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TELEANÁLISE: AS VASSOURAS DA MORALIDADE E A VACA

Por Malu Fontes.

Quaisquer programas na linha reality show, como A Casa dos Artistas, A Fazenda e o clássico do gênero, o Big Brother Brasil, não se caracterizam exatamente por ter em seus elencos e repertórios pessoas que se destacam por suas performances intelectuais e temas elevados e enriquecedores para os telespectadores. O formato é um fenômeno cuja idéia central é ancorada na certeza de que um contingente populacional imenso do país vai passar meses assistindo a um bando de anônimos dizendo coisa com coisa e fazendo absolutamente nada produtivo.

Há quem diga, inclusive, que os telespectadores se identificam tanto com o formato do programa porque nele podem ver um bando de ninguéns, os BBBs, iguais a eles próprios (telespectadores), fazendo exatamente o que ambos mais sabem e querem fazer na vida: nada! Passam o dia fazendo e falando besteiras e bobagens e esmo. Portanto, a questão é: do lado de cá da tela, a rapaziada, como dizem os sambistas, com o mesmo perfil e pertencente aos mesmos grupos sociais da amostragem daqueles que vão para os BBBs da vida, é diferente em quê, em termos de conteúdo e comportamento, desses que são os novos ídolos nacionais da última semana?

HOMOFOBIA – O fato é que, por mais medíocres, medonhos e tapados que sejam os BBBs e seus primos pobres do gênero reality, sejam os da mesma emissora ou das demais, uma categoria de gente que surge em oposição a estes é talvez mais assustadora e espantosa. Arrebatados de surtos de conservadorismo e coisas que tais, senhores e senhoras supostamente do bem e zeladores das morais e dos bons costumes do mundo, saíram esta semana de suas catacumbas medievais. Atribuindo a si mesmos a tarefa de empunhar as vassouras da moralidade do mundo, desejam fazer uma faxina e extirpar da sociedade todos os males comportamentais. A limpeza deveria culminar com a televisão sendo condenada eternamente ao silêncio verbal e imagético. Não raro, essas pessoas guardiãs da honra da espécie assustam mais que os personagens a quem pretendem condenar.

Diante do teor de cartas de leitores na imprensa escrita, de posts veiculados em sites de amplo acesso e de declarações de autoridades que representam determinados segmentos sociais importantes, não é de todo uma piada desejar tomar partido e ficar mais ao lado da futilidade dos BBBs. Em função da presença de três homossexuais que já ingressaram no programa explicitando sua condição sexual, o que se tem visto, lido e ouvido de manifestações homofóbicas contra o trio leva a crer que, para muitos, é uma frustração e tanto que não se tenha por aqui uma legislação considerando a homossexualidade um crime.

Parece inacreditável que, em 2010, homens e mulheres adultos, capazes de se expressar em palavras, sintam-se à vontade e confortáveis para manifestar publicamente a tese de que a presença gay no horário nobre na TV, no BBB, representa um risco intenso à moralidade dos filhinhos da honrada família brasileira. Pelo andar da carruagem, embora supostamente a intenção da emissora seja, além de causar polêmica, ‘contribuir’ para o agendamento da temática gay na TV, ninguém se assuste se o tiro sair pela culatra e as famílias zelosas deflagrarem uma onda de homofobia e rejeição contra os três integrantes não heteros do programa.

VAGABUNDA – Como a Bahia é a Bahia, mesmo que se esforce não consegue ficar de fora de polêmicas absurdas, que podem envolver desde jegues a lencinhos que envolvem o cabelo de estrelas do axé, eis que um major da Polícia Militar baiana, irritadíssimo com o comportamento desinibido de uma soldado da corporação, Anamara, exportada para o BBB direto da PM de Juazeiro (BA), disse (depois desdisse, como baiano adora fazer, mas ninguém ficou sabendo do desdizer) que ‘a vagabunda’ estava expondo a corporação.

Ah, se consultado, o telespectador talvez argumentasse que, diante da mera exposição de peitos e bundas no na TV no BBB, o que expõe mesmo a medula da corporação é o contingente da banda podre da Polícia, volta e meia envolvida em crimes mais cabeludos que aqueles cometidos por gente que tá atrás das grades. E por que esses não são chamados de vagabundo, ora, se é o que são?

VACA – Enquanto isso, na TV local, ninguém pode reclamar de falta de criatividade. O programa Na Mira, numa semana em que os telespectadores já estavam por demais mareados pelo excesso de cadáveres do Haiti na tela da TV, escolheu uma via estética e ética mais criativa. Para que mais cadáveres humanos numa semana em que a TV já exibira tantos? Na quarta-feira, entediado de tanto ver gente morta, o Na Mira recorreu ao cadáver de uma vaca, coitada. Roubada do seu dono bem pobrinho, mostrado inconsolável diante das câmeras, o bicho foi morto e teve suas partes esquartejadas expostas na tela durante longos minutos, com direito a repetição e repetição. Com direito também a close nos peitos extirpados do animal, úberes imensos intumescidos de leite. O autor do crime? Um ladrão açougueiro maldito de um abatedouro clandestino em Santo Amaro.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.

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Uma resposta

  1. Que texto e esse gusmão. estou contemplado por demais. eu penso o mesmo a respeito do BBB, e sou tido com chato. continue postando textos ricos com esse. abraço.

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