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TELEANÁLISE: GUERRA OLÍMPICA

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Por Malu Fontes.

Há pouco mais de 20 dias, no dia 02 de outubro e nos dias próximos, imagens aéreas e deslumbrantes da cidade do Rio de Janeiro correram as emissoras de TV de todo o mundo, quando o Comitê Olímpico Internacional escolheu a capital fluminense para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. As imagens, encomendadas pelo Comitê Olímpico Brasileiro ao cineasta Fernando Meirelles, encantaram o mundo, deram um empurrão e tanto para a decisão do COI e fizeram a comitiva brasileira ir às lágrimas quando da sua exibição na Dinamarca. Meirelles, louvado aqui e alhures pela belezura das cenas que mostravam o Rio como a cidade maravilhosa e irretocável que é, cantada e decantada no cancioneiro popular, reagia com modéstia aos elogios. Dizia que não fez nada demais, que não fez ficção, não criou efeito especial algum, apenas mostrou uma cidade linda, como de fato o Rio é e continuará sendo.

O país, quase inteiro, mimetizou a reação de explosão de euforia encabeçada pelo choro do presidente Lula, pelos pulos, lágrimas e berros do governador Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes, de Pelé, que de tão tonto e embevecido confundiu Michael Jordan com Michael Jackson, Hortência, Paulo Coelho e trocentos papagaios de pirata. Quem não euforizou junto foi imediatamente guindado à condição de urubu, corvo ou qualquer coisa agourenta. Onde já se viu contrargumentar falta de dinheiro para tanto, problemas estruturais urgentes do país, risco em potencial de empreiteiros devorarem metade dos recursos das obras? Tudo coisa de gente pessimista, sabe-se.

TOCHA – Desde então ficou impossível ligar a televisão e não ouvir qualquer referência a quantos milhões o Brasil e, principalmente, os governantes do Rio de Janeiro, haviam economizado em propaganda gratuita, diante do volume imensurável de mídia espontânea, em todo o mundo, exibindo as imagens irretocáveis da cidade captadas pela equipe de Meirelles. O turismo iria faturar bilhões já, imediatamente, graças à tal mídia espontânea em escala literalmente Global. A Rede Globo, até hoje com um palito atravessado na garganta por ter perdido para a Record o direito de transmissão das Olimpíadas em 2012, em Londres, passou as últimas semanas comemorando a conquista, pois já tem assegurada a transmissão de 2016.

Duas semanas depois, no entanto, novas imagens aéreas do Rio de Janeiro voltaram a correr o mundo, de novo ocupando telejornais do mundo inteiro e sendo manchete dos principais jornais impressos e digitais de todo o mundo. As imagens eram igualmente espetaculares, de uma tocha aérea, um objeto incandescente em movimento sobre uma cidade não mais tão maravilhosa assim. Brasileiro é um povo criativo, mas não, não era uma tocha olímpica chegando adiantada, mas um avião da polícia militar carioca pegando fogo no ar após ser abatido por uma saraivada de tiros disparados por traficantes de armamentos bélicos anti-aéreos no melhor estilo Bagdá.

VIOLENTO É O MUNDO – E haja mídia espontânea de novo, embora invertida, do tipo que afasta turistas e gera milhões de prejuízos na imagem positiva comemorada nos dias anteriores. TVs do mundo anunciavam 22 mortos no último fim de semana. O avião em chamas conseguiu pousar antes de ser totalmente devorado pelo fogo, por perícia miraculosa do piloto, mas três dos policiais que estavam nele morreram por queimaduras. Como tem se tornado praxe no Brasil diante de ações criminosas dessa natureza, as autoridades fizeram o que sabem fazer de melhor: confundir a opinião pública com jogos de palavras visando transformar merda em ouro, fracasso em mérito. Apressaram-se em dizer duas coisas. A morte de mais de 20 pessoas e um avião policial abatido no ar não era sinal de ousadia de bandido nenhum, mas uma prova da eficiência da Polícia do Rio. Graças a essa tal competência, os traficantes estariam perdendo território, estariam desesperados por saber que estão derrotados, etc. E bandido derrotado, sabe como é. Mas se o desespero é dos traficantes, que nome dar à condição emocional da população dos bairros atingidos, que na noite de terça-feira abandonavam, às centenas, suas casas para passar a noite distante, na rua, com medo de novos confrontos?

O outro argumento, mais importante: isso não atinge de modo algum a imagem de cidade olímpica do Rio. Nessas horas, a melhor coisa do mundo é esquecer o próprio rabo e apontar para o dos outros. Foram longo argumentando que, se o caso é violência, pior é Londres, que sediará jogos de 2012. Em julho de 2005, um dia após o COI anunciar a cidade como sede dos jogos olímpicos, terroristas tocaram o terror na cidade: 52 mortos e 700 feridos. Ou seja, para as autoridades brasileiras, violento não é o Brasil nem o Rio, mas o mundo.

– Os cariocas moradores do lado glamouroso da cidade, como o escritor Ruy Castro, por exemplo, no dia seguinte vociferavam o quanto é a imprensa que cria um clima exagerado de violência associado ao Rio. Numa rádio, ele afirmava que, enquanto a imprensa falava de guerra no Rio, ele próprio não viu nada desse terror generalizado. Passeou pelas ruas vazias de Ipanema, Leblon, Copacabana e “não havia nenhum clima de pânico, a cidade estava tranquila’. Faz sentido, pois quem disse que o Morro dos Macacos faz parte da cidade? E quem disse que haverá modalidade olímpica no morro ou em Vila Izabel? Lá, o que há são outras paradas, como arremesso de cadáver em carrinho de supermercado, como se viu na TV. Na cidade tranqüila, o único vestígio do morro são as fileiras do pó que financia as armas anti-aéreas que transformam avião em tochas.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 25 de Outubro de 2009. [email protected]

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