Yemanjá, Mãe Laura e a alegria de viver

Mas sei que em algum lugar, na Terra dos Eguns, Mãe Laura há de festejar seu Dois de Fevereiro, agora mais perto de Yemanjá e de sua falange, onde sei que encontraremos pessoas simples, alegres, lutadoras iguais à Yalorixa, agora ausente de nosso mundo terreno.

Por Júlio Gomes.

Dois de fevereiro, dia de Yemanjá!

No final do Bairro do Pontal, no local conhecido como Nova Brasília, Mãe Laura e seus filhos e filhas de santo chegam para fazer a festa, com suas roupas brancas, seus vasos com água de cheiro e flores, muitas flores.

A trilha sonora são os atabaques e o canto de vozes de origem africana, onde uma pequena multidão negra, aumentada pela presença de muitos brancos, se reúne alegremente para dançar, saudar, festejar a Rainha das Águas.

O sol brilha firme no céu de verão e as pessoas vêm com pouca roupa. Os homens tiram a camisa e a bebida ajuda a enfrentar o calor.

Montada a estrutura da festa, às vezes com pequena ajuda do Poder Público e muitas outras vezes somente com a cara e a coragem dos povos de terreiro, vamos receber a sagrada benção de Mãe Laura. Muito feliz, com sorriso imenso, sempre jovem e bela em sua negritude, de olhar contagiante, Mãe Laura benze com um ramo de flores, fala boas palavras, abençoa.

Quem disse que alguém do rito africano não pode abençoar?

Neste Dois de Fevereiro de 2022 não tivemos a alegria de Mãe Laura, que a Covid levou precocemente, assim como levou mais de 600 outros ilheenses e 630.000 brasileiros.

Na praça do Pontal situada na Nova Brasília que hoje, em justíssima homenagem, leva seu nome, não tive notícia de que tenha ocorrido festejo, nem nada que se assemelhe à alegria intensa que ela e seu terreiro promoviam e que tantas vezes fez parte de minha vida em belos dias de sol. Tão belos como o sorriso de Mãe Laura.

Mas sei que em algum lugar, na Terra dos Eguns, Mãe Laura há de festejar seu Dois de Fevereiro, agora mais perto de Yemanjá e de sua falange, onde sei que encontraremos pessoas simples, alegres, lutadoras iguais à Yalorixa, agora ausente de nosso mundo terreno.

Meus olhos veem a Bahia que não esqueço, que amo, que se alegra por sua origem africana, por sua mestiçagem, por seu sincretismo, por sua capacidade de ser ecumênica, apesar da crescente intolerância de muitos.

E vejo Mãe Laura jovem e bela, pérola negra vestida de branco, à frente de seus filhos e filhas de santo, em um festejo onde a alegria de viver não se deixa abater pela saudade.

Odoyá, com Jesus e Oxalá!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



2 responses to “Yemanjá, Mãe Laura e a alegria de viver

  1. A memória de Mãe Laura merece a homenagem de um busto da mãe de santo na área verde da Maramata. Seria uma iniciativa importante para garantir que a líder espiritual de tantos ilheenses seja lembrada na posteridade.

  2. Muito merecida essa homenagem, obrigada Júlio Cezar por esse lindo texto.por vários anos acompanhei os festejos do dia 02,e esse ano senti uma grande saudade e um vazio imenso no coração ❤️

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