Em carta aberta, Augusto Júnior comenta o retorno das aulas presenciais nas escolas do município

Por Augusto Júnior.

Carta Aberta aos alunos, pais de alunos, educadores, gestores, órgãos de controle da educação municipal em Ilhéus e a quem interessar travar esse saudável e necessário debate.

Com o fechamento da campanha salarial e a definição do retorno as aulas com o ensino híbrido para o dia 27 de setembro, com anuência do Conselho Municipal de Educação, me sinto à vontade para trazer à público um debate travado do âmago educação em Assembleia Sindical dos professores em Ilhéus. Antes é preciso compreender como chagamos ao ponto de haver pequena parcela relutante para voltar a ter contato presencial com os alunos na escola.

Em meados de março de 2020 a educação em Ilhéus parou em função da pandemia do Sars-Cov-2, que levaria milhares de vidas, inclusive a de meu pai.  No referido ano, mesmo sem trabalhar os trabalhadores em educação, efetivos, receberam em dia e integralmente seus salários, os contratados foram mantidos com 50% dos proventos. Toda uma geração de alunos foi prejudicada, não tiveram uma aula se quer. Nesse sentido, eu afirmei de forma de forma veemente na assembleia que todos nós “recebemos salários estando de pernas para o ar” e todos sabemos que não demos causa a isso, mas o fato é que recebemos sem trabalhar por um ano. Minha fala foi completamente desvirtuada, descontextualizada por alguns, para jogar cortina de fumaça e fugir de debate principal que é a volta as aulas das nossas crianças.

Mas por que alguns colegas ficaram roxos de raiva, fizera memes lindos, após a famigerada assembleia na qual me posicionei de forma peremptória em favor do retorno às aulas? Eu apenas usurpei ser a voz dos alunos da minha escola que residem no campo, muitos do Itariri e regiões vizinhas, alguns vivendo no/do lixão e que não tem o que comer com regularidade quando não estão na escola. Quis ser a voz dos alunos das nossas periferias que ficam nas ruas sujeitos a cooptação do tráfico. Ousei e ousarei defende-los sempre, da sanha peçonhenta de alguns anônimos, excetuo os que fazem o debate franco, respeitoso, ético e direto, sem se valar do anonimato para se posicionar sem ter que assumir que não quer voltar a trabalhar presencialmente. Não nego que haja espaços sem condições de retorno imediato, conheço de perto algumas realidades. Não há tempo melhor que centenário de Paulo Freire para o debate sobre volta as aulas.

A fala que fiz sacudiu a educação, uns contra, babando ódio ao ouvir verdades que lhe doíam, outros a favor, mas com medo de se manifestar em meios às vozes ensandecidas pelo que disse e quantas não foram as manifestações de apoio que recebi. Como o objetivo não era jogar para a torcida ou fazer discurso maniqueísta, a fala provocou reflexões, foi oportuna para percebermos o nosso papel de educador, de formador de opinião. Eu disse e reitero que no ano de 2020 ficamos todos, “com as pernas para o ar” recebendo nossos salários. A gestão ia uma vez por semana à escola e só. Em janeiro de 2021 publicou-se o Parecer n. 4 do CME com uma proposta pedagógica de calendário continuum com previsão de retorno gradativo das aulas a parir de maio. De janeiro até a citada assembleia não se via alvoroço para problematizar o retorno e buscar soluções para um retorno menos turbulento, o pessoal do quanto pior melhor silenciou e quando se falou em retorno ecoaram suas vozes “macunaímicas” corporativistas de protestos nas sombras dos grupos de WhatsApp, como se o que falassem ficasse oculto ou me incomodassem, não incomoda e toda ausência é atrevida.

