
A doutora Luana Rosário, advogada e professora da UESC, usou seu perfil no Facebook para denunciar o ato de abuso sexual de que foi vítima na madrugada do último dia 9, quando viajava de Salvador para Itabuna num ônibus da Águia Branca.
Luana conta que acordou assustada por volta das 3h. A mão do “senhor da poltrona ao lado” estava dentro da sua blusa, “entre a cintura e o cóis da calça”. “Atônita”, se levantou e foi para o banheiro do ônibus.
No texto abaixo, Luana narra com detalhes os momentos de angústia que viveu e as dificuldades que enfrentou para registrar a ocorrência. O Movimento Mulheres em Luta divulgou uma nota sobre o episódio (leia após o depoimento da professora).
O meu presente de dia internacional da mulher: um abusador no ônibus
Por Luana Rosário/Facebook
Eu, advogada e professora universitária, embarquei na noite de 8 de março no Ônibus da Àguia Branca, em Salvador, com destino à Itabuna. Antes da partida, com as instruções de praxe, acerca de uso de cinto de segurança e tempo estimado de viagem, o motorista desejou a todas as mulheres presentes um Feliz Da Internacional da Mulher. Pedi a Deus uma boa viagem e dormi. Por volta das 3:00h da manhã acordei assustada com a mão do senhor da poltrona ao lado por dentro da minha blusa entre a cintura e cóis da calça. Atônita, perplexa, com raiva, ultrajada, retirei aquela mão e acendi a luz de leitura de minha poltrona. Olhei para os lados, o ônibus estava todo escuro, as pessoas dormiam. E agora? Faço um escândalo? Acordo todo mundo? Só consegui pensar que não poderia mais ficar ao lado daquele homem. Mandei que se levantasse para que eu fosse ao banheiro. Não ia passar na frente dele sem que se ele se levantasse da poltrona de jeito nenhum! Fugi para o banheiro! Dentro do banheiro, sozinha, repeti várias vezes, pensa, pensa! Só pensava que não podia voltar para a minha poltrona! Fui até a cabine do motorista e bati na porta feito uma louca. Quando ele abriu, eu disse: – Motorista, preciso de outra poltrona porque o senhor ao meu lado passou a mão em mim. Além disso, quero registrar uma ocorrência. Pensei em quantas mulheres passaram e passam por isso e achei que, com a minha formação, era meu dever não ser mais uma a me calar. Virei-me para todo ônibus e contei a todos os passageiros o ocorrido. Pedi ao motorista que acendesse as luzes do veículo. Nunca me senti tão vulnerável. Durante todo o tempo, desde o momento em que um estranho tocou em meu corpo sem minha autorização, durante a exposição a que me submeti com a minha fala e com tudo o que seguiu adiante. Quando o motorista parou no posto da PRF de Gandu e esse disse que naquela cidade não tinha plantão da polícia civil e que teríamos que ir até Itabuna, quando esse mesmo agente me perguntou se algo na minha bolsa tinha sido roubado (ao que eu respondi: ele passou a mão em mim! Isso é pouco?), quando o motorista, ainda que bem intencionado pediu que eu ligasse para algum conhecido em Itabuna, para que esse conhecido providenciasse qua a PM fosse até a rodoviária pois ele não conhecia bem a cidade e não conseguiria chegar à delegacia da polícia civil, o que eu fiz, sem não antes ressaltar que a empresa não poderia se eximir de sua responsabilidade. Tendo voltado ao ônibus chorei muito pelos km que ainda faltavam. Quando, tendo o ônibus parado em frente a um módulo policial defronte à rodoviária, enquanto o motorista desceu para narrar o ocorrido ao policial militar, fiquei sozinha e sem apoio; quando o primeiro passageiro desembarcou sem cerimônia; quando, o PM, ao subir para comunicar que todos seguiriam para a delegacia, vários passageiros se opuseram; quando faltou argumentação sensível do policial militar em face dessa recusa; quando, tendo chegado à delegacia da polícia civil, com ônibus e cerca de 12 testemunhas que permaneceram não havia delegado plantonista; quando houve a primeira alegação feita pelos agentes da incompetência pela territorialidade, comentários vagos sobre ausência de testemunha ocular do fato ou ausência de prova material do delito ou incapacidade de se fazer perícia. Diante da pressão feita pelas testemunhas presentes, a quem sou infinitamente grata, e da minha advogada para quem liguei às 03:30 da manhã, colega professora universitária, foram ouvidos o agressor, a mim e ao motorista e todas as testemunhas dispensadas. Além da violência do abuso, eu tive que lidar com uma série de violências sucessivas decorrentes do despreparo dos agentes de Estado para lidar com a violência contra a mulher. Foi muito difícil. Assim como está sendo difícil escrever esse texto. Mas preciso fazer isso, pois, é o que eu ensino em sala de aula. Mulheres, não é normal que um homem toque em seu corpo sem o seu consentimento! Falem e busquem apoio!
