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Pesquisadores do IF Baiano desenvolvem estudos para aperfeiçoar Escrita de Libras

Entrevista com Anderson, aluno surdo egresso do IF Baiano.

O Sistema de Escrita para Libras (SEL) é uma solução para que se possa ler e escrever de forma fluida a Língua Brasileira de Sinais. 

A Libras, Língua Brasileira de Sinais, é a língua natural, ou língua principal, de muitas pessoas que têm surdez ou deficiência auditiva. Embora muitos surdos façam oralização do português e consigam, através da observação do posicionamento de lábios, compreender e até vocalizar palavras em português, é através de gestos e expressões faciais e corporais que crianças surdas começam a se comunicar e muitas delas demoram a ter acesso à aprendizagem de uma língua. Com o domínio da Libras, essas crianças estabelecem uma comunicação mais fluida.

Foi assim com Anderson Almeida Mota, ex-aluno do curso Técnico em Agropecuária do IF Baiano – Campus Itapetinga. Ele nasceu com perda auditiva moderada numa família sem pessoas surdas em seu núcleo mais próximo. Até os seis anos de idade, se comunicava, apontando, fazendo gestos e mímica. Com 7 anos, conheceu uma pessoa ouvinte que o apresentou alguns sinais de Libras e, em seguida, alguns surdos que falavam a Língua Brasileira de Sinais. Rapidamente, aos 8 anos, através da conversação, adquiriu fluência na Libras, sua língua natural.

A vida parece ficar mais fácil quando um indivíduo ganha fluência na sua primeira língua, mas imagine dominar sua língua natural e encontrar pouquíssimas pessoas ao seu redor que também a domine?

Mesmo após ser reconhecida oficialmente em 2002, a Língua Brasileira de Sinais ainda não é utilizada pela maioria da população, pois não é ensinada nas escolas como o português oral e escrito.

 

Desafios na escolarização do surdo

Anderson conta que em sua vida escolar tudo foi mais difícil para ele do que para os alunos ouvintes. Ele nem sempre teve intérpretes nas escolas e poucos são os professores que compreendem Libras e as diferenças da Libras e da Língua Portuguesa (LP) para entenderem como se dá a escrita e leitura da escrita de LP por surdos.

Ingressar numa instituição de ensino técnico profissionalizante foi um desafio para Anderson. Embora a instituição tenha tradutores de Libras, a plena garantia de acessibilidade para pessoas surdas requer outros esforços. “Sofri muita coisa quando entrei, porque são muitas disciplinas, é muito difícil. Disciplinas técnicas com novos sinais, nova comunicação. Não foi fácil, mas me esforcei, aprendi muita coisa e me formei”, conta.

Os Institutos Federais não são escolas bilíngues (com a Libras como língua principal junto ao Português para surdos e não surdos) e ainda caminham para ser e oferecer acessibilidade plena a surdos. Nesse caminhar, há pessoas que se dedicam a estudar e desenvolver pesquisas científicas para garantir a popularização da Libras e aumentar a acessibilidade não apenas nos Institutos, mas na sociedade brasileira como um todo.

Entrevista com Anderson, aluno surdo egresso do IF Baiano.

 

Pesquisas sobre letramento em Libras

Um grupo de servidores do IF Baiano, vinculados ao Grupo de Pesquisa das Estruturas Gramaticais e Aquisição da Linguagem (GPEGAL/UESB), vêm estudando e desenvolvendo pesquisas sobre o Sistema de Escrita para Libras (SEL), criado pela professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Adriana Lessa-de-Oliveira.

Pessoas alfabetizadas na língua Portuguesa têm acesso à leitura de textos, notícias, mensagens e uma infinidade de livros. A escrita do Português é a representação dos sons para formar sílabas e palavras. No processo de alfabetização em Língua Portuguesa, portanto, pessoas com deficiência auditiva têm mais dificuldade na aprendizagem que pessoas ouvintes. O objetivo do sistema de escrita de Libras (SEL) é promover formas de inclusão das pessoas com deficiência auditiva no mundo letrado. A Escrita SEL consiste, basicamente, em transformar os sinais gestuais em sinais gráficos.

Segundo a professora Adriana Lessa-de-Oliveira, a representação da Libras pela escrita SEL ocorre através da representação da articulação do sinal por meio de caracteres (letras e diacríticos), os quais indicam: a configuração e a posição da mão na realização do sinal; a parte do corpo que compõe o sinal e onde essa parte é tocada; e o tipo de movimento feito pela mão, incluindo o plano e a direção desse movimento. Assim, explica a docente, ao se ler um sinal escrito em SEL, identifica-se exatamente como esse sinal é realizado.

A pesquisa para elaboração do sistema iniciou em 2009 e, em 2018, chegou-se à versão mais satisfatória do sistema para começar a ser utilizada em propostas pedagógicas. Adriana explica que a tarefa de elaboração de um sistema de escrita não é simples e o seu maior desafio foi buscar uma base fonológica para o SEL, algo que exigiu uma investigação paralela sobre a articulação de línguas de sinais. Assim, Adriana acabou por chegar também a uma proposta de estrutura fonológica para o sinal em Libras, a Estrutura MLMov (Mão, Locação e Movimento).

