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O PELOURINHO DA BARBÁRIE BRASILEIRA

Capa do jornal Extra (8 de julho de 2015).
Capa do jornal Extra (8 de julho de 2015).

Por Elisabeth Zorgetz

Elisabeth ZorgetzUm homem foi amarrado em um poste e espancado até a morte por moradores de São Luís depois de praticar um assalto a uma loja da região.

Com um suspiro e um gole amargo de café, engoli esta manchete na manhã de ontem. Sobre ela, a imagem de um corpo magro e negro, ainda preso ao tronco, varrido de sangue, com as pernas tortas para o lado. A ambulância ao fundo, um mar de gente, e aquele corpo negro ali: nu, exposto, inanimado, desgrenhado. Morto.

Não posso achar que é uma orientação exclusiva meu ofício ligar um ponto ao outro e, despida de todo anacronismo que possam me investir, ver imagem, signos, símbolos, devaneios, torpes neblinas de som, fúria e dor, ver pelourinhos de pé em tantos cantos deste país, negras e negros açoitados até a morte. Afinal, o tronco revivido no Maranhão nesta terça-feira foi somente mais um tronco literalmente fatal – a menos de um ano, tivemos algo assim em Salvador -, enquanto os troncos cotidianos vertendo sangue em suas mais grotescas formas de exploração, dominação, crueldade e discriminação são erguidos a todo tempo, todo canto.

Gostamos de castigar.  Açoitar.  Moralizar. Citar o Diabo, escantear Deus. O castigo do escravo infrator, nos tempos do regime da escravatura colonial, apresentava-se como parte do “governo econômico dos senhores”, aliados ao trabalho excessivo e ao alimento insuficiente. Podemos dizer, a infalíveis proporções, que algo realmente mudou? Mas veja só, o poder do senhor sobre o escravo não visava destruí-lo, mas, sim, otimizar sua produção econômica e diminuir sua força política. É justamente o perigo da perda de funcionalidade do sistema de dominação do senhor sobre o escravo que fez com que a punição senhorial fosse um agente político, manifestando-se e se reativando na punição do escravo faltoso com suas obrigações. Punir o escravo que houvesse cometido uma falta, não só era um direito, mas uma obrigação do senhor. Da mesma forma que a nossa sociedade, dotada de seus plenos poderes moralizantes, deseja punir e eliminar como exemplo, se necessário, o indivíduo que herda, socialmente, economicamente e historicamente, o fardo da escravidão: o negro.

Pouco importa se o negro assalta, trafica, mata. Percebem? Tanto faz. Sacrificamos, punimos e alijamos o negro por uma condição que nos parece intrínseca a ele. Nunca vi a “comunidade” se reunir com seu ímpeto pela ética e higiene social cercar um criminoso branco, amarrá-lo num tronco e espancá-lo até a morte. Para não ser intransigente, digo que mulher já vi. Ser arrastada pelos cabelos, desnudada e espancada até o óbito, como uma Madalena. O povo adora uma Madalena para maltratar. Ser mulher nesta sociedade também é uma posição de risco, quanto mais para uma mulher negra, que também pode ser amarrada ao poste, como pensam ser o seu lugar.

O espetáculo do açoite no pelourinho era anunciado publicamente pelos rufos do tambor. Era grande a multidão que se reunia na praça do pelourinho para assistir ao látego do carrasco abater-se sobre o corpo do próprio escravo condenado, que ali ficava exposto à execração pública. A multidão excitava e aplaudia, enquanto o chicote abria estrias de sangue no dorso nu do negro escravo para servir de exemplo aos demais. Quero reconstruir com vocês esta cena, como toda a minha limitação pelo resgate da memória histórica, disponível em fontes pictóricas, documentais e, de extremo valor, orais. Quero reconstruir para que consigam perceber a semelhança da barbárie. Mas acreditamos mesmo que a escravidão negra foi uma barbárie? Rezo para que sim. Então, poderíamos nos envergonhar e reparar esse comportamento pestilento.

A violência faz parte da agenda política nacional com muita intensidade. Mesmo tendo ganho relevância na esfera nacional nas últimas décadas, é um fenômeno que se faz presente na sociedade brasileira desde os primeiros contatos entre o colonizador e o colonizado, através da instituição de relações exploratórias e invasivas. Hoje, percebe-se que os setores mais vitimados são oriundos das classes menos favorecidas – o pobre marginalizado nas grandes periferias do Brasil. Indivíduo este, que, não por acaso, é majoritariamente negro.

