Fé e ação positiva

Ter fé não pode significar largar nas mãos de Deus aquilo que cabe a nós fazer.

Por Julio Gomes.

Pessoa sempre muito alegre, extrovertido, que conheci ainda em minha juventude, há cerca de 30 anos atrás, ele seguiu um caminho que se parece com o de muitas pessoas: arrumou um emprego, casou-se, teve filhos (não necessariamente nesta ordem), os criou e, após vivenciar as boas e más experiências que a vida coloca diante de todos nós, tornou-se cristão, já na idade mais madura, após cruzar a fronteira dos cinquenta anos.

Aposentou-se e, seguindo o ritmo das mudanças que a biologia provoca em nosso organismo, aquietou-se quanto às aventuras amorosas, voltando-se para o casamento e, talvez um pouco tardiamente, para os filhos, que sempre proveu materialmente, mas a quem sempre achamos que deveríamos ter dado mais atenção, mais presença, mais amor.

Foi nesse ínterim de sua vida que a pandemia chegou no Brasil, preocupante para uns, uma gripezinha para outros.

Já agora com um comportamento bastante conservador, talvez querendo purgar parte dos pecados que a maioria de nós comete quando jovem, agarrou-se à religião e a orientações inteiramente desprovidas de base científica para lidar com a Covid-19, afastando-se dos amigos de antes, muitos dos quais de sincera amizade.

Um dia, chegou-me a notícia de que ele e a esposa haviam se contaminado com o temido vírus, mas que estavam “em casa, orando e tomando ivermectina e cloroquina”. Depois disso, seguiu-se uma semana sem que o casal atendesse o telefone ou respondesse a mensagens, até mesmo dos amigos mais próximos na fé cristã.

Ao fim, veio a notícia: após uma crise respiratória aguda, foi obrigado a deixar o lar e procurar atendimento médico de urgência, ficando imediatamente internado ante o grave comprometimento pulmonar. Faleceu dois dias depois.

Essa é a história de um amigo meu, mas, infelizmente, não é só dele: é de milhares de brasileiros que acreditaram que havia “tratamento preventivo” para a Covid-19, e que só procuraram atendimento médico quando a situação se tornou insuportável, incontrolável, quando a medicina já não tinha mais recursos para atacar a enfermidade, que avançara além do limite que permitisse uma intervenção eficaz.

Deixo aqui muito clara uma questão: assim como o amigo que perdi, também oro com fervor pedindo a Deus que me livre do mal, da doença e da morte. Acredito ardentemente no poder da oração para enfrentar todas as situações da vida. Mas, quando tive Covid-19, procurei imediatamente ajuda médica, e quando o sintoma mais assustador – a falta de ar – deu seus primeiros sinais, corri para o hospital, levando junto comigo as orações e a fé.

Ter fé não pode significar largar nas mãos de Deus aquilo que cabe a nós fazer. Não pode ser desculpa para não usar máscaras, para descumprir as medidas de prevenção recomendadas. Ao contrário: a confiança no Altíssimo deverá nos levar a uma atitude positiva, em que fazemos a nossa parte, da melhor forma que conseguimos, deixando nas mãos de Deus apenas aquilo que de fato foge ao nosso controle.

Por fim, afirmo: não acuso, nem julgo, nem condeno. Apenas escrevo estas linhas para que as pessoas abram os olhos, porque estou cansado de perder amigos.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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