RODRIGO MELO É UM DESVELADOR DO COTIDIANO

O escritor Rodrigo Melo.

O escritor Rodrigo Melo costuma compartilhar escritos no Facebook. São pequenas histórias com a marca do seu talento para desvelar os sentidos do cotidiano – aberturas para o desembotamento da cotidianidade.

A narrativa abaixo é um exemplo dessa capacidade de provocar o estranhamento diante das situações do dia a dia, do que costuma passar despercebido ou naturalizado, como a violência da legalidade que autoriza a apreensão de um veículo do seu proprietário. O Blog do Gusmão recomenda vivamente a leitura.

“foi ontem à tarde. eu pensava na novelinha que estou escrevendo e na dificuldade em dar um rumo a ela, mesmo com os bons e generosos toques de alguns camaradas – a impressão de que perdi um pouco do jeito pra coisa ou como se repentinamente descobrisse que nunca houve tanto jeito assim. a porra simplesmente travou. mais nenhum coelho sairá daquela cartola. e, se sair, será um coelho magro e meio banguela. de todo modo, lá estava eu, dirigindo o meu gurgel e pensando nessas coisas, quando dei de cara com uma bliz. mas não era uma blitz qualquer. era um troço gigantesco. no meio da pista, uma multidão formada por funcionários do detran, policiais militares, guardas de trânsito e uns sete ou oito guinchos. todo mundo alvoroçado, correndo de um lado para o outro, na agonia de fiscalizar. a mulher parada à minha frente tinha algo na mão, talvez um tablet, e foi naquilo que ela digitou a placa do meu carro. siga pelo corredor!, ela me disse. o que está acontecendo?, perguntei. senhor, siga pelo corredor!!! logo um policial apareceu e pediu os documentos. avisei que a carteira estava vencida, mas que já havia começado o processo para renovar, com exame marcado e tudo, o que era verdade. não adiantou. uma multa. o documento do carro também estava atrasado. apenas dois meses, mas atrasado mesmo assim. senhor, ele disse, o seu carro vai ser levado. bem, não dá pra explicar o que senti. foi terrível. uma mistura de raiva e desânimo. e aquele pessoal lá, parando mais e mais carros, preenchendo fichas, autuando, ao mesmo tempo em que fazia piadas e tomava açaí. policiais, detran e guardas de trânsito interagindo, enquanto eu os questionava se agora iam tapar a merda do buraco na pista. dava pra ver um enorme buraco de onde estávamos. ninguém respondeu. assinei um papel, tomaram a chave do carro, jogaram dentro de uma caixa onde havia mais umas trinta e me liberaram. pensei que era assim na época das cruzadas, quando invadiam e pilhavam cidades inteiras. pensei na porra da novelinha, que empacou. e caminhei até o ponto de ônibus. dois caras passaram de bicicleta. olha só aquela porcaria, um deles disse. olhei e vi que falava do meu gurgel. as multas devem valer mais do que o carro, o outro falou. às minhas costas, o sol se punha. o sol da baía do pontal, onde golfinhos e botos nadam, felizes e despreocupados. um sol impiedoso, mesmo às cinco e meia da tarde. um sol incandescente e cor de abóbora feito a camisa do pessoal do detran.”

Rodrigo Melo publicou os livros de conto O sangue que corre nas veias e Jogando dardos sem mirar no alvo e o de poesias Enquanto o mundo dorme. Siga o autor no Facebook.



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