A sombria arte negacionista: como chegamos a 425 mil mortos?

Algo anda muito mal seu Zé! Parece que vivemos o avesso da civilidade. Falar de justiça social, distribuição de renda, democracia, liberdade de imprensa e coisas do tipo, equivale para alguns defender uma política de extermínio.

Por Caio Ribeiro.

Vivemos tempos onde a lucidez virou características rara. Às vezes, mesmo que tente redirecionar o pensamento, é impossível não concluir que a irracionalidade virou padrão. Como nos mitos, a ficção pretende ser realidade. Daí os que ousam questionar as mentiras tomadas por verdades, hoje são acusados de crime de lesa-pátria. Agora, caso defenda a vacinação, questione a incompetência do governo federal na compra das vacinas, valorize a ciência e combata o negacionismo, lamento informar, mas sua vida pode estar em perigo.

Algo anda muito mal seu Zé! Parece que vivemos o avesso da civilidade. Falar de justiça social, distribuição de renda, democracia, liberdade de imprensa e coisas do tipo, equivale para alguns defender uma política de extermínio. Então, me diga: vivemos ao não vivemos o avesso da civilidade? Enquanto isso, relativizar quase 500 mil vítimas fatais da Covid-19 virou o novo normal. Isso sim é ser um homem de bem!?

Contudo, o mais execrável é que mesmo após tantas mortes, há brasileiros que acreditam numa conspiração diabólica que objetiva derrubar um governo constituído pelos mais dignos homens e mulheres da pátria. E assim, intencionalmente, nos dividem entre aqueles que defendem o bem e os que advogam para o mal. Os defensores do mal, são todos os amantes da empatia e do senso de coletividade; ou seja, o que outrora era sinônimo de humanidade, virou um comportamento condenável. Mas uma vez pergunto: vivemos ao não vivemos o avesso da civilidade?

Então, falando de avessos, narro a experiência que tive com um motorista de aplicativo, declaradamente negacionista. Segundo este, a vacina é água vitrificada pelos chineses. Para o mesmo, nessa mesma água há um chip que será introduzido em cada brasileiro vacinado, com o qual a China pretende monitorar os inimigos do comunismo. Sentenciou que jamais tomaria a dita vacina e que tem pena das pessoas desinformadas que tomarão.

Após ouvir atenciosamente os argumentos do motorista, lhe fiz a seguinte pergunta: o Sr° toma algum remédio para dor de cabeça? A resposta foi instantânea: Anador. Realizei outra pergunta: o Sr° considera o Anador um medicamento seguro? Resposta: sim. Terceira pergunta: o que te faz acreditar na segurança do Anador? Reposta: os remédios são autorizados pelo governo. Naquela altura, mesmo temendo sua reação, disse ao motorista que estava sendo contraditório. Aí, o esperado aconteceu, ouvir um sonoro não!

A partir daí expliquei que o mesmo órgão do governo que garante a segurança de se consumir o Anador, também valida a eficácia bioquímica das vacinas. Informei que esse órgão é a Anvisa. Depois lhe questionei uma vez mais: como confia na Anvisa para tomar um comprimido de Anador – além das várias vacinas na infância – mas desconfia da competência desta no que se relaciona às vacinas? Resposta: silêncio ensurdecedor!

Minutos depois chegamos ao destino. O silêncio foi interrompido ao me informar o valor da corrida. Antes de sair do carro vi de relance o ódio nos olhos daquele homem. Era claro, havia conquistado um inimigo! Já fora do carro, pensei: a que ponto nós chegamos enquanto povo. Minha solidariedade diante do ódio daquele negacionista foi tal, que considerei estar errado e ele certo. Mas como disse Aristóteles: o homem é um animal racional. Com isso lembrei que as vacinas não são compostas só de água e que a terra não é plana. Acho que os 425 mil mortos concordariam comigo. Axé!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



2 responses to “A sombria arte negacionista: como chegamos a 425 mil mortos?

  1. Parabéns pela lucidez, não se preocupe com esta parcela inútil que se contaminou com o vírus da imbecilidade. Pois tudo passa, tudo passará e o tempo é o senhor da razão. sendo conhecedor da história sabemos que estas etapas acontecem naturalmente. Tenho saudades dos meus amigos de quatro patas, perdi 3 há pouco tempo, alguns teimam em chama-los de irracionais, discordo e vislumbro nestes racionais negacionistas a irracionalidade in natura.

  2. Concordo plenamente que o presidente está conduzindo mal as coisas nessa pandemia mas não podemos esquecer que corrupção também mata, muitos gestores pelo o Brasil pegou o dinheiro enviado pelo o governo federal e deu outros fins, fins esse que não foi o combate ao coroanvirus não sou eu que estou falando e sim investigações da Polícia Federal. Na Bahia 49 milhões foram destinados para compra respiradores, respiradores esses que nunca apareceram, e ninguém viu o dinheiro de volta, como diz o dito popular uma compra mambebe. E infelizmente eu não vejo jornalistas, nem ninguém falar, comentar, apenas uma pergunta para onde foram os 49 milhões que a Bahia usou para compras de respiradores? Ninguém viu respiradores nem o dinheiro de volta. Como diz outro ditado popular o pau que dar em Chico, dar em Francisco.

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