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RETRATO MAGNIFICO DE UMA CIVILIZAÇÃO

Por Daniel Thame.

A história da chamada Civilização Cacaueira, onde opulência e decadência não são apenas uma rima, envolve personagens e fatos que soariam inverossímeis até na ficção. Mas são incrivelmente reais.

Pouquíssimas regiões no planeta pularam da riqueza extrema para a pobreza franciscana em tão curto espaço de tempo, assistindo, impotente, ao ouro que tudo permitia se transformar no pó que nada valia.

O salto (no abismo) da riqueza para a pobreza, provocado pela vassoura-de-bruxa, que mudou radicalmente a vida de milhares de pessoas, dos mais ricos aos mais pobres, tornou-se uma espécie de tabu no Sul da Bahia, como algo a ser esquecido.

Histórias de vida fascinantes, pela conjunção ápice/derrocada, estavam destinadas ao esquecimento e ao anonimato, visto que é raro alguém assumir, com o espírito desarmado e com a sobriedade necessária, que os reis estão nus e que os reinos se esfarelaram.

A lacuna começa a ser preenchida com iniciativas como o filme-documentário Os Magníficos, dirigido pelo francês Bernard Attal. O filme, com depoimentos fortes e imagens impressionantes, mostra a grandeza e o empobrecimento de famílias de produtores rurais no Sul da Bahia, com foco especial no município Itajuípe.

Os depoimentos de Amélia Amado, herdeira de uma das maiores fortunas do Sul da Bahia e que teve que vender ate o mobiliário para sobreviver, da família Pepe, para quem o mundo era ali na esquina na nos tempos áureos e hoje vive frugalmente; de Paulo Jorge, o Paulão que quando estava enfastiado pegava um avião pela manhã em Ilhéus, fazia a barba num salão chique do Rio de Janeiro, passava a tarde tomando chopp no Copacabana Palace e à noite já estava na fazenda e hoje vive num casebre de madeira; são o relato de uma época que, até para servir como lição, não deve ser relegada ao limbo.

Há ainda os depoimentos de gente que conseguiu enxergar uma luz no fim do túnel, antes de ser atropelado pelo trem descarrilado da crise, como o empresário Helenilson Chaves e sua pregação empreendedora, e o produtor João Tavares, que trata o cacau menos como símbolo e mais como negócio.

E há, também, o depoimento de um trabalhador rural, para quem os bons tempos de resumiram a uma dentadura, substituta dos dentes que doíam e ele ia arrancado; além de uma referência a opulência das festas da alta-sociedade, que faziam dos colunistas sociais espécie de vice-reis.

O filme mescla falas fortes com imagens impressionantes, numa profusão de fazendas fantasmas, amareladas e cacaueiros infestados pela vassoura-de-bruxa. Sem pieguismo, deixando que a emoção salte da voz dos entrevistados e das histórias que cada um tem para contar.

Os Magníficos, que foi apresentado nos centros culturais de Itabuna, Ilhéus e Salvador e exibido pela TV Educativa é um desses filmes que, a exemplo do que mostra, não pode ser relegada a um pequeno público.

É para ser exibido em escolas, associações de moradores, sindicatos e espaços públicos, como um relato de um tempo que não volta mais, como lição e também como uma sinalização de que, mudando paradigmas arraigados há tantas gerações, é possível reescrever a história, substituindo a palavra crise pela palavra oportunidade.

Uma sinalização de que poderemos ser magníficos protagonistas de uma outra História, sem relegar histórias que em sua opulência e pobreza foram igualmente magníficas.

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Uma resposta

  1. Não se pode culpar somente a vassoura-de-bruxa.

    Os resultados que saboreamos hoje, amargamente, foram forjados ao longo de dezenas de anos de pensamentos e atitudes afogados no atavismo.

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