Vivemos um acúmulo social da violência, que acompanha a própria dinâmica das estruturações políticas e econômicas da sociedade brasileira. A violência e o crime estiveram sempre presentes nas relações institucionais do Estado brasileiro desde o início da colonização. A violência não deixou de ser institucional e corporativista. Mesmo o país tendo ampliado os sistemas de segurança, percebemos que a violência e o crime se disseminam no espaço social e fazem surgir comportamentos contraditórios associados às novas sociabilidades entre os homens, que alteram linguagens, significados e representações, a exemplo da ordem e do conflito, da defesa e do ataque, do formal e do informal, do legal e do ilegal, contradições que complexibilizam ainda mais o entendimento deste fenômeno, que cada vez mais se banaliza e se instala na relação entre os homens. A violência se assevera na diferença. Na religiosidade, no gênero e orientação sexual, na faixa etária, na política partidária, no abismo socioeconômico. É por isso que jamais posso compreender que o assassinato de um policial seja considerado um crime hediondo, como acaba de ser sancionado. Ao contrário do que muitos imaginam, a distinção da pena não opera como exemplo de uma atenção que deve ser tomada de forma especial para as ferramentas da falida segurança pública, apenas impõe mais afastamento entre as parcelas da sociedade, implicando numa lógica de “quem merece ser protegido” e “quem não merece”. Esta pergunta pode chocar, mas se a função é moralizar, porque a morte na família do criminoso também não se torna um crime hediondo? Não são eles tão vulneráveis ao ambiente violento quanto a família do policial. São indubitavelmente mais vulneráveis, para falar a verdade. Quem trabalha a segurança pública com seriedade sabe muito bem que a raiz deste caos está muito distante da troca de tiros no morro. Mas se acredita piamente neste círculo de fogo infindável, há muito deixou sua racionalidade de lado.

O que mais me incomoda na manchete de ontem é como a segunda oração foi construída. “Depois de praticar um assalto (…)”. Como se pudesse justificar, fazer qualquer sentido. Como quem lê pudesse compreender e assentir com tranquilidade, fazendo um meneio e seguindo seu dia em paz. Tenho certeza que funcionou bem para muitos. Diante disto, cheguei a uma firme conclusão: se há no mundo aqueles que defendem suas teses discriminatórias, racistas, machistas e desumanas com base puramente emocional, irracional e tomadas pela própria experiência de violência; e se estas pessoas costumam integrar as maiorias, aquelas cujo pensamento e defesa se apóiam em bases racionais, ponderadas, libertárias e humanitárias precisam defender com unhas e dentes suas perspectivas. Para a justa angústia de alguns e a fria injustiça de muitos, serão estas pessoas, que olham com discernimento a frente de seu conturbado tempo, que trarão em mãos o candeeiro que carrega a chama de um futuro de respeito, dignidade e justiça social.

Elisabeth Zorgetz é historiadora, membro do Núcleo de História Econômica da Dependência Latino Americana (HEDLA) e autora do livro “O Sétimo Rio”.

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6 respostas

  1. Entendo a posição da autora, não se explica uma morte por causa de assalto, uma vida por bens. A nossa Constituição prega a dignidade da pessoa humana.
    Por outro lado, simplificar o ocorrido apenas pelo prisma do racismo é ver a sociedade de forma superficial.
    Existem vários fatores psicossociais que influenciaram o ocorrido. Pode-se enumerar alguns: a descrença na Justiça, o preconceito; a classe socoal do infrator/vitima; a vontade de vingança; a ação em multidão que dar a sensação de anonimato; entre outros.
    por fim, a agressão partiu, provavelmente, por parte de vários atores sociais, negros, brancos, pobres, classe média, assim, antes de uma análise simplória, deve-se investigar os diversos fatores causadores e não apenas se debruçar sobre um deles e acreditar que achou a verdade absoluta.

  2. Rodrigo, pelo menos três dos demais fatores mencionados por você encontra sua origem no racismo. Ademais, não costumo trazer o psicologismo para justificar debates de latência socio-histórica. A agressão com certeza partiu de indivíduos das mais diversas raças, o que não diminui o racismo em proposição. Se assim fosse, capitães-do – mais não seriam negros ou recém-libertos não iriam adquirir escravos.

  3. Deixa de viagem menina…quem acorrento, e mato o rapz negro e pobre foram outros rapazes negros e pobres, que diferentemente do primeiro não escolheram o crime como modo de vida, veem todo dia bandidos levando o fruto do suor deles, isso acontece quando a população não aguenta mais tanta criminalidade.

  4. Vou dizer aqui o que disse a Raquel Sharazade:”Está com pena leva para casa”.E assim como tem gente que defende esses “monstrinhos ladrões”,tem gente que defende os ladrões engravatados.Para mim ladrão é ladrão,não importa se é preto,pobre ou rico,parabéns a China e a indonésia,pois lá vagabundo não se cria!!!

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