BLOG DO GUSMÃO

LUZ SOBRE A CRÔNICA

gustavo-felicissimoPor Gustavo Felicíssimo 

Domingou, como diz um poema de Daniela Galdino. E após uma semana intensa, de muito trabalho e alguns percalços, me dedico a colocar a leitura em dia, a começar pelos meus cronistas preferidos. Nada melhor, então, que estar acomodado à sombra de uma imensa e bela amendoeira. Em uma das mãos, jornais de sábado e domingo, na outra, um livro com as saborosas crônicas de Antônio Lopes, a respeito do qual arrisco tecer alguns comentários adiante.

Por ter sobrevivido e ganho o status de gênero literário graças às páginas dos jornais, a crônica sempre pareceu fadada ao efêmero, é o que tantos afirmaram durante muito tempo. Cantilena que vem se repetindo até os dias de hoje. Mas pelo simples motivo de sobreviver sempre se colocando a serviço do estabelecimento da dimensão das coisas, dos fatos e do humano, verificamos que a sua presença entre nós pode ser maior até mesmo que a do próprio jornal em que fora publicada originalmente.

Aliás, muitas crônicas sobrevivem nos livros com mais vigor, inclusive com maior universalidade, que grandes romances, poemas ou dramaturgias. Bom exemplo é o infindo Rubem Braga. Mas não apenas ele. As de Antônio Lopes, a quem Marcos Santarrita inclui de maneira justíssima no rol dos grandes cultores do gênero no Brasil, apenas tem chegado aos leitores de hoje por conta da reunião em livros. Mas não apenas por isso, senão porque, sobretudo, andam mudando e ampliando os meios em que se veiculam e a que se vincula a literatura.

Mas não é porque se encontram publicadas em livros que as crônicas de Lopes permanecem entre nós. Isso ocorre, sobretudo, por conta do frescor de uma escrita que se aproxima com o que há de mais simples no modo de ser do nosso tempo, pois é quando carrega no aspecto aparentemente despreocupado, como quem escreve sem maior consequência, muito embora com mergulhos profundos na memória e no significado dos atos e sentimentos humanos, que seus escritos saltam da página.

Bom exemplo para o que afirmamos anteriormente é “Flamengo joga amanhã”, em que a pretexto de ressaltar alguns aspectos do futebol no sul da Bahia, o autor prega a recuperação das praças esportivas da região como uma maneira de devolver à população a autoestima perdida para as pragas do cacau. Justificando que melhor que correr atrás do prejuízo é correr atrás da bola, e que, dando bicudas na bola, quem sabe damos também uma bicuda na corrupção, na rapinagem, na impunidade, na incompetência e mau-caratismo. Esta é uma boa maneira de evidenciar como os cronistas, através de uma ilusória conversa mole, dizem coisas sérias e comprometidas.

Eu já disse em outro texto, mas não custa reforçar, que muito embora a crônica seja um gênero híbrido, aberto a todo tipo de comentário, podendo abarcar do memorialismo às considerações filosóficas, é o aspecto ficcional (que aproxima a crônica de verdadeiros contos) que lhe dá a qualidade artística digna dos grandes mestres. E nisso Antônio Lopes é estupendo, como demonstra em “Traíra metida a robalo”, um caso (ou seria causo?) típico de pescador, em que expõe as peripécias do narrador numa ferrenha queda de braço com uma traíra da qual, fora rabo, cabeça e a porção que foi parar na mesa de jantar, restara ainda pra lá de cinco quilos.

Um caso a parte na obra de Antônio Lopes são os títulos que dá às suas crônicas. E para quem não sabe dou um aviso: nomear uma obra literária é a parte mais inglória do ato de escrever, afinal, o título deve, em poucas palavras, iluminar, mas não descortinar o texto, deve ser como toda mulher elegante, que de seu corpo mostra apenas e tão somente o suficiente para seduzir. Aprecie, caro leitor, uma breve amostra: “Quando eu me chamei saudade”, “Joãozinho calça frouxa”, “De fifó em punho”, “A farinha é nossa”. E lá vai. Tudo isso reunido em um livro com um título mais saboroso ainda: “Luz sobre a memória”.

Parafraseando o título da obra aqui comentada, podemos afirmar que a crônica de Antônio Lopes é uma luz sobre a crônica, como é a prosa de Osório Alves de Castro para o romance ou os versos de Adelmo Oliveira para a poesia, pois é enorme em sua leveza e encantamento, fruto dos vividos, sucedidos, ouvidos, inventados, achados e perdidos nas reminiscências do escritor.

Gustavo Felicíssimo é editor da Mondrongo Livros e escritor. 

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Uma resposta

  1. Sem tirar nem pôr, Gustavo Felicíssimo soube desenhar com perfeição os méritos do excelente cronista regional Antônio Lopes:seus textos têm algo especial que prende a atenção e interesse do leitor horas a fio. Quando o leio, muitas vezes
    me surpreendo com inesperadas, sucessivas e sonoras gargalhadas… e é nesse seu jeito simples, desprendido e divertido de contar as coisas que estão implícitas grandes verdades.

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