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WILSON GOMES: “NENHUM ATO DE RACISMO PUBLICADO PODE FICAR IMPUNE”

O jornalista William Waack.

Por Wilson Gomes.

Pode lhes parecer curioso, mas eu não preciso decidir se William Waack é ou não racista para achar que foi justamente punido pela opinião pública e justamente demitido por seu empregador.

Glória Maria disse que o conhece há anos e que ele não é racista. O próprio Waack invoca a própria história para advogar em favor do fato de não ser racista. Não tenho boa razão para discordar de quem o conhece nem desprezo o que a história de alguém diz sobre ele. É possível que não seja racista mesmo, pelo menos segundo a definição de racismo que ele adotou para si.

Faz tempo já que em Ética (falo da disciplina da Filosofia) alguém distinguiu entre moral de caráter e moral de atitude. Há quem busque julgar o caráter das pessoas, em geral a partir do conjunto das ações por elas praticadas: quem pratica constantemente o mal, deve ser mau. Este seria o seu “caráter”, a sua disposição moral estável. E tem quem acha que o julgamento moral mais confiável é sobre a ação, de forma que sujeitos maus podem praticar ações moralmente boas e vice-versa. O importante são as ações em si, condenáveis ou louváveis, e não o que elas dizem sobre o caráter de quem as praticou, que é um caminho muito mais complicado do que parece.

Eu não me importo com o caráter de William Waack. Não sou amigo dele nem quero fazer negócios com a figura. Aliás, já tinha problemas com ele antes do vazamento do vídeo. Isso não quer dizer que tenha qualquer dúvida de que a sua ação foi racista em um nível muito relevante de racismo. Ainda mais relevante por ser ele quem é: reconhecido, visível e admirado. Não é mais possível que jornalistas, racistas ou não, pessoas boas ou não, pratiquem ações racistas do nível daquela praticada por Waack naquela circunstância. Não faz diferença, para a qualidade moral do ato, se foi uma ação consciente ou um ato falho, se ele nunca diria aquilo em público, se foi o calor da emoção. Aquilo é condenável, feio, incompatível com o estado civilizatório. Fosse secreto, seria o caso de deixá-lo às negociações entre Waack e a sua consciência moral, mas uma vez que veio a público tinha que ser censurado publicamente.

Não se trata mais de Waack, nem para linchá-lo nem para defendê-lo. Tampouco para inferir, devida ou indevidamente, de uma ação singular a qualidade do seu caráter. A questão é a sua ação. Reprovável, condenável, como ele próprio admite. Se foi reprovável e condenável o ato, a reprovação e a condenação que se seguiram não podiam ser mais adequadas, portanto. A mensagem social é simples: nenhum ato de racismo publicado pode ficar impune. Nem os atos dos dos semideuses da celebridade. Principalmente não os atos dos semideuses. É simples assim.

Wilson Gomes é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde coordena pesquisas sobre comunicação e democracia.

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