Será que teria mesmo de ser desse jeito?

Talvez a vontade de Deus – que ninguém conhece – seja a de que, em contato com a Covid, venhamos a modificar nossos valores, nossas atitudes e nossas vidas para melhor.

Por Julio Gomes.

Tenho visto muitas pessoas dizerem, acerca das pessoas que temos perdido vitimadas pela Covid-19, que se elas se foram isso foi a vontade de Deus, e que nada poderia mudar isso. Mas cabe aqui uma pergunta: quem conhece qual é a vontade de Deus?

Pode ser que o Altíssimo tenha colocado em seus desígnios que uma pessoa venha a morrer de uma determinada forma? Sim, pode.

Pode ser também que seja da vontade do Senhor que passemos por determinada dificuldade ou prova e que, a partir da forma como venhamos a lidar com isto, o resultado final dependa de nossas atitudes? Também pode!

Nenhum de nós conhece a vontade do Pai do Universo, e não é porque algo aconteceu de determinada forma que, necessariamente, foi a vontade de Deus. Pode ter sido apenas a permissão de Deus para que as coisas tenham ocorrido segundo nossos equívocos, segundo nossa teimosia ou nossa permanência no caminho do erro.

Não creio que seja da vontade de Deus que alguém venha a morrer, por exemplo, por excesso de consumo de bebida alcoólica. Mas acredito que o Supremo, que nos deu o livre arbítrio, respeite nossa decisão de beber até esgotar inteiramente a saúde e a vida.

Pois bem, talvez passar pela prova de viver o trágico momento histórico da pandemia de Covid estivesse nos planos de Deus, e até mesmo constasse de sua soberana vontade que alguns de nós viéssemos a perecer desta enfermidade. Mas não acredito que seja a vontade expressa de Deus que 300 mil brasileiro e alguns milhões de pessoas no mundo viessem, obrigatoriamente, a morrer por conta disso.

Talvez a vontade de Deus – que ninguém conhece – seja a de que, em contato com a Covid, venhamos a modificar nossos valores, nossas atitudes e nossas vidas para melhor.

Talvez a vontade do Senhor seja que venhamos a valorizar mais nossas famílias, não a destruindo; nossa liberdade, não a usando para cometer erros; nosso dinheiro, usando-o de forma mais edificante; nossa saúde, sem estragá-la com todos os tipos de excessos; enfim, modificar nossas vidas, sem deixar que ela passe enquanto corremos loucamente, insensatamente, atrás de prazeres que só duram um segundo.

Entretanto, se preferirmos nos manter no desprezo à família, no péssimo uso de nosso tempo livre, na adoração ao dinheiro acima de tudo e de todos, na prática de todos os vícios e excessos que certamente ainda temos, fortalecendo-os ainda mais, talvez isso seja respeitado pela Divina Providência, que nos deixará colher aquilo que plantamos.

Após um ano de pandemia e trezentos mil mortos, está mais do que na hora de cada um olhar para dentro de si e responder a si mesmo: o que reavaliei em minha vida? Em que mudei de valores e de atitudes? O que descobri que é pura ilusão, que não tem valor, e troquei por uma atitude mais amorosa, capaz de me fazer uma pessoa melhor? O que tudo isso me ensinou e que mudanças positivas consegui fazer?

Se após tudo isso não aprendemos nada, não reavaliamos nada, não somos capazes de alterar em nada a forma como vivemos, então talvez estejamos com a pior de todas as enfermidades: a extrema dureza de coração, a reclamar tratamento rigoroso para ser curada.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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