Diego e Daniele Hypólito: duas abordagens sobre a mesma história

Porém atletas de ginástica, fisiculturismo, basquete, atletismo, ciclismo, boxe e inúmeras outras modalidades esportivas parecem, no Brasil, estar destinados ao sacrifício, à pobreza ou, no máximo, a um fugaz momento de glória seguido de profundo esquecimento por parte de todos.

Por Júlio Gomes.

Sempre fui fã incondicional acompanhei a carreira esportiva de Diego e Daniele Hypólito, encantado não só com o desempenho de ambos nas diversas modalidades de ginástica olímpica mas, sobretudo, com a ousadia desses dois irmãos.

Sim, ousadia, porque é ousado praticar de forma profissional e competitivamente qualquer outro esporte no Brasil que não seja o futebol, único que realmente dá ampla projeção social e paga muito bem a quem nele se destaca, abrindo as portas para os grandes times da Europa e para o mundo.

Porém atletas de ginástica, fisiculturismo, basquete, atletismo, ciclismo, boxe e inúmeras outras modalidades esportivas parecem, no Brasil, estar destinados ao sacrifício, à pobreza ou, no máximo, a um fugaz momento de glória seguido de profundo esquecimento por parte de todos.

Daniele e Diego foram pioneiros ao se destacarem na ginástica olímpica, esporte tão desconhecido e ainda tão distante da maioria de nós, brasileiros. Competiram incontáveis vezes em Jogos Pan-Americanos, em campeonatos mundiais e em várias Olimpíadas, sempre trazendo medalhas para o Brasil, nos proporcionando júbilo e alimentando nossa autoestima.

Mas a passagem do tempo e o fim da juventude, inexoráveis, implacáveis, chegam para todos, e para os atletas a carreira profissional termina sempre mais cedo do que nas demais formas de ganhar a vida.

Em idade adulta e plenamente saudáveis, mas caminhando para os 40 anos, Daniele e Diego não têm mais condição de competir com jovens de 15 a 20 anos que possuem a flexibilidade e a leveza que a idade mais madura já não proporciona.

Finda a carreira esportiva como atletas, passados e quase esquecidos os momentos de glória, os irmãos Hipólito encontraram no circo, na vida circense o novo palco para suas piruetas, saltos e movimentos cheios de graça e arte, com que continuam encantando os espectadores, embora com ganhos e perspectivas bem mais modestas.

A ida dos irmãos para o circo em nada diminui minha admiração por eles, pois é a prova viva de que sabem se reinventar, dar a volta por cima, ousar e encontrar, na adversidade, forma digna e honesta de ganhar o pão de cada dia.

Porém não se pode deixar de fazer uma reflexão acerca de como o Brasil trata os brasileiros que se mostram como modelos de conduta, nossos heróis anônimos, aqueles que deveriam verdadeiramente ser nossos paradigmas, nossos mitos.

Os irmãos Hypólito, pelo que já fizeram, pelo que acumularam de saber e experiência, pelo que decerto poderiam ensinar e transmitir às novas gerações, mereciam um grande e moderno centro de treinamento à sua disposição, onde pudessem se dedicar a formar novos atletas, novos campeões, toda uma nova geração de ginastas vitoriosos para trazer conquistas ainda maiores que as deles para nossa nação.

Nem governo, nem sociedade, nem iniciativa privada. O circo foi a saída digna, nobre e honesta para, enquanto seus corpos lhes permitir, ganhar o pão de cada dia.

Aumenta minha admiração pelos irmãos Hipólito, mas cresce em mim a certeza de que há um rumo profundamente equivocado na forma como nós conduzimos nosso país.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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