
Por José Henrique Abobreira
Há exatamente 100 anos nascia Fernando Sant’Anna, figura histórica do Partido Comunista Brasileiro. Na década de 40 formou-se em engenharia. Na faculdade, destacou-se nas lutas políticas estudantis do seu tempo, no combate ao nazifascismo e à ditadura getulista do Estado Novo.
Jorge Amado, nosso escritor maior, cita na sua obra Bahia de Todos os Santos a figura imponente de um quase menino que na passagem do féretro do governador da Bahia, JJ Seabra, por ocasião de sua morte em 1942, se destacou da multidão na porta da Escola Politécnica da Bahia, onde estudava.
O jovem ESTANCOU A MULTIDÃO E PROFERIU UM DISCURSO MEMORÁVEL. Exaltou a vida do governante baiano e desferiu estocadas no regime ditatorial que vigorava à época, reverberando valentemente a sua crença na democracia e nas liberdades públicas.
Esse menino destemido e grande tribuno era o nosso Fernando Sant’Anna. Despertava ali para a política em favor das lutas do povo brasileiro e em defesa da democracia.
Encerrado o período ditatorial do Estado Novo, na redemocratização da Bahia e do Brasil, foi convocado pelo democrata Otávio Mangabeira, eleito governador, para assumir uma função técnica como engenheiro.
Abraçou a causa pública sem desfalecer. Foi deputado por várias vezes. Se destacou na defesa das nossas riquezas minerais do subsolo nacional, com participação ativa na CAMPANHA O PETRÓLEO É NOSSO, na década de 50, que resultou na fundação da PETROBRÁS. Também foi o autor do projeto do sistema nacional de transportes e comunicações aprovado pelo Congresso Nacional.
Verdadeiro e sincero nas suas convicções de homem comunista que acreditava ser o socialismo o futuro da humanidade, não esquecia a sua baianidade, não era um sectário. Materialista, mas, antes de sorver um trago da pura de Santo Amaro, jogava primeiro o gole do santo orixá no chão do terreiro. Dizia que era para fechar o corpo.
Em conversas nas longas viagens que fizemos pelo vasto território da Bahia, na campanha de Lídice para governadora em 1990, na frente popular formada pelo PC do B, PSB e PCB, tive o privilégio de ouvir as muitas histórias desse grande homem público.
Fernando nos faz muita falta nesse conturbado momento político que a Nação atravessa, pois era afeito ao diálogo até com os adversários do outro extremo ideológico.
Meu primeiro contato com ele foi por intermédio de Carlos Pereira, que organizava o PCB em Ilhéus. Ajudei Carlinhos a tocar a campanha de Sant’Anna em 1986 rumo à Assembleia Nacional Constituinte. Fernando tinha os pés no chão e já naquela época, pondo o braço sobre os meus ombros, me diria no ouvido para ninguém ouvir, numa descida dele no aeroporto de Ilhéus, que aquela Constituição sepultaria a ditadura de 64, mas não seria ainda a Constituição ideal devido à correlação de forças favorável à burguesia agrária. Imagine se ele visse esse Congresso conservador de hoje com os Cunhas e Bolsonaros da vida (risos).
Numa das viagens que fizemos na campanha das três Marias (Lídice, Salete e Bete), contou-me a pegadinha com que fez ACM passar vexame. Fernando era deputado na Constituinte de 88 e ACM era o ministro das Comunicações. Dialogavam a respeito dos assuntos da Constituinte no tocante à legislação do setor das comunicações do Brasil, cada um com o seu ponto de vista. Antonio Carlos defendia a privatização. O deputado tinha uma visão estatizante. No início da semana era comum pegarem o mesmo voo de Salvador para Brasília.
ACM gostava de pregar peças com amigos e até com adversários políticos. No aeroporto, se avistava alguém cochilando, aproveitava para perpetrar alguma sacanagem, para delírio e gozo dos demais passageiros. Mas, naquele dia ACM foi apanhado numa pegadinha do baiano Sant’Anna.
Fernando tinha feito o check-in e aguardava o voo no saguão do Aeroporto 2 de Julho. Ao notar a presença do ministro, tirou os sapatos e fingiu que dormia, enquanto observava tudo com os olhos semicerrados. ACM o avistou de longe e resolveu aprontar. Se aproximou sorrateiramente e pegou os sapatos. Nesse momento, para a surpresa de Toninho, o deputado abriu os olhos e berrou: “Antônio Carlos, você não larga essa mania de roubar os outros!”.
Fernando pegou o ministro com a boca na botija. Caíram na gargalhada feito crianças.
PS: Essa é uma homenagem a esse grande político baiano com quem convivi por instantes mágicos. Quem dera tivéssemos uma dezena de Fernandos Sant’Anna para abaixar o fogo dessa crise atual.
José Henrique Abobreira é auditor da receita e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.










Uma resposta
Excelente texto, parabéns!
Além de tudo, trouxe-me excelentes lembranças, pois também tive a honra de conhecer este simpático senhor, que impressionava pela firmeza de suas convicções, a contrastar vivamente com seu físico já debilitado pelo passar dos anos. Deus o há de ter em bom lugar, tenho certeza!