
Por José Henrique Abobreira
O bravo caboclo Zé do Gancho, caseiro do sítio situado logo atrás da praça da Igreja N. S. das Escadas, percebeu um barulho de vozes e o baque de frutas, jacas e abius, estalando no chão. Ele sabia quem eram os invasores, pois tinha visto a chegada do caminhão de Moacir à tardinha da sexta-feira, na véspera, carregada de estudantes que ali moravam, estudavam fora e só voltavam nos finais de semana. Também trazia meninos parentes (entre eles um primo chamado Zé Henrique, dado a incursões nos sítios e chácaras olivencianas) e amigos convidados para a farra das frutas nos quintais alheios.
O nosso Zé do Gancho, já escaldado de sofrer essas visitas indesejáveis em busca das frutas do sítio em que trabalhava, tinha montado uma vigília desde o momento em que vira essa turma desembarcando do caminhão.
De imediato pegou um porrete, colocou o facão na cintura e se dirigiu de fininho ao local do bosque de onde provinha aquele estrépito de vozes e som de frutas sendo arrancadas. E o flagrante. Os invasores, sob o pé de abiu aparando as frutas, ao avistarem o temível caseiro, abriram na carreira (já existia uma via de fuga previamente organizada – duas ou três estacas devidamente folgadas na sua fundação na terra: era só empurra-las e mergulhar para o quintal vizinho do pai do amigo Sírio, apelido de Siri, e tio do hoje cacique Cláudio Tupinambá Magalhães).
Um recalcitrante não conseguiu fugir, se encontrava no topo do pé de abiu a balançar as galhas e nós embaixo a apanharmos as frutas. Não teve tempo. Zé do Gancho, se deliciando a lamber os beiços de satisfação e regozijo, ao pé da árvore, falou: “eu não disse que lhe apanhava um dia roubando as minhas frutas, seu moleque?! Agora se prepare, pois vou quebrar esse porrete em suas pernas, pode ir descendo, seu ladrãozinho!”.
Assistíamos à cena já do outro lado da cerca. Tínhamos que ter uma atitude solidária com o colega que estava nesse infortúnio, ou o pau ia cantar na sua moleira. Começamos a atirar paus e pequenas pedras na direção de Zé do Gancho. Ele, ao tentar se esquivar, se afastou da árvore e abriu a guarda. Baié aproveitou o cochilo do caseiro, desceu rapidamente e correu na direção das estacas da via de fuga.
Depois do ocorrido demos muitas risadas lembrando a cena. O caseiro correndo atrás brandindo o porrete e dizendo: “se eu lhe pegar quebro as suas duas pernas seu moleque”.
Essa era a Olivença dos anos 60 do século XX, quando ainda garotos, vivíamos verdadeiras aventuras dentro da natureza exuberante das matas, rios e praias. Com badoque pendurado no pescoço à cata de passarinhos e apurando mira nos calangos que corriam nas trilhas de areia das roças (ainda não existia o pensamento de preservação, politicamente correto).
Éramos crianças livres, soltas, nos babas da praia do Batuba, nas carreiras debaixo de chuva entre Olivença, Jahiry e Acuipe, na pesca de siri (a algazarra quando no jereré apanhávamos um siri-boceta, aí era uma verdadeira anarquia). Várias denominações e apelidos: Requê, Jabá, Nego, Virgílio Pé Duro, Cesar Capricho, Dedéu, Siri, os irmãos Claudio e Elvio, Djalma, Zequinha, Ratinho e Tonhão.
Baié era o nosso símbolo, era quem encarnava esse espírito da vida aventureira junto à natureza, na mata a pegar papa-capim, curiós e canários, no preparo dos alçapões e armadilhas para pegar passarinhos ou no tiro certeiro de badoque – pegava um beija-flor voando -, nos mapeamentos dos sítios e respectivas épocas da safra de frutas. Um dia caiu de um pé de araticum e teve a perna dilacerada por uma ponta de estaca.
Finalizávamos todas as aventuras com o ritual diário à tardinha: correr picula nas águas escuras do Tororomba. Ali, garoto, aprendi a nadar.
A apanha das frutas (eufemismo para não dizer furto mesmo – risos) obedecia à sazonalidade de cada espécie vegetal. Tempos de caju, de araticum, de jenipapo, de manga-rosa, sapota, pitanga, tapiá e etc. Também obedecíamos à organização das visitas por setor: sítio de Pedro Ferreira, de Zé Leal, de Dr. Iolando, de Zé do Gancho, de seu Gregório (na praia depois do Cai N’água) e de Alício (este era o mais vulnerável na “apanha” das frutas, pois era compadre de tio Moacir. Ao nos avistar e reconhecer, ficava com vergonha de nos reprimir. De longe, gritava gaguejando: “se-se-se-se eu pe-pe-gar um corno de-de-desses eu-eu dou um ti-tiro de espingarda com-com sal”).
Quase encerrando esse artigo quero relembrar a figura de titio Moacir Bezerra. Homem grandão, de pouco falar, quase taciturno, mas doce, carinhoso e cuidadoso com os filhos e sobrinhos. Era o nosso herói. Proprietário de um Ford Bigode ou BD Ford (como chamávamos à época), fazia a linha Pontal-Olivença transportando pessoas e cargas. Era a nossa alegria, do alto da carroceria, em cima de fardos de piaçava e farinha de mandioca, sentir no rosto o vento forte na viagem, que era feita alternando trechos de estrada de chão e pista mais macia do que asfalto (na praia) quando a maré estava baixa.
PS.: Hoje, meio século após essas aventuras, somos pessoas maduras, ocupando altos cargos de responsabilidade na sociedade, pastor, juiz de direito aposentado, auditor fiscal, dirigentes partidários, liderança indígena, empresários e etc, mas, garanto, daríamos tudo de nossas vidas para vivermos novamente aqueles momentos mágicos de nossas infâncias.
José Henrique Abobreira é auditor da receita estadual e articulista do Blog do Gusmão. Foi vereador e vice-prefeito de Ilhéus.










Respostas de 4
O sítio era de Tico Castro. Zé do Gancho vive! As estripulias eram as mesmas para nós. Os tapiás pegávamos Em Wilson Leal que hoje é o Jubiabá. Saudades!!!
Olivença lugar lindo… onde nasci e me criei e é o lugar de onde não quero sair!!! Lugar onde ouvi muitas istórias de meus bisavós e meu avós que nos contavam com tanta alegria e satisfação de ter vivido aquele momento de suas vidas.
Olivença é um encanto de lugar que ainda preserva as belezas naturais. Nasci e me criei aqui e não pretendo deixar este lugar que me faz tão feliz, pena que esteja tão esquecido pelo poder público. Seu \zé do Gancho ainda existe mas morando em outro lugar. Também vivi essa emoção de sair correndo com a chegada dele pois não deixavamos em paz os pés de cacau que ele tomava conta. Recordar é viver.
Realmente era uma alegria e essa estaca por tempo ficou a frochada , seu Zé do Gancho fincava mais nao adiantava, oh tempo bom isso fui e ficou ate minha geração, hoje so resta de Olivença as belezas naturais e as histórias essa niguem tira nem mesmo o tempo amo conta para meu filho as aventuras vividas nesse paraíso.