Molambo na parada!

Por Julio Gomes.

Chamaram a atenção de todo o Brasil as fotos publicadas, em 15/02/2019, pela Assessoria de Imprensa do atual Governo Federal em que o Presidente Jair Bolsonaro aparece com diversos membros do Primeiro Escalão, inclusive ministros de Estado, em um encontro oficial e, depois, na mesa de reuniões, trajando chinelos, uma camisa do Palmeiras, uma calça e um paletó do tipo “o mais amassados e mal arrumados possíveis” e, pendendo sobre a calça, algo meio indefinível, mas que pode ser um grande chaveiro vermelho, compondo uma imagem que contrastava fortemente com o traje formal dos demais membros do Governo ali presentes e com o ambiente do Palácio da Alvorada.

Sabemos que Bolsonaro esteve internado e recebeu alta médica poucos dias antes da foto, assim como que o palácio da Alvorada, mesmo sendo também um local de trabalho, é a residência oficial do Presidente, o que sem dúvida dá um desconto a favor de Bolsonaro.

Mas ficam algumas perguntas: Por que publicar uma foto, divulgada pela própria Presidência da República, em condições tão desfavoráveis à imagem do Presidente e, portanto, do Brasil? Qual a intenção por trás disso, se a foto veio da própria Assessoria presidencial?

Quando se serve ao Exército Brasileiro, o que fiz em 1984 / 1985, mesmo na simples condição de soldado, se aprende que todos os militares devem se colocar em forma, na parada diária que inicia o expediente, com apresentação impecável, para que o Oficial de Dia faça a inspeção da tropa, corrigindo coturno, barba, cabelo, unhas, asseio, roupas, armamento e tudo o mais que se faça necessário.

Caso o militar não possa calçar um pé do coturno, que se apresente com um chinelo em um pé e um coturno em outro. Se não puder vestir a farda do dia, que entre em forma com o uniforme de educação física. Por fim, caso não esteja mesmo em condições de apresentar-se, deverá simplesmente ser dispensado de entrar em forma e de participar da parada. E isto, na unidade em que servi, era observado tanto pelo Coronel Comandante do Batalhão quanto pelo mais humilde soldado.

Lembro-me da revista, por parte dos oficiais, determinando aos praças, em alto e bom som, para saírem imediatamente da formação aos gritos de “Fora de forma!”, quando se deparavam com militares com cabelo grande, coturno mal engraxado, unhas ou barba mal aparadas ou cinto fora do padrão; e determinando três dias de detenção (sexta, sábado e domingo), internos no Batalhão, para que aprendessem a lição. Também lembro do zelo da imensa maioria dos praças graduados e dos oficiais em ser exemplo de conduta para a tropa.

Lembro, por fim, da reprovação pública dos oficiais a gritarem no meio do pátio do quartel: “Molambo na parada!”, para os mal apresentados, que se retiravam cabisbaixos, cheios de vergonha ante a pequena, mas vexatória transgressão disciplinar praticada.

Quando vi a foto e Bolsonaro com sua equipe, foi disso que lembrei. Será que da vida militar não lhe ficou nem mesmo este senso de disciplina e de zelo com a apresentação própria e, portanto, da instituição que representa? Será que até nisso, que seria sem dúvida uma qualidade, o atual Presidente tem dificuldade para manter a compostura e a conduta adequadas? Será que mesmo nisso tem de ser um desastre? Um vexame diante do mundo?

As fotos em questão me ajudaram a entender porque o General e ex Presidente Ernesto Geisel, em entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D´Araujo e Celso Castro em 1993, posteriormente publicada em livro editado pela FGV – Fundação Getúlio Vargas, avaliou o então deputado Bolsonaro, ipisis literis, como “mau militar”.

Molambo na parada, molambo na Presidência. Na forma e, o que é pior, no conteúdo. A foto e a profética avaliação de Geisel são fatos que falam mais alto do que mil textos.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.



4 responses to “Molambo na parada!

  1. Observação crítica e tardia além de tudo irrelevante. “O hábito não faz o monge”. Para fazê-lo é necessária a unção da Câmara e Senado, afinal, não estamos numa ditadura de direita. As Instituições do país e nossos direitos constitucionais prevalecem intocados. A essa altura, a despeito das tentativas frustradas para abduzir ao indulto o “futuro” Prêmio Nobel da Paz, o Lula Livre, com certeza também não se poderá “deseleger” o atual presidente Bolsonaro, a despeito da sua pecaminosa indumentária. Ou sim? Sou leigo, nada sobra a jurisprudência que envolve o assunto, Roupa Molambo no Reino de São Saruê. Parabéns pela divertida prosódia com que o tema foi abordado. Gostei!

  2. Sinceramente, sempre este blog, mas, nunca vi por parte do Júlio Cezar, nenhum comentário sobre toda roubalheira dos governos do PT, Lula e Dilma, penso e acredito ser inoportuno e sem sentido um comentário dessa natureza, sendo que na verdade o que o povo quer é que o Presidente da República, não roube e nem permita roubar. Quando não se tem o que falar de alguém, se inventa ou cria algo totalmente desconexo a realidade. Péssimo comentário pra alguém se apresenta como graduado em Direito e História, com esse currículo deveria está contribuindo de uma forma mais positiva, apontando saídas para a crise moral e ética que domina nosso país. Mas, cada qual utiliza seus conhecimentos para os fins que queiram.

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