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GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Gabriel García Márquez.

Por Otávio Filho

Quando fui convidado pelo amigo Emílio Gusmão a comentar a obra de Gabriel García Márquez, quando da sua morte, o luto apenas começava. E o luto é um dos sofrimentos mais brutais, com ele não sentimos e nem olhamos o mundo com o mesmo olhar. Transfigura a realidade e só a dor ecoa em nossa alma.

Dezenas, centenas de textos analíticos de jornalistas que se tornaram amigos, de acadêmicos, de escritores etc etc… enfim, um mundo de gente falou ou escreveu algo sobre Gabriel García. Muito já foi dito e muito ainda se dirá sobre a sua importância, um gênio do nosso tempo. Agora, na hora da sua morte, é possível ver a forma quase obscena como a mídia mundial promove suas exéquias. O palavrório ad infinitum a proclamar a importância do morto ilustre, os intermináveis membros das academias de letras declamando as mais diversas convicções. Tudo muito legal, raquítico, tudo demasiado humano.

Minha contribuição seria imprecisa diante de tanto material disponível. Por esta razão é que peço aos leitores clemência diante da ousadia em narrar meu encontro com a obra de García Marquez pelo viés da minha singularíssima circunstância.

O sol resplandecia na escuridão. Encostei a janela deixando fina abertura por onde o mistério da luz desliza uma linha brilhante. Na cama, Maria Clara exalava perfumes de sonhos. Estávamos numa casa do século 17, numa ruazinha cravada no coração de Cartagena, na Colômbia.

García Marquez já publicara os Cem Anos de Solidão. A língua espanhola, e o seu modo de dizer o mundo, aprendi nos lábios de Maria Clara e na calma das tardes de amor pelas praias escondidas de Santa Marta. Quando, um ano depois, desci o rio Solimões desde Letícia para Manaus, encontrei o Amazonas navegando pelos mares de Macondo. As palavras dos Cem Anos drenavam leite e mel nas minhas veias abertas, sedentas de sonhos oceânicos.

Em Yo no vengo a decir un discurso, título de uma de suas obras, Gabo diz o mesmo, dizendo de outro modo, que o mesmo é, em si mesmo, o diferente. Não eram truques mirabolantes nem falácias de lábias fáceis. O que se aprende na obra de García Márquez é a doçura do dizer, do lembrar ao outro, sobretudo aos poderosos donos das riquezas materiais do mundo, que o homem é o valor supremo, que a dignidade contida neste valor deveria orientar os rumos da humanidade. A melhor expressão disso está no seu belíssimo agradecimento pronunciado por ocasião da cerimônia de entrega do seu Prêmio Nobel de Literatura.

Atual e dolorosa continua nossa solidão. Esta, a solidão, é a linha que percorre nossos labirintos de trevas e dúvidas. García Marquez e Octavio Paz, entre tantos outros, compreenderam e iluminaram os caminhos que temos de observar para encontrar o fio de Ariadne do nosso destino.

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Uma resposta

  1. E assim seguem imortais os tais que compreendem que o mais precioso nesta vida é servir e que pra que isso aconteça é preciso lembrar daqueles que nos servem.
    Que se tornem frequentes os textos inspiradores de Mestre Otavio Filho aqui no Blog do Gusmão.

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