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PELO DIREITO DE NÃO SER “CANTADA”

maízaPor Maíza Ferreira

Historicamente as mulheres foram excluídas dos espaços públicos. Para o homem estes espaços são como seus santuários. No entanto, para as mulheres esses lugares seriam apenas territórios de passagem, a sua permanência nesses espaços representava uma transgressão frente aos valores de várias épocas. Esse determinismo ocupacional faz parte da construção do gênero: ao homem o espaço público e a política, à mulher, o espaço privado e o cuidado da família. São inúmeras as transformações na relação de gênero em nossa sociedade, e a ocupação cada vez mais expressiva das mulheres na esfera pública é uma delas.

Acredito que para nós, mulheres, ainda seja um desafio nos colocarmos nos lugares públicos das cidades, mais especificamente as ruas. Frequentar esses espaços nos torna vitima do machismo de cada dia. As cantadas indesejadas e inesperadas evidenciam a ideia de dominação frente ao corpo da mulher. São infindáveis os argumentos que justificam tal ação, o mais comum deles é a roupa ou a prerrogativa da ausência dela. Nesse sentido, me questiono: como um elemento (roupa) tão particular e formador da identidade do individuo na lógica de uma sociedade machista, pode determinar o querer feminino? É necessário salientar que essa interpretação é equivocada e geram consequências ao cotidiano da mulher. Por exemplo, ao sair de casa quantas mulheres trocam de roupa ou até mesmo deixam de frequentar determinados locais temendo os olhares lascivos e oblíquos que a ti são lançados no decorrer de sua caminhada? Tornando a ação ainda mais agressiva, os olhares normalmente são acompanhados de palavras deprimentes para o ouvido feminino.

Observo que a prática de “cantar” me parece uma tentativa abusiva e não profícua de enaltecer a mulher para melhor submetê-la. Lamentavelmente essas práticas são rotineiras no nosso cotidiano. Ao realizá-las o “macho alfa” demonstra o modo como ele concebe a presença da mulher nos espaços públicos. Podemos dizer que o corpo da mulher seria o protagonista de um grande espetáculo e o homem a sua plateia. Justamente por estarem nessa posição eles se sentem no direito de manifestar-se com qualquer ação, cabendo às atrizes aceitarem as diversas reações. Não podemos ser provocadoras do caos, afinal, a sociedade pressupõe que sejamos “Maria” e não “Eva”.  

A ruptura dessa estrutura opressora em nossa sociedade, na minha opinião, é fundamental e emergencial. Não podemos mais aceitar o argumento de que esta ação é da natureza do homem, fruto de impulsos hormonais. Se continuarmos acatando e até mesmo reproduzindo esse discurso, nos tornamos complacentes com as variadas for­­mas de agressão as mulheres. O estupro é uma delas.

Maíza Ferreira é estuda História na Universidade Estadual de Santa Cruz.

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5 respostas

  1. Um bom texto que requer reflexão. Sou homem e, não obstante ser islamita; acho grosseiros e brutais o approach que alguns homens usam com as mulheres. Chegamos a pensar que, equivocadamente, eles supõem serem as roupas menores ou aquelas que estimulam à imaginação do “macho” os feromônios femininos indicativos de que estão “receptivas” e não o simples condicionamento e adequação do vestuário condizer à moda, ao clima ou evento. O que nos faz imaginar: se uma mulher bonita correr em desespero, nua em via pública para fugir de uma ameaça física ou moral, se socorrida por homens, certamente será estuprada…(!?). Nem tanto, nem tão pouco.
    Culpo esses eventos como causados pelo sexo casual – cópula – mesmo, praticado com extrema naturalidade entre homens e mulheres; mulheres com mulheres; homens com homens; mulheres, homens e animais em concorrida zoofilia, etc.
    Do meu ponto de vista, acho muito mais atraente e “lasciva”, como o disse a articulista, a mulher bem vestida, cheirosa e bonita, que a mulher semi exposta como corcovas de camelos nos açougues dos al-bazares.
    Acredito no bom senso e admiro o pudor convencional que algumas mulheres maravilhosas ostentam garbosas.

  2. Assim como são contemplados paisagens …pinturas, Gols.. A mulher também deve ser contemplada..acho desnecessário, muitas mulheres fazem comentários sobre o Homem também…

  3. Você, como aluna de história, deveria dar ao seu texto um contexto histórico mais palpável, no início, ao invés de uma exposição abstrata geral. O assunto, que necessita de uma reflexão cultural, não pode estar distante de exemplos e análises culturais (o que um conhecimento histórico é extremamente necessário).O texto, para mim, se passa por um ambiente de senso comum e generalidade muito grande,

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