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REFLEXÕES SOBRE AS MULHERES NO CONTEXTO DA CACAUICULTURA

SAM_1787Por Katianny Estival.

No ano de 2012 a Organização Internacional do Trabalho – OIT instituiu o seguinte tema para comemoração do Dia da Mulher: “Empoderar a Mulher Rural e Eliminar a Pobreza e a Fome” com base na conclusão de que “as mulheres rurais recebem uma remuneração inferior à dos homens e frequentemente ficam para trás no acesso a educação, na formação, na tecnologia e na mobilidade” (OIT, 2013).

Dados de pesquisas realizadas pela OIT (2013) indicaram que 70% da força de trabalho em algumas economias são baseadas fundamentalmente na agricultura e as mulheres constituem cerca de 43% da mão de obra agrícola nos países em desenvolvimento.

As mulheres rurais além de trabalharem nas atividades agrícolas também assumem, de maneira desproporcional, a responsabilidade do cuidado das crianças e dos idosos. As jornadas de trabalho das mulheres rurais são maiores do que as dos homens e grande parte do trabalho que realizam continua sem reconhecimento, porque não é pago e se circunscreve ao âmbito doméstico (OIT, 2013).

Os dados e informações da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2013) também podem ser constatados na análise teórica e empírica da realidade das mulheres agricultoras da região Sul da Bahia.

De acordo com o relatório publicado pela organização OXFAM (2013) as mulheres que trabalham em fazendas de cacau geralmente recebem menos do que os homens; raramente possuem a terra que elas cultivam, mesmo se elas trabalham na atividade durante a vida toda. Também foi identificada a prática da discriminação e assédio no trabalho.

A pesquisa que realizei no ano de 2013 sobre as construções sociais dos mercados de qualidade do cacau no Brasil também apontou que as mulheres agricultoras de cacau não têm as mesmas oportunidades para participar no desenvolvimento dos conhecimentos sobre a produção agrícola e no crescimento do retorno financeiro pelo seu trabalho quanto os homens. Por causa da falta de capital e terra, as mulheres têm dificuldades para obtenção de empréstimos. Esta situação limita a capacidade das mulheres para comprar fertilizantes, sementes e consequentemente para melhoraria da produtividade e da renda (OXFAM, 2013a).

O vídeo Gênero e produção de cacau filmado e produzido pela OXFAM (2013b) em fazendas de cacau no Sul da Bahia aponta para a realidade semelhante dos problemas de gênero e da discriminação do trabalho das mulheres cacauicultoras no Brasil.

Apesar dos objetivos do estudo que realizei sobre as construções sociais dos mercados do cacau e chocolates no Brasil não contemplarem inicialmente a análise do trabalho das mulheres e as reflexões sobre as questões de gênero no trabalho nas lavouras cacaueiras do Brasil, foi possível identificar que as mulheres exercem um papel cada vez mais importante no desenvolvimento dos mercados de qualidades nos sistemas agroalimentares em diversas culturas agrícolas, principalmente nos países em desenvolvimento.

No estudo sobre a sustentabilidade social e econômica da cadeia global de valor do cacau, Barrientos et al (2010) destaca que as mulheres apresentam um papel fundamental na execução de atividades da produção e processamento primário do cacau para a garantia da qualidade das amêndoas, característica cada vez mais valorizada para a produção dos chocolates finos e cosméticos. Mas as mulheres no contexto dessa cadeia produtiva, não possuem reconhecimento formal do trabalho executado, que é contabilizado quase sempre como um trabalho familiar e não remunerado, o resultado do trabalho não reconhecido são salários desiguais e a renda inferior das mulheres que atuam na atividade.

Apesar do reconhecimento da importância técnica do seu trabalho, que é avaliado como mais eficiente do que o trabalho executado pelos homens em algumas etapas do processo produtivo, como por exemplo, nas etapas que demandam controles de qualidade mais específicos, como a etapa de fermentação das amêndoas de cacau, são pouco reconhecidas as identidades femininas no mundo rural quando buscamos representações políticas, gestoras, assim como, são pouco consideradas as necessidades e os problemas específicos enfrentados por essas mulheres que atuam nas atividades rurais.

Portanto, acredito que é pertinente considerarmos nas perspectivas políticas, programas e projetos governamentais e não governamentais a valorização e a criação de oportunidades para que as mulheres que atuam no contexto do rural brasileiro possam deixar de serem indivíduos “invisíveis” e sejam incluídas como atores importantes para o crescimento e desenvolvimento da agricultura no país, principalmente para o enfrentamento dos problemas atuais como êxodo da mão de obra, violência, necessidade de profissionalização, diversificação das atividades produtivas e mediação de conflitos.

*Este texto é dedicado às mulheres do mundo do cacau no Brasil que conheci durante o trabalho desenvolvido na pesquisa da tese nos Estados da Bahia, Pará e Espírito Santo, especialmente à Líder Comunitária do Assentamento João Amazonas, no Sul da Bahia, a Senhora “Dona Onça”.

Professora e Pesquisadora da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus – Bahia – Brasil. Departamento de Ciências Administrativas e Contábeis.

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Uma resposta

  1. Boa reflexão Katianny! São muitas as diferenças que ainda temos que superar. É bom ter pessoas como você que teve uma boa vivência no campo escrevendo textos dessa natureza para nos abrir os olhos.

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