NO CARNAVAL DOS PATOS, OS TUIUTIS DIZEM: MEU PAPO É VERMELHO E NÃO AMARELO!

Por Caio Pinheiro.

Dizem que historiador é um eterno saudosista; adora se referenciar pelo passado, enquanto o resto dos mortais tende a pensar sempre no amanhã, sem muito apego às reminiscências como forma de compreender o presente e projetar amanhãs mais justos quando se pensa na dignidade da vida humana em sociedade.

Embora não seja muito receptivo aos alaridos carnavalescos, reconheço a magia da maior festa de rua do mundo. O carnaval tem a capacidade de nos fazer pensar que de fato vivemos em uma democracia. Mesmo para olhos experimentados na detecção de iniquidades sociais, a euforia provocada pela catarse carnavalesca ergue um nevoeiro capaz de esconder as mais nítidas desigualdades.

Sei que pensar assim tem me rendido em vários espaços a alcunha de chato; mas creio que isso decorra do fato de muitos dos meus patrícios não suportarem sair do lugar comum, seja por comodismo ou estratégia. Enquanto isso, a mídia corporativa continua comemorando.   Basta ver como facilmente foram invertidas as prioridades editoriais no carnaval, mesmo diante de tempestades impactando o mundo político, econômico e social.

A farra do auxílio-moradia pago aos impolutos juízes que possuem casa própria nas localidades onde trabalham e/ou o inacreditável pronunciamento do diretor da Polícia Federal, Fernando Segovia, dizendo que a PF deve pedir o arquivamento do inquérito que investiga o presidente Michel Temer – suspeito de beneficiar a empresa Rodrimar através de um decreto que prorroga contratos de concessão no porto de Santos -, são alguns dos episódios desconhecidos ou desconsiderados pela cidadania brasileira que desfrutava em cores e imagens globais da artificialidade democrática carnavalesca.

No caso específico do decreto dos portos, algo chama muita atenção: a Polícia Federal negou-se a pedir o desbloqueio do sigilo bancário de Temer e dos envolvidos no caso, como se fosse possível apenas por “convicção” rastrear o fluxo dos recursos obtidos por atos de ofício ilícitos. Pelo que se observa, PGR e PF não querem descobrir a verdade, ratificando com tal conduta uma ação seletiva da justiça.

Longe da gostosa lascividade carnavalesca, exatamente no centro do país, uma revoada de vampiros sob o arbítrio de “DRACUTEMER” esmerava-se na reforma do nosso sistema previdenciário. Objetivavam e objetivam sugar toda a frágil vitalidade da seguridade social e, concomitantemente, apresentar a previdência privada como única e viável alternativa diante do minguamento da previdência pública.

Esse quadro estarrecedor prenuncia tempos mais sombrios para a maior parte dos duzentos milhões de brasileiros, excetuando um grupo diminuto de afortunados. Segundo a ONG Oxfam, especialista em mensurar o nível de desigualdade em escala mundial, dentro desse seleto grupelho estão “cinco bilionários brasileiros que acumulam um patrimônio equivalente àquele da metade da população do País”.

Partindo dos dados da Oxfam, em um ano de governo Temer, a fortuna desses seletíssimos brasileiros aumentou em 13% e alcançou a marca de 549 bilhões. Por sua vez, os 50% mais pobres perderam rendimentos no mesmo período, caindo de 2,7% para 2%. Desta feita, considerando a orientação reformista e privatizadora do atual governo, essa desigualdade assumirá níveis estratosféricos caso continue o processo de enfraquecimento do Estado como agente indutor do desenvolvimento econômico-social.

Mas nesse cenário de terra arrasada, onde a crítica cidadã parecia está sepultada pela efêmera alegria do carnaval, eis que surge algo de se orgulhar. Falo de um coletivo transfigurado na arena pública em escola de samba, tendo o lindo nome de Paraíso do Tuiuti. Não resta dúvida de que essa agremiação carnavalesca conseguiu questionar a narrativa hegemônica e mostrar como os excluídos enxergam a destruição da democracia brasileira.

Embora tenha se sagrado vice-campeã no carnaval carioca, a escola de samba Paraíso do Tuiuti foi aclamada nas redes sociais como campeã do povo. Tão logo foram consolidados os resultados do jurado, a quadra da escola, em São Cristovão, na zona central do Rio de Janeiro, passou a comemorar o resultado como se fosse campeã. No twitter, a #TuiutiCampeãDoPovo ficou entre os assuntos mais comentados do país.

O desfile polêmico foi consagrado por “lavar a alma” do povo brasileiro, como dizem muitos internautas. Além de um samba-enredo nota 10 sobre a continuidade da escravidão no país mesmo após a abolição, ganharam destaque fantasias e alegorias com críticas políticas que mostraram a insatisfação popular, ora subestimada pela pouca visibilidade midiática.

A escola levou para a avenida uma representação do presidente Michel Temer (MDB outrora PMDB) vestido de vampiro em uma fantasia chamada “Vampiro Neoliberalista”. Trouxe também manifestantes como fantoches, com roupas análogas ao uniforme da seleção brasileira, o que virou símbolo das manifestações pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2015, e patos com cifrões nos olhos, representando o apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ao impeachment, além de criticar a reforma trabalhista capitaneada por Temer.

Essas manifestações de indignação preocuparam os que acreditavam no fim da resistência popular. A Tuiuti deu um recado bem claro: vai ter luta! Isso provocou muito desconforto em “DRACUTEMER” e seus vampiros, a ponto de Rodrigo Maia – o fluminense segundo as planilhas da Odebrecht – já ensaiar seu discurso ante o sepultamento da Reforma da Previdência, vencida pela resistência popular, outrora hegemonicamente vermelha, agora multicor, graças ao azul-pavão e amarelo-ouro da Paraíso do Tuiuti.

Bem, encerro essas reflexões com uma justa homenagem a um grande amigo, que por questões éticas, jurídicas e afetivas aqui nominarei de Gui. Meu amigo Gui é um grande brasileiro. Homem sério e honroso. Acredita na essencialidade da bondade humana. Não suporta as iniquidades. Tem aversão à corrupção.

Gui é múltiplo. Gui acorda cedo e trabalha arduamente com o objetivo de acumular o vil metal para, como diz, melhor experimentar a vida! Gui sonha com um Brasil mais justo. Gui como tantos Guis culpa os políticos pelo nosso atual estado de coisas. Mas Gui apenas vê de longe. Gui vê apenas um lado. Gui nega-se a esticar um pouco mais o pescoço para ver além do dito. Gui não é pato, mas precisa ser um forte Tuiuti de papo vermelho capaz de enxergar o escondido no alto. Enfim, não sendo PATO, e sim TUIUTI, Gui é um cabra que quero sempre perto de mim. 

Caio Pinheiro é especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestrando em História, Práticas Sociais e Representações. Escreve sobre política no Blog do Gusmão.



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