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TELEANÁLISE: DENTÕES, COLARES E RISCOS LÚDICOS

Por Malu Fontes.

malu fontesEsperta que só ela, Ana Maria Braga resolveu inaugurar seus dentões novos num período em que os olhos da mídia inteira estavam voltados ora para a fumaça ainda em torno do vestido da aluna da Uniban, ora para a politização, a arrogância e as trapalhadas das autoridades em torno do blecaute que deixou metade do país no escuro. Inspirada, não se sabe, se nos mordedores estreados um dia desses pelo ator Stênio Garcia, ou, quem sabe, acompanhando o que pode ser uma tendência dentária eqüina, pela proporção da verticalidade dos dentes, o fato é que o rosto da apresentadora ficou estranhíssimo.

Como bem já disseram os meninos do quadro “Exagerados’, do Fantástico, esse negócio de ficar bonito já está começando a ficar feio. Mas, diante das tantas estranhezas outras que se sobrepõem ininterruptamente neste país, que mente sã iria atentar justo para a nova coleção de dentões de uma apresentadora? Mesmo porque, como deter os olhos nos dentes se o que a mesma apresentadora mostra em sua tela é mais tão dantesco? Na segunda-feira, por exemplo, ela mostrava centenas de desabrigados das chuvas na baixada fluminense, muitos sem dentes, chafurdando como porcos na lama disputando donativos entre si.

VIDA PELOS ARES – Entre um sorriso e outro dos novos dentões cobertos de facetas que dialogam com o bico de espuma do Louro José, uma suspeição já pode se instalar à vontade na linha de raciocínio dos telespectadores capazes de supor só um pouquinho adiante do que lhes propõem. Se o poder público, passada uma semana do incidente, não conseguia dar sequer uma explicação convincente para que o sistema de energia do país tivesse pifado no grau em que pifou, e se as autoridades insistiam tanto na tese de que o sistema era absolutamente impenetrável por piratas da Internet, é porque há coisa mais séria. Ou, paradoxalmente, coisas mais prosaicas, tão prosaicas que nem próprio governo deve saber ou não quer que a população saiba, para não se expor ao vexame de deixar o mundo saber o quão é de vidro os telhados da segurança de sistemas estratégicos no país.

Durante as décadas em que vigorou a guerra fria entre os blocos capitalista e socialista que bipolarizavam o poder econômico e militar no mundo, qualquer indivíduo mais pessimista tinha todos os motivos para acreditar que a vida no planeta dependia tão somente dos humores dos dois homens mais poderosos da terra. Temia-se e tremia-se por um arroubo de poderio militar de um dois que pudesse levar a vida pelos ares. De lá para cá, o que não faltam são versões apocalípticas sobre o fim da vida na terra, seja envolvendo energia nuclear, bombas químicas de um dos doidos do oriente médio ou, por exemplo, da Coréia do Norte e desfechos tão trágicos quanto.

NERDS E COLARES – No entanto, a tomar-se como possibilidade a chance de um hacker ou cracker ter desligado três linhas de transmissão de Itaipu, o risco de desligar o mundo ou, no mimimo, de desligar a vida de meio mundo de gente, passa a ser uma hipótese muito menos ligada ao poder político e econômico e muito mais próxima das atividades lúdicas, diga-se assim, de nerds desafiados pelas possibilidades infindáveis da informática e das novas tecnologias. E pela simpatia e gentileza que se vê nos ministros Edison Lobão e Dilma Roussef diante das câmeras de TV nas entrevistas sobre o blecaute, quem é doido questioná-los sobre tais especulações relacionando-as a Itaipu? A delicadeza de Roussef e a tolerância argumentativa de Lobão vistas nos telejornais da semana são a mais radical ilustração da falta de vontade dos poderosos de suportar a imprensa, essa incômoda.

Diante da absoluta falta de garantias para negar que se vive em um mundo em que as chances e os riscos de se ter ou não energia elétrica no interruptor ou até mesmo de permanecer vivo no momento seguinte pode depender cada vez mais e tão somente dos propósitos lúdicos de adolescentes com espinhas na cara, melhor mesmo é cultivar o otimismo, não exercitar muito a imaginação e dar-se um auto-incentivo para seqüelas neurológicas voluntárias. Um exercício exemplar para isso é, por exemplo, imaginar o que pode haver em comum entre Ana Maria Braga e a ministra Dilma Roussef. Sim, algo deve haver, pois uma tem a falta de constrangimento de sair de casa ostentando os colares e os ternos femininos mais feios já produzidos no mundo e a outra sai do dentista com dentes numa extensão vertical tamanha que daria para promover quase uma reforma agrária-dentária em muitos dos banguelas desse país. A propósito, programa especial da GloboNews exibido na semana informava que 25% dos brasileiros não tem na boca um dente natural sequer. Se a estrela das donas de casa na TV estiver nesse universo, ninguém se surpreenda.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.

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