BLOG DO GUSMÃO

ENSAIO SOBRE A VAIA

jamal-padilha-11Por Mohammad Jamal

Tanto na história quanto na biologia; antropologia ou sociologia das antigas populações humanas, jamais me deparei com um estudo que me desse suficiente convencimento sobre a origem da vaia; já que os porquês e impulsos motivacionais que as desencadeiam são facilmente perceptíveis. São nessas ocasiões em que o homem uiva como um lobo faminto; às vezes zurra como um asno no cio. Noutras, vocifera vocalizações ininteligíveis através uma espécie de canto gregoriano diatônico, o que se supõe serem palavras insultuosas contra situações ou pessoas. Como se alguma coisa muito ligada à sua ancestralidade biológica, profundamente resguardada, fosse, de repente, despertada do seu repouso e passividade, transformando-a em uma erupção vulcânica incontrolável, expelindo torrencialmente a sua lava incandescente sob a forma de fragorosa vaia.

Claro que nem todas as vaias remetem um sentimento de repúdio violento na forma gutural de um longo grito, quase uivado. Há vaias e vaias; vaias pelo cântico desafinado; pelo baixo desempenho do stand up de humor que não produziu risos na plateia; Vaias ao atleta de futebol; ao juiz; vaias a oradores ruins; vaias a mentirosos; aos políticos; à polícia, quando exagera na força; vaias aos ridículos; aos sínicos; aos palhaços; aos mensaleiros; vaias aos ladrões, vaias à fome e ao abandono… A vaia é uma linguagem coletiva quase universal; isso porque em alguns poucos países ela inexiste por cultura e/ou regras sociais. Nesses países pré-existem derivações formais que substituem a vaia por linguagens corporais discretas, que dissimulam o repúdio com algum eufemismo e mordaz cordialidade compatíveis com as normas vigentes. Claro, impelidos pelo temor das pesadas represálias do sistema e as consequências advindas das leis que regulam as condutas do indivíduo e das populações como um todo. Nesses casos, “é miocala”! Como acontece em alguns feudos políticos isolados nos distantes sertões brasileiros: no Cariri; de Serra Talhada; Exu; Simão Dias; Taboquinhas… Onde até o peidar dá em bronca feia, quanto mais vaiar. Mas votar marcadinho pode! 

Lembrei-me daquele caso; quando ao amanhecer, após uma noite inteira de intenso amor e lascívia, o parceiro, nitidamente ressentido, reclama: “_ Se você não gostou; tudo bem. Mas não precisava ficar-me vaiando a noite toda!”.

Ela: “_ Não estava vaiando não, amor. É que sou asmática… Estava ótimo!”.

Quando uma bailarina clássica rodopia no ar o seu voo de sílfide e, estatela-se sobre o palco onde antes suas sapatilhas deslizavam sobrevoos como colibris; ouvem-se da plateia, em uníssono, um lamentoso e condolente “Ôhoooo” solidário e respeitoso. Da mesma forma, quando um artista no auge do seu desempenho no alto trapézio, despenca sobre o picadeiro; quando um ator, movido pela introjeção da sua personagem, em plena atuação do ápice dramático, entre lágrimas, vê escapar-lhe da memória parte do texto da cena. Na rouquidão eventual da soprano, no clímax de Turandot. 

A simbologia da vaia, ou do apupo, se assim o preferirem, está impregnada por intensa emoção do momento ou situação episódica, recorrente, persistente ou transitória. Cumulativa, como ocorre nos planos das insolubilidades e recorrências adversas; das emoções negativas; nos rejeitos dos cotidianos existenciais, mágoas e decepções; tendem a se constituírem a centelha e a munição que faz explodir em paroxismo as vaias, especialmente aquelas mais longas e contumazes. Não é incomum encontrarmos ao longo da nossa história política, personagens que entraram e saíram silenciosos da cena pública sob o peso esmagador de uma fragorosa vaia! A vaia é como o riso: contagiante. Quando alguém ri muito termina por fazer rir a todos à sua volta. Seria a osmose do riso o fator contagiante semelhante àquele que dissemina vaia ou apupo entre as multidões?

