Por José Henrique Abobreira
Na semana da Pátria tomei conhecimento de uma reunião que houve no Rio de Janeiro para avaliação dos avanços obtidos pelo COMITÊ DAS ENTIDADES DE COMBATE À FOME E PELA VIDA, cuja campanha, lançada pelo sociólogo Herbert Souza, o Betinho, com o título AÇÃO DA CIDADANIA CONTRA A FOME E A MISÉRIA, completa exatos 20 anos de existência.
Aqui em Ilhéus, na época que exercia o mandato de vereador, voltado para defender as causas maiores do povo, mas, sem perder de vista a política e os movimentos a nível nacionais nos quais eu pudesse inserir a municipalidade nesse roteiro nacional. Foi assim com o PRODETUR, programa lançado no final do governo Itamar Franco, destinado a dotar as cidades turísticas do litoral nordestino de infraestrutura, saneamento básico, revitalização de áreas urbanas e sítios históricos.
Por dentro do mandato convidei os prefeitos das cidades litorâneas do sul da Bahia, Valença, Cairu, Ituberá, Maraú, Camamu, Itacaré, Ilhéus, Canavieiras, Belmonte, Porto Seguro, Prado, Alcobaça e Caravelas e realizamos uma grande sessão especial na Câmara de Vereadores, com a presença da maioria desses prefeitos, trazendo o Superintendente Regional do Banco do Nordeste para a Bahia, Sergipe e Norte de Minas, para explicar aos prefeitos os mecanismos para captação de recursos para projetos turísticos. O BNB seria o repassador.
É claro que o governante estadual de plantão não gostou dessa antecipação de ações capitaneadas por um parlamentar da oposição e demonstrou surpresa quando os prefeitos unificaram os discursos, após saberem do tema na sessão da Câmara, e foram em bloco ao governo estadual. Dessa ação concatenada dos prefeitos brotaram as rodovias Ilhéus-Itacaré, Porto Seguro-Belmonte, requalificação dos monumentos de Cairu, a rodovia Itacaré-Camamu e a restauração do portal do balneário de Morro de São Paulo, com a requalificação de toda a vila.
Voltemos ao Betinho e sua campanha contra a fome e a miséria, embrião de todos os programas de combate à fome e complementação de renda dos mais necessitados no Brasil.
Convidei representantes da sociedade civil, dos movimentos sociais, políticos, autoridades, o Bispo Dom Tepe, CUT, SINDICACAU e, juntos, promovemos uma grande reunião e o lançamento do COMITÊ MUNICIPAL DE AÇÃO DA CIDADANIA CONTRA A FOME E A MISÉRIA, PELA VIDA. Nesse encontro traçamos metas, ações e eventos para a arrecadação de alimentos que seriam distribuídos nas creches e entidades, principalmente nos bairros periféricos de Ilhéus.
De imediato, o empresário Getúlio Carvalho, muito ligado aos movimentos da Igreja Católica, se ofereceu para ajudar o movimento e, como ele estava patrocinando um show de Renato Aragão e os TRAPALHÕES no estádio Mário Pessoa, nos convidou para incorporarmos o Comitê recém fundado ao show, mediante o anúncio na publicidade da TV, conclamando aos que comparecessem ao espetáculo a levar 1 kg de alimento ao estádio. Getúlio conseguiu fitas de vídeo com os filmes dos Trapalhões com a produção do show que seriam sorteadas ao público em pleno estádio, enquanto eu consegui a doação de uma bicicleta para também ser sorteada com os frequentadores que assistiriam aos TRAPALHÕES. E aí entraram em cena os trapalhões do poder público.
Por eu ser um vereador combativo da bancada de oposição ao governo local, a turma da municipalidade resolveu melar a arrecadação de alimentos para os pobres, nos portões do estádio, e partiu a ordem de um determinado gabinete de uma secretaria da área social para barrar a coleta dos alimentos. Ora, vejam só, como se um estádio municipal fosse propriedade privada e num gesto temerário de impedir que ajudássemos a minorar a fome dos mais desvalidos pela sorte.
AÍ SE FORMOU O QUIPROQUÓ, anúncio já veiculado na TV “VÁ AO SHOW DOS TRAPALÕS E DOE 1 kg DE ALIMENTO PARA COMBATER A FOME” e os prepostos municipais já se posicionando para impedir a doação de alimento contra a fome.
Numa reunião emergencial, na executiva municipal do PT, fomos escalados,junto com Nelson Simões, para visitarmos o Bispo Dom Valfredo Tepe. Informamos o problema ao bispo e pedimos uma mediação junto à Prefeitura, já que era uma autoridade religiosa isenta de partidarismos. Com isso, viabilizarmos a arrecadação dos alimentos para os pobres. Dom Tepe, sensibilizado pela situação absurda, entrou em contato com as freiras religiosas do N. S. da Vitória e Vilela e elas se postaram à frente dos portões do estádio e conseguiram ainda viabilizar um terço dos alimentos. Se não fosse essa interferência descabida da equipe do governo, a coleta seria bem mais ampla. E mais uma vez o amigo Getúlio salvou a lavoura colocando um caminhão baú do supermercado de sua propriedade para levar os alimentos nas creches. A mim, como parlamentar idealizador da proposta melada pelas autoridades, só restou a indignação de denunciar os fatos da tribuna da Câmara e nas rádios ilheenses. DEPOISDE TUDO ISSO AINDA TIVE QUE RESPONDER A UM PROCESSO NA JUSTIÇA MOVIDO PELA AUTORIDADE INSENSÍVEL
PS-pelo relato acima justifico título da matéria, enquanto na terra dos coronéis enfrentava todas essas dificuldades no exercício do mandato popular eletivo, em Brasília participava de audiências com ministros de Estado e no gabinete do Presidente da República Itamar Franco. E dizia na gozação para a turma daqui: “enquanto na cidade não me recebem nem para uma simples audiência com o Sr. Prefeito, em Brasília me atrasei para uma audiência com Itamar, na companhia dos deputados Fernando Gabeira, Haroldo Lima, Jabes Ribeiro, a senadora Marina Silva e diversas lideranças da Comissão Nacional Tortura Nunca Mais. Ao me desgarrar da comitiva, cheguei na guarita de segurança do Palácio do Planalto, apresentei a carteirinha de vereador(olha aí a famosa carteirada, risos) ao chefe da guarda. Ele usou o radiocomunicador para chamar um ordenança do gabinete de Itamar Franco e ordenou: “desça e venha acompanhar o vereador baiano Abobreira até a sala do presidente Itamar,ele participará dessa audiência também…”!
Fui conduzido gentilmente ao elevador e adentrei vitorioso no gabinete presidencial, enquanto por aqui…
José Henrique Abobreira é auditor-fiscal da receita estadual, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Ilhéus.