Atualmente os professores vão à escola três vezes por semana a cada 15 dias intercalando com o planejamento feito em casa. Vamos perguntar aos nossos alunos, aos pais e a sociedade que paga nossos salários se essa modalidade gera os mesmos efeitos de aulas presenciais? E a aprendizagem dos alunos, é a mesa com roteiros de aprendizagens, sem aulas expositivas, enviados quinzenalmente, para serem ensinados muitas vezes por pais analfabetos ou semialfabetizados? Desejo que passemos por esse momento, mas sem hipocrisia, sem demagogia, sem corporativismo e com o mínimo de empatia, que cada profissional da educação coloque a mão na consciência e responda para si mesmo, se esses alunos estão aprendendo?

Afirmo que nós, professores, na esmagadora maioria, não acreditamos na educação pública a qual promovemos em tempos normais, imagina em tempos de pandemia. Você confiaria a educação seu filho a esse modelo? Ah Augusto! Mas isso não é um problema meu, é da rede, do sistema, do prefeito, do governador, do presidente… são essas as desculpas que ouvimos, mas e nós fazemos nossa parte? No Estado o governador fez como quis, não dialogou, determinou a volta e pronto, cortou ponto de quem não trabalhou, ameaçou abrir PAD, fez o diabo. Quando o município, no embalo do Estado anunciou de inopinada um possível retorno, por meio da publicação de decreto, fui o primeiro e talvez o único naquele dia, a se manifestar e pedi a retomada da vacina aos trabalhadores em educação, horas após o decreto tornei pública minha posição, contra um eventual retorno naquele momento, mesmo ocupando cargo comissionado. Fui coerente, enviei ofício ao Prefeito Mário Alexandre e a Secretária Eliane Oliveira, (https://www.instagram.com/p/CRcWAAyBYiY/?utm_medium=copy_link) que sensíveis à nossa realidade, repensarem essa situação, retomaram o ciclo de vacinação com vistas ao retorno. Tenho protocolos desses documentos.

É fato que o número de casos caiu vertiginosamente, já ficamos dias sem óbitos na cidade. Com base nesses dados, a SEDUC, com lastro nos órgãos de Saúde pensaram em retornar e uma matéria desastrada da imprensa afirmou que o retorno seria dia 06 de setembro. Mais uma vez, fui no grupo de WhatsApp dos gestores e registrei a minha contrariedade, pois não havia imunização total dos trabalhadores, eu mesmo não havia tomado a segunda dose e havia dúvidas que ainda estavam sem respostas. De imediato e com muita sensibilidade, a Secretária Eliane Oliveira me ligou e disse que havia ocorrido um engano, que o retorno não tinha data prevista, dependeria ainda do Conselho Municipal de Educação. Isso a categoria já estava em polvorosa, inclusive até a campanha salarial deixou de ser importante nesse dia.

Eis que o sindicato chamou uma assembleia, cuja pauta era o retorno das aulas no modelo híbrido. Confesso que pensei que haveria proposições sobre quais as melhores estratégias adotaríamos para mitigar o risco de contaminação, para evitar a evasão e potencializar a aprendizagem e para minha frustração o que vi foi uma politização da discussão e em torno dela, uma proposta que parecia majoritária, o não retorno ad infinito. Diante da ausência de vozes que defendessem o retorno, mesmo com as devidas críticas a estrutura eu o fiz, mas fiz em defesa do direito fundamental à educação das crianças pobres da nossa cidade.

Minha fala, dessa vez, não foi corporativista então verei o anticristo para alguns, como se essas opiniões alheias movessem minhas posições. Meu discurso foi diametralmente oposto ao que defendia um pequeno grupo de pessoas que faziam lobby nas assembleias para que as aulas não fossem retomas. Alguns dos argumentos merecem atenção eu até concordo com muitos, em especial os das pessoas que trabalham e muito pela educação em Ilhéus, mas existem argumentações teratológicas, como a que diz que nosso público alvo, leia-se alunos, não está vacinado. Eu pergunto: qual país vacinou todos para retornar?