Integrados ao GPEGAL, os pesquisadores do IF Baiano, o professor Wasley de Jesus Santos e a intérprete de Libras, Carine Gurunga de Matos, do campus de Itapetinga; o professor Bruno Niella e a professora Daniele dos Santos Barreto, do campus de Uruçuca participam da etapa de trabalho que envolve o desenvolvimento de pesquisas sobre a gramática da Libras e sobre a aquisição da linguagem por surdos. Esses trabalhos tomam a estrutura MLMov como fundamento e utilizam o SEL como ferramenta de transcrição de dados e de auxílio às análises.

A intérprete de Libras e doutoranda em Linguística, Carine Gurunga de Matos, desenvolveu, em seu mestrado, uma pesquisa a respeito da consciência sintática em Libras, que resultou na criação do TCSL – Teste de Consciência Sintática da Libras. Esse teste foi aplicado antes e depois do ensino do SEL e os resultados mostraram que a aprendizagem de uma escrita de sinais como o SEL melhora significativamente o conhecimento do falante acerca da estrutura sintática da língua de sinais.

A professora de Libras e doutoranda em Linguística, Daniele Barreto, realizou, em seu mestrado, um estudo sobre a Consciência Fonológica em Libras, utilizando a escrita SEL. A pesquisadora desenvolveu o Teste de Consciência Fonológica da Estrutura MLMov, o TCFE-MLMov, uma ferramenta de análise que possibilita indicar níveis de percepção da estrutura articulatória do sinal, podendo auxiliar no processo de avaliação e planejamento da alfabetização em Libras.

Já o professor de Libras e doutorando em Língua e Cultura, Wasley Santos, desenvolveu sua pesquisa de mestrado a respeito do fenômeno linguístico das trocas entre categorias de palavras que ocorrem no processo de aprendizagem do Português escrito por surdos. O pesquisador utilizou a escrita SEL para a transcrição de alguns dados em Libras de sua investigação.

 

Editor de Texto para digitação em SEL

O professor de Informática, Bruno Niella, desenvolveu um software editor de texto para o SEL, em seu mestrado em Portugal. Este editor permite a digitação de textos em SEL, em notebooks e desktops, utilizando-se o teclado de maneira prática e eficiente. O software foi batizado de E-SEL, por ser um editor digital do sistema, o qual poderá ser utilizado nas mais variadas situações de uso da Libras escrita, inclusive em propostas de alfabetização nessa língua.

A escrita em SEL poderá refletir na ampliação das condições de aquisição de conhecimentos gerais e também do conhecimento sobre o próprio Português escrito.

Anderson Mota, aluno citado no início da reportagem, colaborou com as pesquisas, participando de um curso de Escrita SEL. “Eu gostei muito de aprender a Escrita SEL, pois ela é simples e em pouco tempo de curso já consigo identificar seus caracteres. Gostaria muito que houvesse uma lei no país que implementasse o ensino da Escrita de Libras para todos os surdos”, relata Anderson.

Segundo a professora Daniele, alguns alunos não imaginavam que sua língua pudesse ser escrita e conhecer o SEL causou-lhes espanto e muita alegria. Acostumados a escrever em Português com toda a dificuldade que a escrita de uma língua fonológica impõe a pessoas com deficiência auditiva, exercitar a escrita de sua língua materna pode ser mais prazeroso, mais intuitivo e fluido.

As pesquisas ainda são recentes, mas comprovam a efetividade do Sistema de Escrita e como o letramento em Libras impacta positivamente no letramento de surdos em Português. Até que surdos tenham acesso a produzir e consumir conteúdo escrito em Libras, como textos, livros, aplicativos de mensagem, há que se percorrer um caminho para a popularização do SEL. Para Daniele, esse caminho passa pelo crivo de investimento em políticas linguísticas, como a alfabetização e letramento em escrita de língua de sinais na educação básica, bem como a produção de materiais nessa escrita.

 

Acessibilidade plena

A luta dos surdos e dos pesquisadores em Libras e acessibilidade vai além do acesso de pessoas com deficiência auditiva a intérpretes de Libras, o que já é difícil, devido à pouca oferta de profissionais tradutores no mercado. O que desejam é que surdos possam se comunicar em Libras efetivamente com toda a população. “A gente defende que todo mundo deveria aprender Libras já nas escolas desde crianças”, explica Carine Guruga, intérprete de Libras para Anderson.

Para Carine, a inclusão da pessoa surda na sociedade só acontece, de fato, se ela puder se comunicar diretamente com seus colegas, seus professores e atendentes em instituições. “O surdo precisa ir ao banco e precisa levar o intérprete, porque o atendente no banco não fala Libras; precisa ir ao médico, ao psicólogo. Imagine o desconforto que é você falar de coisas íntimas, pessoais na frente do intérprete?”, pontua Carine.

O IF Baiano oferece periodicamente cursos de Libras presenciais e on-line para sua comunidade. Esses cursos fazem com que familiares, colegas e amigos de pessoas surdas aprendam Libras. Além disso, capacita pessoas para atuarem como intérpretes de Libras, profissão que tem déficit de profissionais qualificados, e capacitam professores que atuam com surdos para oferecer uma educação mais inclusiva.

Reportagem e fotos: Diretoria de Comunicação do IF Baiano.

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