Nota do Movimento Mulheres em Luta.
Todos os dias mulheres são vítimas de violência nos transportes públicos. Este é mais um resultado da ideologia machista, que difunde das mais diversas formas a ideia de que o corpo da mulher é público e suscetível aos “anseios” viris do homem. No dia 8 de Março, ultimo, Luana Rosário foi uma das vítimas deste processo.
Durante a madrugada, no trajeto de Salvador para Itabuna, Luana acordou assustada com a mão de um desconhecido por baixo da blusa, próximo ao cós de sua calça. Não bastasse a violência e o constrangimento de o violentador tentar desacreditá-la enquanto fazia a denúncia ao motorista e aos demais passageiros, Luana também foi vítima do descaso do Estado com o combate ao machismo.
Luana foi vítima da falta de políticas públicas para a prevenção e combate desta forma de violência machista nos terminais rodoviários. Foi vítima do funcionamento limitado das Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM), aberta apenas de segunda a sexta nos horários comerciais. Vítima do despreparo da delegacia comum, composta majoritariamente por homens, quase sempre coniventes com a lógica machista e patriarcal que impera em nossa sociedade.
Doutora em direito e militante das causas sociais, Luana buscou justiça para si, mas também tornou pública sua indignação, dando voz a mulheres muitas vezes silenciadas pelo medo, vergonha ou, até mesmo, falta de informação.
Nós do Movimento Mulheres em Luta (MML) nos solidarizamos com Luana e com todas as mulheres vítimas de violência nos transportes públicos, e convidamos a todas e todos a transformar a dor e indignação em luta.
Nesta segunda-feira (23), estaremos reunidas com o Conselho de Mulheres de Itabuna, movimentos feministas, sociais e populares para fortalecer a luta pelo fim da violência contra a mulher. A reunião ocorrerá a partir das 14hs, na “Casa dos Conselhos de Itabuna”, no Bairro Pontalzinho, e você também é nossa/o convidada/o(confirmar endereço).
– Por um transporte verdadeiramente público e de qualidade, fim da superlotação e com horários fixos;
– Por Leis Estadual e Municipais que garantam campanhas para prevenção e o combate a violência contra a mulher nos transportes públicos;
– Por 1% do PIB para o combate a violência contra a Mulher (conheça nossa campanha no site ).











Respostas de 21
Muito bom Prof Luanda.
Também como mulher e professora dessa instituição me solidarizo com você e pela luta contra a impunidade que a nossa sociedade machista impõe a nós mulheres.
Tive oportunidade de trabalhar na delegacia da mulher, em Ilhéus e a queixa das mulheres sobre o descaso nas delegacias e dos agentes policiais, são as mesmas suas,independente de classe social ou nível de instrução. Nossa realidade é essa, triste!
Também já fui vítima de um desses “tarados de ônibus” nessa mesma empresa e o motorista não sabia como agir. Fiz uma reclamacao e nunca recebi resposta. Fui testemunha de uma outra garota no mesmo trecho em que vc cita no seu desabafo. Ela estava na poltrona em frente à minha. Ele ejaculou em cima dela e mesmo assim, os policiais de Gandula, não fizeram nada. Na delegacia em Itabuna, soube que a garota era filha de um professor, colega nosso
E aí, como ficamos?
Infelizmente Luana esse é o retrato do Brasil um país sem Lei sem pudor sem caráter os que governam que só pensam em si no seu umbigo…um país sem credito moral …tenho vergonha de morar aqui … esse seu problema é o de muitos afora…as leis só favorecem o delinquente e irresponsável… é uma vergonha…
lamentável!!!!…
Apoio firmemente sua conduta. Temos que parar de hipocrisia.
Fiquei estarrecido há algum tempo atrás quando algumas pessoas, inclusive mulheres, diziam que a culpa de estupro era da roupa que as mulheres usavam.
