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Soldado do exército brasileiro

Desejava, sim, prestar serviço militar, por dois motivos: Um porque queria, e ponto final. E outro porque minha pobre mãe sofria muito com meus sumiços ao menos duas noites por semana, em local não sabido e acompanhado de pessoas que ela desconhecia inteiramente. Não adiantou dizer-lhe que era apenas a companhia de alguma namorada: as mães são assim, preocupam-se, sofrem e não sossegam enquanto os filhos não retornam para casa, nem que seja ao amanhecer do dia.

Por Julio Gomes.

Corria a juventude no com todos os seus encantos: bailes funk, samba, praia, futebol, bebedeiras, bons amigos – vários deles desde a infância – namoradas e a alegria e despreocupação que penso que caracterizam a mocidade antes de completarmos 18 anos, inteiramente solto na cidade do Rio de Janeiro.

Nossa família não era rica, mas era, de certa forma, bem provida de recursos, o que me permitia somente estudar, o que fazia com dedicação. Trabalho eu havia tentado conseguir um, mas para um jovem sem experiência profissional é difícil, e como a necessidade não batia em nossa porta, os estudos, o esporte e as diversões bastavam.

Chegou, porém, o momento de nos apresentarmos para o serviço militar obrigatório, o que fiz com sincera expectativa de vir a servir, contrariando o desejo da maioria dos jovens de minha idade, que diziam preferir cair no excesso de contingente e apenas jurar a bandeira, furtando-se ao serviço militar.

Lembro-me de ter passado pelo desagradável exame médico coletivo, inteiramente nu junto com mais um monte de caras, e dias depois apresentar-me no quartel do 1º Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, onde mais de mil jovens esperavam para ser chamados nominalmente para, aí sim, integrarem-se ao Exército.

Desejava, sim, prestar serviço militar, por dois motivos: Um porque queria, e ponto final. E outro porque minha pobre mãe sofria muito com meus sumiços ao menos duas noites por semana, em local não sabido e acompanhado de pessoas que ela desconhecia inteiramente. Não adiantou dizer-lhe que era apenas a companhia de alguma namorada: as mães são assim, preocupam-se, sofrem e não sossegam enquanto os filhos não retornam para casa, nem que seja ao amanhecer do dia.

Ao servir o Exército, pensei, ao menos minha mãe saberá onde estou nas noites em que estiver fora de casa.

Foi assim que fui parar no grande pátio interno do Quartel, onde esperávamos, ainda em trajes civis e sentados sob um sol inclemente, enquanto a manhã avançava junto com o calorão do Rio de Janeiro e os jovens eram demoradamente chamados.

Horas após, a grande maioria dos rapazes ali presentes já havia sido convocada e os que não fossem chamados iriam “sobrar”, ou seja, ser dispensados. Mas, para minha alegria, já ao final meu nome soou e me levantei para assumir meu lugar na corporação, na humilde condição de soldado em que permaneceria durante pouco mais de um ano.

Não tenho problemas em dizer que gostava do Exército: do ambiente, dos colegas de farda, da lida com armamentos, do rancho, dos exercícios, do pernoite no quartel ou em serviço na guarda, da alegria juvenil que para nós permeava tudo isso, entremeado com folgas dedicadas às aventuras próprias da idade, tudo premiado com o pagamento do soldo ao final do mês.

Mas sempre mantive uma visão crítica acerca do papel das Forças Armadas. O país exigia a redemocratização e naquele 1984 o movimento das Diretas Já estava nas ruas enquanto o último General-Presidente, João Figueiredo, preparava-se para passar o cargo para um sucessor civil.

Eu gostava muito do Exército, e tenho a humildade de dizer que minha permanência no quartel contribuiu positivamente para minha formação. Mas nunca me enganei acerca do fato de que lugar de militar é no quartel e na vida militar – e não na política – e menos ainda na Presidência da República.

O tempo se encarregou de mostrar, na atualidade e de forma muito triste e trágica, que meu coração estava inteiramente correto quanto a esta íntima convicção.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.

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