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A BASTARDIA PATRONAL, A TUTELA DESLEIXADA E O ABANDONO DA VENERANDA VULNERÁVEL

Por Mohammad Jamal.

Não como a carne do porco, nem as porcas, claro! Neste prólogo, vou começar citando os suínos e galináceos dos criadouros intensivos e nos criatórios domésticos para consumo da família. Digamos o macro e o microcosmo na cadeia produtiva da proteína animal que tanto necessitam os humanos à sua mesa para seu sustento nutricional e ponderal. Mas a citação que faço direciona-se analogicamente aos aglomerados humanos que formam cidades e megalópoles a exemplo dos pequenos galinheiros e chiqueiros domésticos e às mega pocilgas e gigantescos aviários onde se confinam aos milhares, porcos, frangos e galinhas do agronegócio. Porcos, frangos para corte e galinha poedeiras exigem cuidados intensivos e permanente assistência sanitária! Uma pocilga que não é limpa e lavada diariamente resulta em prejuízo. Porcos e bacorinhos emagrecem e morrem vítimas das zoonoses que se multiplicam cultivadas na imundície da sujeira ao abandono. Do mesmo modo, frangos não engordam; galinhas não põem ovo e pintainhos morrem antes da adolescência, expostos às susceptibilidades que infectam o desleixo pela sujeira, imundície ao leu. Comparativamente, cidades e megalópoles; galináceos; suínos e humanos compartilham semelhante ciclo biológico de suscetibilidades e vulnerabilidades higiênico-medico-sanitárias.

Dante relia suas centúrias admirando “Inferno” urbano aqui do alto da lage? Olhando cá de cima do morro, às vezes a cidade em que vivo me transparece um lugar estranho, soturno, insalubre. Ruas que nos eram familiares mudam de cor e aspecto de uma hora para outra. Olho para as multidões e enxergo a apatia e indiferença para com o ambiente em que se confinam volitivamente. Alheias a tudo, elas passam por mim acotovelando-me impassíveis, formando filas intermináveis para um não sei o quê de saúde, sabe-se lá, se física ou meramente humoral porque esqueceram o que é ter esperanças… Galinhas, frangos, pintos também… E ao vê-los assim, me incutem um sentimento de que estavam ali há centenas de anos; é como se ali houvessem criado raízes em busca do próprio passado soterrado sabe-se lá aonde. Seria por esperança de encontrar uma esperança enterrada a sete palmos?

Platão! Aristóteles! Nero! Calígula!… Roma está em ruinas! Com seus parques e jardins lamacentos, cobertos de ervas daninhas; seus espaços abertos desolados como antigos campos de guerra; os seus postes de eletricidade, sem lâmpadas, obscurecem ainda mais o que já está soturno e sombrio em tenebrosa penumbra; esgotos escorrem pelas guias como veias sangrando exudatos apodrecidos. Grandes outdoors escandalizam a venda de tudo e de prédios suntuosos em suas monstruosidades de concreto, menos a esperança abatida em seu voo de galinha. Esta cidade está como a minha alma; vem-se transformando celeremente num lugar vazio e abandonado. As imundícies das ruas e transversais; o mau cheiro das latas de lixo transbordadas e os restos expostos com larvas de moscas a esmo para o repasto dos urubus, dos ratos, dos cães abandonados. As vias públicas corcundas, cheias de calombos, afundamentos, buracos e crateras, são úlceras, como se vítimas da leishmaniose e peste negra. Nesse quadro de caótica desordem, ainda nos submetemo-nos a apertos e empurrões para embarcar num transporte público característico de ferros-velhos, inconstantes e de destino incerto que fazem de Ilhéus o que ela é. E fico me perguntando se a cidade não está me castigando por contribuir para sua miséria, degradação e abandono pela minha simples presença, apático e indiferente à sua desdita, infelicidade e desventura? O que posso fazer por ela? Gritar? Votar naqueles mesmos? Eu votei!

O flagelo de Allah abateu Madinat al-Salam. Bagdad já era! Quando a melancolia de Ilhéus começa a tomar conta de mim e escorrer de volta para ela, começo a achar que já não há mais nada que eu possa fazer para ajudar-nos e, como à cidade, devo incluir-me tal como morto-vivo; um cadáver que ainda respira; um condenado à desdita de vagar por suas ruas e calçadas, sua imundície e abandono; uma cidade que já foi cidade até chamada de princesinha, mas agora é uma velha Estamira¹ catando no lixo nos desperdícios e refugos dos seus senhores, para saciar suas necessidades mais elementares¹¹ nas migalhas rejeitadas por aqueles que prometeram tanto de pés e mãos postas, voluptuosos, até se apossarem totalmente dos seus dotes e feudos.

A bastardia patronal. Relembro aqui um texto quase correlato, de Mikhail Bulgakov (1891-1940), um quase monólogo. Quando Ivanov, um pescador, ao retorna do Mar de Aral onde passou três semanas sob o frio russo e pescar apenas dois peixes. Ele reencontra em casa, miserável, sua mulher prostrada junto ao borralho do fogão/lareira quase apagada. Ela enrolada numa manta de astracã surrada. Ela tem o estupor do abandono e fome estampados no olhar. Ivanov fala alto:

-“Mulher! Onde estão os teus filhos, aqueles mujiques? Que sugaram teus seios e beberam do teu leite que já fora teu sangue? Não os vejo aqui! Estão na Койка?” (prostíbulo). Ato contínuo dá-lhe um pedaço de pão de centeio mofado para matar a fome que a corrói.

Há dirão! _Mais um transgressivo que se posta a escrever balelas bakunianas pseudoliterárias (semiologia à Mikhail Bakunin). Fato: não se deve estigmatizar ao silêncio da mudez nenhuma atitude insurgente contra a corrupção e a leniência, que faça exacerbar à mostra, todos os sentimentos semelhantes que são comuns, compartilhados coletivamente e, que irromperam por aí os limites da muda passividade.  O problema de perseverar e denunciar o vício, a desídia, a corrupção sem, contudo, parecer arrogante, presunçoso, sectário e politicamente obtuso se tornou uma questão tão complexa e problemática que os intelectuais da atualidade tendem a negar que exista uma distinção entre as duas coisas, chegando ate ao absurdo de inverter os valores. O que se vê é o predomínio de um neomoralismo compassivo permissivo que reforma as condutas em contracorrente dos mais elementares princípios éticos da moral. Desculpem-me por qualquer coisa, inclusive, por me insurgir aqui. Há brasileiros e brasileiras distintos entre si; e Gerson, na propaganda dos cigarros clássicos, generalizou-nos coletivamente quando irrompeu contra pudor de todos ao dizer claramente: “Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, não!”. Eu digo que só os ‘expertos’ o fazem.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.

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Uma resposta

  1. Há “porcos” distintos…

    Você… apático, jamais… transgressivo, comprovadamente…

    Ademais, há que se considerar que somos constritos aos terrenos que nos ofertam… E Enquanto houver sol e solo… andaremos…

    (Excelentes textos… Convidam à reflexão… Com têm que ser… se respostas… mas, com suscitações de tantas indagações… E perguntar é sempre melhor que responder…)

    Parabéns, mais uma vez.

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