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Filhos de imigrantes, de indígenas ou de escravizados, somos brasileiros

Nós, nascidos no Brasil de hoje, não temos noção do que isso significava para uma família europeia que vivia durante meses a fio circulando entre o estábulo, o moinho, o celeiro e a casa humilde, apenas onde a neve e o frio intenso permitiam deambular, a esperar que a vinda da primavera derretesse a neve e o gelo, e a lama permitisse o retorno ao trabalho no campo.

Por Julio Gomes.

Houve um tempo em que vir morar no Brasil era o sonho dourado para milhões de pessoas. Foi assim para orientais vindos do Japão, que inundaram São Paulo e que vieram também para o vizinho município de Una, aqui na Bahia. Foi assim também para pessoas vindas do Oriente Médio, sejam turcos, sírios ou libaneses, como ainda encontramos muitos descendentes em nossa Ilhéus. Foi igualmente deste jeito para portugueses desiludidos com a pobreza da pátria-mãe, mas que sempre ouviram falar do Brasil como uma terra de maravilhas. E foi assim para parte de meus antepassados, que desiludidos com as Grandes Guerras (a 1ª e a 2ª guerras mundiais) e tendo sobrevivido a elas, saíram da fria Europa em busca de uma vida nova no Eldorado Brasileiro.

O sonho e a certeza íntima de um futuro novo e diferente empolgava todos estes corações imigrantes, que vinham para o Brasil com as melhores intenções de trabalho e progresso, segundo a mentalidade de sua época e cultura.

Foi assim que minha avó, italiana de nascimento, descrevia como o Brasil era apresentado no sul da Itália: no cartaz de um moderno navio a vapor, chegando em um lugar de matas verdes e virgens sob um céu perfeitamente azul claro, onde pairava um sol cheio de luz e calor.

Nós, nascidos no Brasil de hoje, não temos noção do que isso significava para uma família europeia que vivia durante meses a fio circulando entre o estábulo, o moinho, o celeiro e a casa humilde, apenas onde a neve e o frio intenso permitiam deambular, a esperar que a vinda da primavera derretesse a neve e o gelo, e a lama permitisse o retorno ao trabalho no campo.

Sobreviventes da Guerra, que ceifara tantos parentes e vizinhos, tantos amigos de infância, que tanto destruíra, vir para o Brasil era dar as costas definitivamente para este triste passado, indo em direção à alegria, ao novo, ao futuro.

Lembro também, na infância ou na primeira juventude, em torno das décadas de 1970/80, de meus amigos e colegas negros dizendo a sorrir que seus avós antepassados vieram da África, que venceram a escravidão, que ficaram no Brasil e agora lutavam juntos por uma vida melhor.

Embora não tenham vindo como imigrantes, mas na triste condição de escravizados, tornaram-se brasileiros assim como nós, e superando ódios e mágoas, mortes e chibatas, também construíram e aprenderam a amar o Brasil, guardando igualmente o sentimento de que são descendentes de pessoas vindas de outras terras, de outras culturas, de outro mundo para o Brasil, esta pátria que recebe sem acolher, mas que nunca se fechou para quem chega.

É difícil, para os brasileiros de hoje, cujas famílias moram no Brasil há três ou quatro gerações, remontarem-se às suas distantes origens estrangeiras, avaliar a epopeia e o sacrifício de seus antepassados para se adaptarem à Nova Terra, à Nova Cultura, ao Novo Mundo representado pelo Brasil.

Penso que seja uma riqueza sem fim ter essa consciência de ser descendente de seus antepassados, de suas origens, sejam elas brancas, negras ou indígenas, neste Brasil que sempre teimou em negar os mais básicos direitos de cidadania até mesmo aos filhos mais naturais e legítimos de suas terras, os índios.

Apesar de tudo isso, inexplicavelmente amamos o Brasil, nos deslumbramos com ele e ainda temos o sonho, embora cada vez mais distante, de fazer daqui uma terra de progresso e de felicidade.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.

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Uma resposta

  1. Como sempre em seus textos, Júlio arrasa. Ainda mais que é professor de história!
    Parabéns!

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