Esse debate me fez lembrar das aulas do curso de Pedagogia na UESC quando dialogávamos sobre a dicotomia entre teoria e prática, na teoria todos reconhecem o valor da educação, mas na prática… e nem adianta vir com discurso maniqueísta querendo contrapor o direito à educação ao direito à vida que não cabe no atual cenário. Não venham tão pouco dizer que minha fala foi inconsequente, pois eu, na condição de gestor tenho compromisso e responsabilidades morais, legais e funcionais com a saúde e a vida dos meus colegas, e estou tomando as providências que me cabem quanto a esses cuidados. Não me venham tão pouco falar de insensibilidade em meio a essa pandemia, pois esse ano perdi uma das pessoas que mais amo e quase perco outra que amo de igual forma, meu pai e minha mãe respectivamente, mas não uso isso como desculpa para não votar e não apresentar alternativas viáveis.

Quero que entendam apenas que a preocupação que tenho com a minha saúde e vida é tal qual a que tenho com a dos colegas, é também a preocupação que tenho com a formação de uma geração de meninos e meninas que nessa corrida da vida já largam muito atrás das crianças mais abastadas ou mesmo dos nossos filhos, que não são ricos, mas que têm a oportunidade de estar tendo aula dentro de suas casas e não apenas recebendo roteiros de atividades. A maior decepção é ver que muitos dos que fazem defesa ferrenha do não retorno são vistos em praias e clubes lotadas, nos barzinhos, nas viagens, nas reuniões religiosas, basta visitar suas redes sociais e desnudar sua hipocrisia. Há quem seja negacionista que não se vacinou e não quer voltar, há quem trabalhe normalmente em outra rede e no município alega comorbidade para não voltar. É lamentável, mas para alguns deles parece que só na escola se pega covid. Eu deveria me calar diante dessa realidade?

Finalizo fazendo dois registros, para não me acharem irresponsável. Um que existe a Variante Delta que é mais contagiosa e letal e que circula em nosso estado, mas está sendo monitorada pela vigilância epidemiológica e se for o caso suspende-se novamente as aulas como fizeram meses atras em outros países e estados do Brasil. Por fim, defendo que o retorno não seja compulsório, que os pais tenham a possibilidade de decidir se considera seguro ou não enviar seus filhos nesse primeiro momento, só a eles cabem as decisões sobre o futuro dos seus descendentes. Friso que não podemos perder de vista, que a ciência já afirma preliminarmente que o Sars-CoV-2 é um vírus que veio para ficar como o H1N1 e a vacinação deverá fazer parte permanentemente do Programa Nacional de Imunização, vamos ter que nos acostumar a conviver com ele, nessa hipótese, não voltaríamos nunca?

Augusto Júnior é pedagogo, advogado, especialista em educação e relações étnico-raciais e mestrando em Direito.  



4 responses to “Em carta aberta, Augusto Júnior comenta o retorno das aulas presenciais nas escolas do município

  1. Parabéns Professor Augusto Júnior, sábias palavras, sua mensagem ecoa como um grito de esperança para aqueles pais que não tem o dominio da verve, tampouco espaço midiático para gritar pelos seus filhos, mesmo que o tempo é de conectado vinte e quatro horas pelas redes sociais, o acesso ainda é de controle externo. Portanto acredito que seu ato e posição vem chamar atenção para uma reflexão, por todos os envolvidos, para o abuso não está sendo excessivo, sob pena de amanhã, os resultados não comecem aparecer nas suas madrugadas e portas fechadas ou quem sabe já lacradas pelo medo da insegurança. Um país, um estado, uma cidade, um bairro, uma rua, uma residência, uma família, que não tem acesso a educação, pode ser refém da sua própria violência.

