Novela da vida real: a Bahia e o inexplicável

Quando terminei de prestar o serviço militar obrigatório no Exército, mamãe decidiu sair do Rio de Janeiro, onde a vida de aventuras, bebedeiras, namoros e sumiços noturnos a que eu me afeiçoei começou a se mostrar bastante perigosa em uma cidade grande e violenta como aquela em que vivíamos. E quando ameacei querer entrar para a Polícia Militar do Rio de Janeiro – uma instituição onde as baixas por deserção, envolvimento com o crime e morte eram cada vez mais frequentes – minha mãe viu que soou o alarme para sairmos dali o mais rápido possível.

Por Julio Gomes.

Mamãe, sempre moderna e avançada para os padrões de sua época, permitia-me algumas coisas que não eram usuais nos anos 70 do século passado, quando tínhamos entre 5 e 15 anos de idade. Uma delas era fazer “vista grossa” e me permitir assistir, em 1973, aos episódios da “novela das dez” da noite, levada ao ar pela Rede Globo, direcionada para o público adulto e classificada pela censura oficial da ditadura militar como imprópria para menores de 16 anos. Eu tinha apenas cerca de oito anos, mas assistia da porta do quarto, meio escondido e muito atento. (mais…)