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A pandemia do coronavirus e a epidemia de feminicídio: precisamos falar de autocuidado!

Posto dessa forma, a quarentena me chamou à reflexão. Na verdade, o isolamento social nos impôs a imersão em dimensões até aqui esquecidas. Refiro-me a ter de enxergar aquilo que só via. Enxergar-me.

Por Nicole Rodrigues Vieira.

Sabemos que variadas são e serão as consequências da Covid-19. Sem dúvidas, implicações sanitárias, econômicas e políticas têm sido noticiadas com destaque pela grande mídia. Contudo, como mulher, devo lembrar que a pandemia criou uma atmosfera propícia ao patriarcado, pois o machismo – com toda carga de subjugação imposta às mulheres – faz com que, nesse momento de isolamento social, os casos de violência contra a mulher tenham aumentado de maneira assustadora. Para usarmos as palavras da filósofa Djamila Ribeira, vivemos associada à pandemia uma “epidemia de feminicídio”.

Em todo o país, verifica-se um aumento das chamadas para o Ligue 180, serviço de denúncias ligado à rede de atendimento à mulher. Foi registrado um aumento de 9% das denúncias de violência contra a mulher em apenas uma semana. Esse dado vai de encontro com os fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo os quais uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre violência física ou sexual, a maioria sendo provocada por parceiro íntimo. Estamos ainda muito longe de um estado de conscientização, até por parte de grande número de mulheres que não sabem, por exemplo, identificar violências e abusos mais sutis ou naturalizados (e não menos graves).

É claro que essa situação exige uma discussão mais aprofundada, principalmente para melhor orientar as medidas protetivas. No entanto, entidades da sociedade civil e o poder público têm se mobilizado contra tal estado de coisas. Exemplo da intransigência observada contra o feminicídio é a campanha “Quarentena Sim! Violência Não”, criada pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). Na mesma toada do judiciário baiano, o Núcleo de Apoio à Mulher do Ministério Público de Pernambuco (NAM/MPPE) lançou a ação “Mulher, você não está sozinha! ”. Somam-se a essas inciativas os canais de denúncias e campanhas em prol da proteção das mulheres vitimadas pela violência.

Contudo, é importante salientar que a violência contra a mulher assume nuanças diferentes quando se fala da mulher negra e periférica. Dados do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (2017) apontam que, no Brasil, uma jovem negra está duas vezes mais vulnerável à violência do que uma jovem branca. O Mapa da Violência 2015 ˗ Homicídio de Mulheres no Brasil – mostra que o homicídio de mulheres negras teve um aumento de 54%, enquanto o assassinato de mulheres brancas caiu 9,8%. Esses dados foram analisados pela assistente social da UFRJ e coordenadora do Centro de Referência de Mulheres da Maré Carminha Rosa (CRMM- CR), Érika Fernanda de Carvalho, que trabalha no projeto voltado ao conjunto de serviços especializados no atendimento às mulheres em situação de violência.

Todavia, todos esses dados estatísticos produzidos à luz de critérios científicos são ignorados pelo Ministério da Mulher da Família e dos Direitos Humanos, dirigido pela advogada Damares Regina. Apesar de retoricamente manifestar-se intransigente com o feminicídio, a ministra-pastora efetivamente não promoveu políticas públicas de combate à violência sofrida por centenas de mulheres. Em vez disso, Damares gasta o orçamento ministerial em uma Campanha de prevenção da gravidez na adolescência, que, acreditem, tem enquanto mote a ‘’abstinência sexual’’.

Posto dessa forma, a quarentena me chamou à reflexão. Na verdade, o isolamento social nos impôs a imersão em dimensões até aqui esquecidas. Refiro-me a ter de enxergar aquilo que só via. Enxergar-me. Enxergar menos passivamente o meu mundo social, e entender que pequenos gestos podem mudar o país, pois são capazes de induzir mudanças comportamentais na direção de uma nação mais inclusiva.

Enfim, a quarentena vai acabar, a Covid-19 vai passar, o feminicídio precisa parar; do contrário 2020 traduzirá 2019, quando o número de mulheres assassinadas por crime de gênero aumentou 7,3% em relação a 2018, o que totalizou 1314 casos de feminicídio. Muitos dados e relatos verídicos podem ser levantados sobre as práticas de opressões a que mulheres estão subordinadas. Por isso é preciso estarmos atentas ao pensar sob uma perspectiva que parte também do autocuidado. Nós mulheres precisamos do cuidado afetuoso. Aquele cuidado que não pode ser silenciado.  A mulher deve denunciar, para que nosso desejo de felicidade deixe de ser superficial e fique mais profundo, “pra se ver, pra flutuar”.

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