  2. Lamentável a distorção dos fatos apresentados aqui. Em momento algum os professores se recusaram a retomar o trabalho presencial. Apenas são reinvidicadas condições mínimas que garantam os protocolos de biossegurança para os alunos, pois boa parte de nossos alunos sequer tem vacina disponível para a faixa etária que é de 3 a 10 anos (anos iniciais do Ensino Fundamental). Somente agora a faixa etária a partir dos 12 está sendo alcançada. Embora a gravidade da Covid em crianças e adolescentes seja menor, eles são vetores de transmissão para familiares. Estamos já numa fase de 3⁰ dose para idosos, muitos de nossos alunos convivem com avós. É mais uma preocupação com o bem estar das crianças e famílias do que com o nosso . A realidade da estrutura das escolas municipais de Ilhéus é precária há muito tempo, com espaço físico extremamente reduzido, algumas sequer tem área pra recreio ou refeitório. São discussões mais amplas e necessárias que ficaram mais evidentes num contexto pandemico. Com relação ao ano letivo de 2020, não trabalhamos porque não nos foi proposto nada viável no momento, entretanto, este ano estamos trabalhando conforme o que foi programado pelo setor responsável. Se ficamos parados e recebendo não foi por descaso nosso, mas por falta de condições de trabalho. Existe a parte que ninguém mostra, do professor com pilhas e pilhas de atividades para corrigir, de dar de diários pedagógicos e administrativos atualizados (só quem está fazendo entende o trabalho desgastante), o atendimento às famílias na semana que estamos “em casa” (com a Internet e os aparelhos pagos do nosso bolso), as tentativas de ajudar com atividades extras os alunos que estão com dificuldades. Tão fácil falar do que conhece superficialmente. Todas as semanas que estamos em casa trabalhamos muito mais do que se estivéssemos em sala, pois são planejamentos, formações, correções, atendimento às famílias, tudo junto e misturado. Ninguém está se furtando a cumprir obrigações, mas há coisas que simplesmente fogem da alçada do professor nesse imbróglio de retorno híbrido. Precisavam de um bode expiatório e acharam conveniente nos pintar de vilões num contexto de total descrédito da sociedade no papel do professor por questões de ideologias partidárias na esfera nacional. Virou moda agora “malhar” o professor. Como diria Homer Simpson “a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser” (contém sarcasmo). Só um desabafo, já que ninguém pode defender publicamente nossa categoria…

  3. Parabéns Tica pelo seu comentário!! Totalmente distorcido e com uma “delicadeza” nas palavras , que dá até vontade de chorar ao ler essa Carta Aberta ! Kkkkkk É só perguntar aos que ouviram e estavam participando da Assembleia se as palavras foram ditas assim com tanta cordialidade e empatia ! Rs. Não é a toa que a frase ” de pernas pro ar” viralizou tanto. 🤷‍♀️
    Os professores a todo momento cumpriram com o que era posto pelo Município desde o início da pandemia . Tudo muito conversado, discutido em inúmeras reuniões tanto com representantes do Município quanto da classe. O que não podemos aceitar são condições insalubres que já existiam , porém não em meio à uma pandemia. Ao invés de culpabilizar a classe, por que não mostrar as condições reais em Carta aberta à comunidade, da realidade de algumas escolas, creches em relação ao espaço físico, a falta de profissionais de apoio?

  4. Confesso que fiquei confuso com a dicotomia do discurso! Terei que me aprofundar no estudo da “análise do discurso”! A não ser que seja missa encomendada! Em nenhum momento professores se negaram a trabalhar! Exigiram condições de biossegurança! Quando uma proposta de volta foi apresentada, desconheço alguma escola que não a esteja cumprindo! Não sei se dentro dos seus colegas diretores algumas ações lhe desagradaram! Porém, posso garantir que entre nós professores não negligenciamos! Muitos fizeram cursos online, de mídias, ensino híbrido, como dar aula pela internet, iluminação, entre outros! Se perceber, todos voltados a atender alunos em possível retorno! A internet somos nós professores que bancamos os notes e os celulares, fomos nós que os compramos! Enfim, acho que temos que ter mais cuidado, quando falamos de uma classe de fundamental importância! Para não chegarmos ao ponto de ouvimos que “somos professores demais nesse país”!!!

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