Reflexões de um pós Natal

“Minha mesa de Natal, talvez assim como a sua, não é rica nem chique, mas consegue ser farta. E sobretudo, acima de tudo e de todas as coisas, ao redor dela não está faltando nenhuma pessoa”.

Por Julio Gomes.

Impossível, em 2020, passar pelo Natal sem refletir sobre tudo o que este ano representou, sobretudo à luz da comemoração do nascimento de Jesus e de seu significado para a humanidade, e para cada um de nós, particularmente.

Libertando-nos da figura midiática e comercial de Papai Noel e caminhando para mais próximo do Mestre em sua feição de recém-nascido, junto à sua mãe Maria, a seu pai José e à rota de fuga da família para fugir à matança dos inocentes ordenada pelo rei Herodes – que informado de que havia nascido um novo rei mandara matar todas as crianças do sexo masculino com menos de três anos de idade, segundo o relato bíblico – podemos pensar na maravilhosa noite em que Jesus nasceu, abrigado em rude estrutura rural destinada ao abrigo de animais e pastores.

Tendo como testemunha os animais, nossos acompanhantes e conviventes no planeta Terra desde sua criação; e três incompreendidos peregrinos, provavelmente esfomeados e maltrapilhos, a quem a história posteriormente atribuiria o status de reis magos, nasceu Jesus, em noite que só poderia refletir a beleza e grandeza do Mestre.

Assim como Jesus vivo, recém encarnado, nós também, em 2020, muito mais de que em anos anteriores, somos também sobreviventes.

Jesus sobreviveu à pobreza, à rudeza da viagem, ao alto índice de mortalidade infantil de sua época e ao ódio de Herodes, o rei impiedoso e sanguinário de então.

Nós, os que podemos ler este texto na data de hoje, dia 26/12/2020, sobrevivemos à Covid-19, que em números atualizados já matou 190.488 pessoas em nosso país.

Mas não sobrevivemos somente à Covid-19: sobrevivemos ao racismo e ao machismo estrutural que infelicita a sociedade brasileira e mata todos os dias, sobrevivemos ao crime que cotidianamente esmaga a vida, sobrevivemos à violência que as vezes marca a ação do Estado brasileiro, e sobrevivemos a um Governo Federal que parece sentir prazer com o aumento do número de mortes, e que bem pouco faz pela prevenção e saúde de nosso povo, enquanto todos os países que têm grandeza econômica similar à do Brasil já estão vacinando efetivamente seu povo.

Minha mesa de Natal, talvez assim como a sua, não é rica nem chique, mas consegue ser farta. E sobretudo, acima de tudo e de todas as coisas, ao redor dela não está faltando nenhuma pessoa. Porém, em outros 200 mil lares brasileiros há uma cadeira vazia, que jamais será ocupada pelo familiar agora ausente.

Por isso é necessário dar graças, esquecer um pouco Papai Noel, porque os presentes foram escassos, simples; e agradecer pelo dom da Vida, pela sobrevivência, pela saúde, pela perspectiva concreta de recomeçar em 2021 enfrentando desafios, vencendo dificuldades e construindo a realização de nossos sonhos.

Não importam eventuais dívidas, pois serão resolvidas; nem pequenos problemas de saúde, porque só os têm os que estão vivos; nem mesmo problemas políticos ou econômicos nos paralisarão: sempre os tivemos, em maior ou menor grau, e seguiremos em frente.

Nós, que no Natal renascemos um pouco com Jesus, busquemos também crescer com ele, aprender com ele, ajudar como ele ajudou, e mesmo sabendo que o mundo não nos será gentil nem leve, sigamos com ele, sempre.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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