

A farmacêutica disse que o serviço dela tem sido prejudicado, dando a entender ter sofrido represálias.

Recebemos uma nota de conteúdo superficial, sem as respostas solicitadas. Clique aqui.

À diretora Cristine Câmara perguntamos: segundo a versão da vítima, você teria ficado muito constrangida com a fala do médico. Como você vai se posicionar no decorrer do processo judicial?

Não recebemos resposta.

O caso está sendo apurado pela Polícia Civil e a farmacêutica foi ouvida pelo Ministério Público do Trabalho.

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Respostas de 2

  1. E isso, 9 meses depois, porque se trata de um governo que se diz “ligeireza”. A indicação do penúltimo desembargador demorou 9 meses. A midia, em?

  2. Das injúrias, as mais maléficas são aquelas que nos ferem a honra e a outra que nos amputa da cidadania plena quando praticada como injúria racial. O berço onde nasci e meus princípios morais islâmicos me fazem abominar esse tipo de crime. Há países que condenam à morte os ofensores que ignoram as leis que capitulam como gravíssimo tais delitos. Mas por aqui, entre famosos, poderosos, políticos e autoridades, tudo passa em sigilo, geralmente sob as brancas nuvens e são esquecidos, amarelecidos pelo tempo sobre os papéis que as traças esfaimadas haverão de consumir. E a vítima? Ah a vítima? São tantas… Usarão muletas psicológicas e com o tempo reaprenderão a andar reequipadas com acessórios. Enquanto o ofensor, famoso, será rapidamente realocado num outro trono. O Brasil é um país exageradamente solidário e tolerante. É lindo, mas…

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