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O PAPA FRANCISCO E OS HOMOSSEXUAIS

wilson gomesPor Wilson Gomes

Traduzo abaixo os trechos que considerei mais pertinentes da entrevista do papa Bergoglio a La Civilità Cattolica, de que se está falando. E faço dois comentários em seguida. 

“Em Buenos Aires eu recebia cartas de homossexuais, que são “feridos sociais” porque me dizem que sentem o quanto a Igreja lhes tenha condenado sempre. Mas a Igreja não quer fazer isso. Durante o voo de retorno do Rio de Janeiro disse que, se um homossexual é uma pessoa de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-lo. Ao dizer isso, eu expressei o que já diz o Catecismo. A religião tem o direito de manifestar a própria opinião para com ela servir a todos, mas Deus, na criação, nos fez livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é mais possível”.

“Uma vez uma pessoa me perguntou, na forma de uma provocação, se eu aprovava a homossexualidade. Eu então lhe respondi com outra pergunta: «Diga-me: Deus, quando olha um homossexual, aprova-lhe a existência com afeto ou a rejeita por meio de uma condenação?». É preciso sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas, e nós devemos acompanhá-las a partir da condição delas. É preciso acompanhá-las como misericórdia”.

“O confessionário não é uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que deixou para trás um matrimônio fracassado no qual tenha até mesmo abortado. Depois esta mulher se casou de novo e agora está tranquila com cinco filhos. O aborto lhe pesa enormemente e é sinceramente arrependida. Gostaria de continuar na vida cristã. O que faz o confessor? Não podemos insistir apenas sobre questões ligadas ao aborto, casamento homossexual e uso de métodos anticoncepcionais. Isso não é possível. Nunca falei muito disso e fui criticado. Mas quando se fala disso, é preciso falar em um contexto. O ponto de vista da Igreja, ademais, já é conhecido e eu sou um filho da Igreja, mas não é preciso ficar falando o tempo todo disso”

Parece pouco, meus caros, mas não é.

O papa resolveu enfrentar a questão do ponto de vista pastoral (i. é, para ficar na metáfora rural do cristianismo, do modo como os pastores devem cuidar do seu rebanho) e não do ponto de vista da doutrina. Preocupa-lhe que doutrinas duras sobre os pontos nevrálgicos das divergências morais (gays, aborto, métodos contraceptivos) em que a Igreja representa uma posição minoritária se materializem em atitudes impiedosas, humilhantes ou de rejeição por parte do clero em face das pessoas que adotaram comportamentos não obedientes à prescrição moral eclesial nestas questões. Tematiza particularmente o sofrimento dos homossexuais, que se sentem ofendidos e rejeitados pela Igreja, dos divorciados recasados e das mulheres que já abortaram. As palavras-chave do papa aqui são “misericórdia” (versus “impiedade”), “acolhimento” (versus “rejeição”), compreensão (versus “julgamento”). Além disso, refuta a obsessão clerical, na pregação e na confissão, por estes temas nevrálgicos que provocam tanto sofrimento em muitas pessoas. 

Não quer dizer que queira mudar doutrinas, quer dizer que deseja que mudem as atitudes do clero e dos religiosos a respeito dos homossexuais, dos divorciados recasados e das pessoas que já abortaram. Não vê porque se deva ficar preso nesses temas, como se isso fosse o centro da espiritualidade e da crença católica; Não concorda com uma atitude constante de dedo em riste e julgamentos punitivos, mas na confiança que Deus, que fez todo mundo livre, não rejeita, mas acolhe todos os seus filhos; Recusa, além disso, a atitude clássica, defensiva, das religiões sobre estes temas, segundo a qual se não tratarmos com severa impiedade os “pecadores” eles voltarão ao pecado (ou se respeitarmos os homossexuais, todos começarão a achar normal a homossexualidade). Não, a posição pastoral de Francisco não parece estar preocupada em salvar a doutrina (que continua em seu lugar) pela correção e punição do comportamento; o papa parece mais preocupado com o sofrimento daqueles que são o objeto do juízo severo e pouco acolhedor dos religiosos e clérigos – o que é uma posição muito incomum no campo religioso hoje.

Eu achei digno. Muito digno.

Esse texto foi publicado no Facebook do autor.

Wilson Gomes é professor Titutar de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia, pesquisador e orientador no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas daquela universidade. É graduado, mestre e doutor em Filosofia (Universitas a Scte. Thomae, Roma) e graduado em Teologia (Universitas Gregoriana, Roma). Doutorou-se em 1988 com uma tese sobre a idéia de construção da realidade no Idealismo Alemão, na Fenomenologia e na Hermenêutica. Em 1998, realizou estágio pós-doutoral em Cinema na Universidade de São Paulo. Desde 1989 ensina, pesquisa e orienta na área de Comunicação, nas especialidades de comunicação e política e democracia digital. É autor de Transformações da política na era da comunicação de massa (S. Paulo: Paulus, 2004 e 2008), de Jornalismo, fatos e interesses (Florianópolis: Insular, 2009) e co-autor, com Rousiley Maia, de Comunicação & democracia: problemas e perspectivas (S. Paulo: Paulus, 2008).

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Uma resposta

  1. Concordo plenamente com a questão de que o centro da pregação Cristã não sejam estes tema, porém quando se questiona um sacerdote cristão sobre essas temáticas não se deve esquecer de explicar a luz das escrituras sagradas que tais comportamentos não são aprovados por Deus, e isso não é fundamentalismo algum. “Infelizmente” o que a bíblia ensina, nem sempre será aquilo que desejamos ouvir. Deus ama o pecador, mas não suporta o pecado. Em 1º João 1:9 diz que Deus é fiel e justo para nos perdoar, mas temos que nos arrepender e confessar os nossos pecados a ELE. Não adianta falar aquilo que as pessoas querem ouvir, o grande profeta João Batista pregava com autoridade e sem medo de contrariar a sociedade da época, e o resultado foi que o mataram. Hoje se um evangélico disser que não é conivente com o homossexualismo ou aborto, ele é taxado de fundamentalista e preconceituosos. Isso na verdade é LIBERDADE de expressão, um direito conquistado em 1988. Não sou a favor do preconceito, devemos ajudar as pessoas que desejam mudar o seu estilo de vida, negar as suas vontades e fazer a vontade do grande Deus. O grande mestre disse: Quem quiser vir pós mim, tome a sua cruz e siga-me. Obrigado pela oportunidade de colocar um comentário e que Deus nos abençoe!!!

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