MEDO

jamal-padilha-11Por Mohammad Jamal

A inadimplência do Estado, sua impassível frieza combinada à truculência com que se impõem pela força bruta através seus órgãos de segurança e repressão públicas, mais a morosidade da justiça; faz qualquer cidadão com mínima racionalidade, em sendo ele detentor de algum patrimônio intelectual, moral ou imobiliário, temer o Estado. Refiro-me claro, aos cidadãos e cidadãs do povo, gente simples, sem vínculos políticos; sem eira nem beira. Esses devem temer sim, pela simples lógica do sobreviver. Por aqui o direito e a ordem pública funcionam assim: obras literárias são copiadas, impressas ou convertidas em arquivos (.pdf) e vendidas pela Internet; obras cinematográficas também são copiadas, às vezes na pré-estreia, e logo em seguida já estão nas ruas a R$2,00 a mídia. Isso para não iniciarmos pela imensa lista de produtos made in Paraguai, China, Taiwan, “pirateados”; como medicamentos; roupas; eletroeletrônicos; brinquedos, tudo cópias quase “fiéis” dos originais, não fossem a má qualidade e o preço seus principais e duvidosos atrativos. 

Vivemos um momento esdrúxulo onde impera as estereotipias e aberrações político-administrativas exacerbadas pela ânsia e desespero de muitas “lideranças” ante o advento iminente da seletiva corrida eleitoral, sem obstáculo e sem regras, em direção ao poder quiçá, pelo predomínio em sua perpetuidade. Há postulantes mágicos, profetas; há supostos “Messias” transbordantes de misericórdias; alquimistas capazes de transformar chumbo em ouro. Temos grandes aspersores de esperanças e quimeras apoiados numa pseudosofia singular literalmente voltada para seus próprios interesses. A guerra pelo poder já se prenuncia encarniçada e violenta. Em “Textos Anárquicos” de Michael Alexandrovich Bakunin, lê-se que “… Não ha guerras ou revoluções armadas sem que haja perdas de vidas inocentes abatidas pelo fogo amigo”. A guerra pelo poder já nos transparece antecipar suas numerosas vítimas, mais uma vez entre o povo, abatidas pelo fogo cruzado dos engodos e promessas de sempre.

O paradoxal em tudo isso é que não obstante os “acordos e coligações” celebrados entre as hierarquias dos exércitos políticos com suas siglas e bandeiras ideológicas de conteúdos obscuros, enigmáticos, porque não dizer, lábil; sempre há os compadecimentos e anistias para com aqueles parceiros de lida, que tombaram no fragor da batalha política. Nesses casos, não ha consequenciais desdobramentos maiores que o cometimento do mero pecado venial do falso testemunho, das promessas desditas; das mentiras puídas pela repetição ou, em casos extremos, dos ilícitos capitulados como Falsidade Ideológica, sob a compassividade judiciosa das leis que os condenam a pão de ló e suco de frutas em prisão semidomiciliar nas suas faustosas mansões! Parte em casa e outra nas ruas em contato e convescotes com as “bases” e correligionários amigos. Isso só não incute medo àqueles que desconhecem a razão; os loucos varridos! Faz medo sim! 

Segundo Dalgalarrondo (2006), o medo se apresenta em diferentes escalas até a sua inativação, ou seja, ele vai gradativamente tomando uma proporção até que o indivíduo tenha seus sentimentos e emoções estabilizados, dividindo-se em seis fases de acordo com o grau de relevância em extensão e imensidão, são eles: 1. Prudência; 2. Cautela; 3. Alarme; 4. Ansiedade; 5. Pânico (medo intenso); 6. Terror (medo intensíssimo). 

“O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer.” (DALGALARRONDO, pg. 109). 

