O desgaste e descarte do professor em tempos de barbárie pandêmica

Não quero expor as contradições da educação brasileira, mas pretendo refletir acerca do qual os professores – elemento fundamental para o êxito de qualquer sistema educacional – têm sito reiteradamente violentados. Na educação privada ou pública, docente que demoraram de se adaptar ao uso das ferramentas tecnológicas que tornam possível o ensino à distância está sendo sumariamente demitidos.

Por Caio Pinheiro.

Caminhamos para o segundo ano do estado pandêmico. Mortes, deteriorização do sistema econômico, precarização das condições sociais e retrocesso na garantia de direitos fundamentais, definem o quadro pintado pela Covid-19. De norte a sul e de leste a oeste as queixas e lamúrias são comuns. Contudo, a decisão de como enfrentar esse estado de coisas traz à tona o fato de alguns países terem optado pela barbárie e outros por aprofundarem seus fundamentos civilizatórios.

Bem, denunciar esse cenário parece blá blá blá, visto ser uma realidade diuturnamente veiculada em todas as plataformas de comunicação. Com efeito, falar da mesma se fez necessário, pois é o palco onde outra crise se apresenta, falo da deteriorização do nosso já frágil sistema educacional. Mais do que nunca, a educação brasileira pede socorro!

Não quero expor as contradições da educação brasileira, mas pretendo refletir acerca do qual os professores – elemento fundamental para o êxito de qualquer sistema educacional – têm sito reiteradamente violentados. Na educação privada ou pública, docente que demoraram de se adaptar ao uso das ferramentas tecnológicas que tornam possível o ensino à distância está sendo sumariamente demitidos.

Sob argumentos di, vários dos meus colegas foram jogados ao desemprego. Justificativas do tipo: “Professor, infelizmente a escola não tem tempo para esperar sua adaptação, por isso estamos encerrando aqui nossa parceria”. É tipo, “agora que você é uma peça desgastada e inutilizada, iremos te substituir por uma nova, adequada e adequável ao funcionamento dos nossos mais sagrados interesses institucionais.

A consequência dessa política de “joga fora no lixo”, tem sido o adoecimento emocional dos vitimados e daqueles (as) que se sentem vítimas potenciais. Do outro lado, nossas entidades de classe estão enfraquecidas e desprestigiadas pelos próprios professores, que, em diversos casos, compraram o discurso de que o sindicado é um amigo negligente, por isso deve ser esquecido e atacado. Na rede privada, onde também atuo, a única vez que vi os professores se mobilizarem em torno do sindicado foi para assinar a lista que desautorizava o débito da contribuição sindical na folha salarial. De meu lado, penso que “ruim com ele, pior sem ele”.

Observando o desespero de muitos, sinto habitar num país que optou pela barbárie. Nessa terra invadida por Cabral, mas do que nunca vale a expressão filosófica: “o homem é o lobo do próprio homem”. Na educação, a julgar pela política de profilaxia dos “velhos inadequáveis”, a máxima acima é bastante adequada para caracterizar esse momento.

Para piorar, os gestores públicos resolveram de maneira questionável decretar o retorno das aulas presenciais, sem, contudo, ter vacinado em segunda dose todo o contingente de professores das redes. E o que vai acontecer? Os “velhos inadequáveis” poderão ser eliminados em definitivo nesse Brasil da barbárie! Enfim, o negócio está cada vez mais sinistro. É tempos do salve-se quem puder! Exu me proteja dessa gente boa!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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