Não há mínima intenção de se colocar a política como sintoma, tampouco a vaia sob a análise psicanalítica ou sociológica, quando ela mesma situa-se como a prima dona no cerne das reações coletivas. Talvez uma reflexologia pavloviana ou, quem sabe, uma fantasia alegórica tipo Cavalo de Tróia em desagravo ao engodo e à traição perpetrados por um só contra os interesses de todos. Mas nada transcendente à consciência convicta de todos os vaiadores, de que por mais estridente e demorada que seja a vaia, ela é inócua, pois não afeta em nada à inabalável posição dos vaiados em especial, àqueles dos meios políticos, a curtos prazos. Há que se vaiar repetida e incansavelmente à exaustão ate que se apercebam mínimas erosões na imagem e queda acentuada na aprovação popular do vaiado. Mesmo assim, jamais se atingirá uma unanimidade generalizada no coletivizado vaiador por mais insatisfeitos que estejam todos. É que alguns não resistem a um pardalzinho gelado e empacotado desde o abatedouro!

Judas teria sido vaiado por 2013 anos por ter vendido a Cristo! Nero também, pois ensandecido, queimou Roma; Benito Mussolini e Clara Petacci teriam sido vaiados ao invés de enforcados? A vaia é o contraponto maior no imaginário coletivo, o tal senso comum, irritado. A possibilidade do livre arbítrio, o suposto direito de decidir o que convêm e o que nos é adverso em alguns campos da sociopolítica onde se congregam interesses maiores de uma coletividade. Alguns niilistas desprovidos da verdade moral e avessos às hierarquias de valores, dizem que só os importantes nos palcos da vida estão sujeitos às vaias. Elas são o que diferenciam o medíocre dos célebres. Ninguém se dá ao trabalho de vaiar um simplório casmurro! Sei não! 

Não podemos negar quão constrangedoras foram as delongadas e repetidas vaias de ontem durante Audiência Pública, pró-porto e complexo intermodal diante os representantes da Bamin; Ministério Público; políticos de Ilhéus e Sul da Bahia, representantes da sociedade civil organizada e o povão. Foi difícil senão impossível para o prefeito, matar no peito, amortecer, controlar no pé e passar adiante esse petardo em forma de bola de vaia. Ao vivo e a cores a imprensa presente mostrou à Bahia, quando deveria reservar-se a Ilhéus, todo o desgaste político porque passa o governo Jabes. Os espantosos índices de rejeição e desaprovação batendo os recordes históricos como indicam as vaias. Um constrangimento muito grande, não obstante o autocontrole demonstrado e os beijos fluidos que assoprou sem graça para a plateia, seus desafetos, quiçá ex-eleitores. Alguns analistas até arriscaram ante os fatos, palpites de que o governo Jabes dê uma guinada rumo a uma reforma no seu secretariado, embora sabidamente reconhecido como expert na seleção e recrutamento de secretários incompetentes, pedantes, presunçosamente superiores e distantes do povo; uma elite! E quanto à administração do município, humanizando-a e trabalhando para a conveniência e bem estar da população; mas muitos ariscam que tudo vai permanecer como está, sob o mesmo modelo de gestão implantado há 12 meses, desde sua posse… Seguido pelo imenso coral dos Eleitores entoando A Vaia do Arrependimento, na batida do allegro ma non presto.

Traze, ao pisar a cena, a parte bem sabida;
Seja-te, a cada frase, a memória fiel;
À face dá a expressão na rubrica exigida,
De algoz, histrião, galã, pai nobre ou menestrel.

E a plateia verás palpitar comovida;
Turbas ocorrerão a acalmar-te, em tropel.
Porque, artista perfeito, à ficção desta vida,
Ator, representaste, a rigor, teu papel.

Mas se, com a própria face e espontânea atitude,
Disseres o que à mente e o que aos lábios te vêm
Sem mudança na voz, sem que o teu gosto mude,

Só colherás o apupo e o riso de desdém.
Pois no palco mais vale o que melhor ilude.
E na vida… Ora, a vida é um teatro também. ( Bastos Tigre, 1882 – 1957).

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