O medo não é um sentimento exclusivo dos seres racionais, porque alguns animais, quando acuados e, visivelmente atemorizados demonstram seu medo evacuando suas fezes, urinando, regurgitando alimentos dentre outros eventos instintivo fisiológicos. Contrariamente ao homem, os irracionais não projetam nem antecipam seus medos. Somente o homem, por racionalmente lógico, projeta a partir de uma serie de variáveis indiciais, casuísticas, historiografias e vivências, algumas até empíricas, suas previsibilidades que caracterizam os medos racionais. Digamos, impulsionados pelo instinto da sobrevivência. O pior dos medos é aquele vivenciado nas antevisões em que não encontramos alternativas opcionais ou qualquer forma de escape. Por exemplo, como sobreviveremos em futuro próximo diante das decorrentes dos atos contínuos do “sistema” sobre o proletariado? Nesse exemplo a incerteza embasada na realidade induz medo e pavor. Ou não? 

Ora, vemos o Estado perder fragorosamente a guerra contra a criminalidade; vemos o aparelho do Estado obsoleto, ultrapassado; sem políticas públicas consistentes, sem análise aprofundada da situação e das reações populares que resultem em projetos efetivos e exequíveis capazes de conter os elevadíssimos índices de criminalidade no país. O cidadão brasileiro, desarmado, é um refém em seu próprio domicílio residencial ou comercial. O povo se encontra em prisão domiciliar e o meliante leve, livre e solto… Em contrapartida ao desaparelhamento das polícias mal treinadas; mal armadas; mal equipadas e, à mercê de soldos e salários miseráveis, incompatíveis com as perigosas funções que exercem com riscos à própria vida! E não esqueçamos que policiais são caça para bandidos! 

Ainda assim, a despeito da manifesta insatisfação e desaprovação da população brasileira, contra a situação caótica do sistema público de saúde; com a educação de baixos níveis; falta da merenda escolar; com o transporte público horrível; com a Previdência Social; com o sistema viário e ferroviário brasileiro, onde somente as estradas e ferrovias, pagas, as privatizadas, com pedágios, ainda estão em condições razoáveis para trafego. Não obstante a isso, o governo esbanja o dinheiro público aos bilhões para custear a peso de ouro e vidas humanas, um evento esportivo internacional para as classes A e B. Estádios esportivos caríssimos e obras de infraestruturas faraônicas, enquanto o cidadão morre por falta de hospitais e médicos; por falta de um medicamento barato, um exame diagnóstico; uma radiografia, uma extração dentária. Ainda assim, mais alguns milhões adicionais estão sendo gastos com o reaparelhamento das forças policiais com equipamentos sofisticados; armamentos; veículos especiais com canhões de água e lançadores de gás lacrimogêneo, e mais as forças militares do Exército, Marinha e Aeronáutica, com especificidade à repressão das manifestações coletivas do proletariado. Tudo isso para reprimir e fazer calar o grito do povo nas demonstrações e manifestações públicas às ruas; contra esse estado de coisas à nossa revelia e detrimento, que nos agride os direitos constitucionais em flagrante desrespeito às liberdades democráticas das manifestações públicas combatidas violenta e policialescamente pelo Estado, desconfortado pelas demonstrações populares agravadas com a proximidade das eleições. 

Esse é o único momento em que o homem público postulante a cargo eletivo mostra um lapso da sua vulnerabilidade. Quando sobe a ladeira, pisa na lama, na bosta e, pede licença pra entrar e implorar o nosso voto, com olhos lacrimosos e cara untada de óleo de peroba. Esse é o nosso momento mais sublime! Eles estão temporariamente com o pires na mão implorando-nos o voto que os converterá em soberanos impávidos. Logo, empossados, estarão descascando enormes bananas ate os cotovelos contra nós. Tudo esse processo a que se resumiu a campanha pelo voto, não passou de um inconsequente ato de sexo casual, inconcensual porquanto obrigatório e com ejaculação precoce. Findo num lapso, quando ainda nem se fumou um cigarro nem se perguntou ao desconhecido parceiro, o usual: “foi bom pra você?”, haja vista que a unilateralidade exclusivíssima do orgasmo ser atingida ao culminar da eleição; precedida que foi pelo simbolismo lascivo de que se reverte essa cópula eleitoral intensamente democrática e, sem riscos de paternidades ou perfilhamentos futuros.

Dá ou não dá medo ser bastardo do Estado? Eu estou apavorado!



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