Julio Gomes inicia série de artigos “Novela da Vida Real”; primeiro texto: “Lembranças”

Por Julio Gomes.

Breve introdução

Quando a idade começa a avançar para a madureza, algo interessante ocorre: nossas certezas, nossas convicções mundanas se esboroam, se desfazem como ondas na praia, e já não nos sentimos mais aptos a indicar caminhos absolutos. Apenas olhamos nossos acertos e erros, contabilizamos a colheita dos resultados de ambos e buscamos não perder mais algo que é absolutamente precioso: o tempo que nos resta.

Por isso inicio, sem mais tardança, a criação e publicação de uma espécie de memórias a que chamarei de Novela da Vida Real.

É difícil, para quem jamais foi celebridade, escrever memórias e suscitar o interesse de terceiros. Mas se não fui célebre, penso ter sido original, sui generis em muitos momentos e, infelizmente, um pouco menos ousado do que deveria ter sido.

Que não se perca mais o precioso tempo, nem se desperdice eventuais talentos que Deus outorgou: Vamos ao relato de um passado vivo, vibrante, apaixonado, vivido com a força da juventude e a paixão dos loucos, que não aprenderam a ganhar mais do que o essencial à sobrevivência, mas que se descobrem na urgência de aprender a amar, mesmo que tardiamente, para que a existência não seja vã.

Inicia-se aqui a série NOVELA DA VIDA REAL.

Lembranças

Corria a década de 1970 do Século passado. Certamente eu ainda era uma criança com algo em torno de dez anos, penso eu, já que a idade exata foge totalmente ao conhecimento. Mas volta e meia recordo do inusitado e inesquecível episódio.

Vovô, em um momento no apartamento dele, começou a conversar comigo, indagando sobre coisas que eu não entendia bem, mas tentava responder. Falou sobre como era importante ter um terno bacana, elegante, mas respondi que não gostava de terno.

Isso deve tê-lo preocupado de alguma forma porque ele disse que ficou muito alegre quando, saindo da infância, ganhou as primeiras calças compridas. Eu respondi que gostava muito de minhas calças curtas e não tinha vontade de usar calças compridas.

Notei que, estranhamente, meu avô começou a preocupar-se. Suspirava, passando as mãos sobre os cabelos, impaciente, enquanto eu nada entendia acerca daquilo.

Vovô então disse que eu, quando crescesse, deveria procurar trabalhar em um banco ou um grande escritório, com papéis, valores, altas responsabilidades, junto a questões importantes. Eu respondi, de forma inocente, direta e respeitosa – como faziam as crianças naquela época – que não gostaria de trabalhar em banco nem escritório nenhum, que achava tudo aquilo muito chato, muito ruim.

Vovô quase entrou em desespero!

Eu era o filho do primeiro casamento de meus pais e, após a separação deles, ocorrida quando ainda era muito pequeno, fiquei com minha mãe e fui criado como filho único, que de fato era por parte de mãe, já que ela não se casou mais nem teve outros filhos.

Naquela época, além do preconceito contra as mulheres descasadas, desquitadas, que por isso ou aquilo criavam seus filhos sozinhas, havia também, certamente, um preconceito contra os filhos únicos criados somente pelas mães. Porém eu, criança, nada sabia sobre essas coisas de adulto.

Vovô não se deu por vencido e voltou à carga: aproveitando que estávamos sem mãe e avó por perto, disse que no escritório as secretárias trabalhariam só de calcinha e sutiã, o dia inteiro!

Imediatamente imaginei a cena: eu sentado em uma mesa, vestido com roupas normais de trabalho em escritório, e um bocado de mocas jovens e bonitas passando prá lá e prá cá só de calcinha e sutiã, levando papéis, atendendo telefone e trabalhando desta forma. Bem, esta cena me interessou bastante, e fiquei a imaginá-la!…

Lembro muito vagamente que minha mãe e minha avó, em local próximo no apartamento, entre sorrisos conversavam entre si e, depois, falaram com meu avô que lhes expressou algo como “não se metam, a conversa é de avô para neto”.

Mas eu quase não prestava atenção na cena em torno dos três familiares, mãe, avó e avô. Estava absorto demais imaginando a cena que jamais sairia de minha cabeça: uma moça passando perto de mim com uma pilha de papéis nas mãos, só de óculos, calcinha e sutiã.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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