As pessoas precisam de urbanidade… tá difícil viver neste país.
Seria de grande valia se a foto do sujeito fosse publicada.
Sinto muito pelo vexamem e faco votos de q as sequelas ñ atrapalhem sua vida, infelizmente o desrespeito vem da ignorancia inculcada no berco e na escola
Como mulher e professora da UESC apoio a sua conduta e sei o quanto é difícil, devido a coragem e força que exige tornar pública a situação horrível, humilhante e criminosa que sofreu.
É difícil tornar pública essa situação mas é necessário e importantíssimo para que outras mulheres percebam como infelizmente essa situação de violência é presente no nosso dia dia, independente do local que frequentamos, se dançamos, se conversamos mais ou menos, de raça, classe social, grau de instrução, locais que frequentamos, roupa que usamos…mulheres sofrem violência de todos os tipos pelo simples motivo de vivermos numa sociedade onde predomina a crença de que somos corpos vulneráveis…
A mídia mostra e afirma isso todo dia…
Veja o absurdo da situação que você viveu, não temos o direito de sermos livres, de ir e vir com segurança numa simples viagem de ônibus…
Precisamos levar a discussão sobre a violência contra a mulher para todas as esferas das nossas vidas: públicas e privadas.
Debater e denunciar a publicidade abusiva que nos coloca como “pedaços de carne” num grande açougue, criar e fortalecer as redes de sororidade – apoio mútuo entre as mulheres para que possamos denunciar, debater e buscar soluções conjuntas para o enfrentamento da violência.
Solidariedade e força para você nesse momento.
Um crime desses só pode ser combatido com a instalação de câmeras nos veículos.
A falta desses equipamentos demonstra a culpa da empresa.
Parabéns. eu não teria essa coragem, sobretudo de segurar os passageiros, “incomodar”. Mas é o que deve ser feito.
Nesta situação constrangedora, sairei em defesa dos agentes das polícias citadas. Esta é uma situação muito difícil de ser resolvida. Bem, a PM trabalha com flagrante de delito e para tal deve-se ter uma vítima, autor, corpo de delito (produto do crime) e testemunha. O fator de uma pessoa acusar outra isso não implica em prisão em flagrante, pois não há prova ou sequer testemunha ocular do fato. É a sua palavra contra a do suposto autor. Como os policiais saberão quem estar falando a verdade? Cabe uma minuciosa investigação, qual será difícil de levar o acusado a condenação, sem prova cabal ou testemunha ocular. Os policiais agiram, dentro da ética, legalidade, profissionalismo e imparcialidade. Outro fator que minimiza a situação da suposto autor é o fato da professora estar dormindo e o ônibus estar totalmente em escuridão. O acusado poderia alegar que ela teve apenas uma sensação de que ele passou a mão nela e como ela poderia provar que não foi isso? O foto é que, ela não provando, o que fatalmente vai ocorrer, pode ser gerado um processo contra ela por danos morais. E de quem é a culpa, é dos policiais, é da suposta vítima ou do acusado? A culpa é de quem faz as leis que protegem criminosos, não que esse seja o caso deste acusado. Falo de modo generalizado.
Nossa como fico triste com esse tipo de conduta de alguns que se dizem homem. Esqueceram que mulher não é pra ser violentada e sim conquistada, protegida, amada, acariciada etc. Ainda estão nos costumes primitivos deixando a gentileza e o respeito de lado. Como Homem repudio esse ato e parabenizo a Dra e Prof. Pelo seu ato de coragem e de intrepidez na busca pela sua defesa e denúncia desse delinquente e abestalhado que acha que pode tudo só pq é mulher e vulneravel. Todo apoio a vcs na repressão desses doentes. Avancem! E só lembrando que um desses se deu mau com uma amiga minha de academia. Um mané como esse pensou que a mulher era tão vulneravel quanto achava e o tal tentou apalpar um de seus seios, mas ele se deu mau com s lutadora de jiu-jitsu e foi imobilizado e apanhou um pouco. Acredito que ele irá pensar antes de tentar um ato desse com alguma gata. Gostaria que a Prof. Fizesse o mesmo acrescentando ainda a delegacia, É por isso que incentivo as minhas amigas a aprenderem a se defender fica muito mais fácil em situações como essa. Fica a dica . Abraços.
Parabéns a Luana pela coragem… a denuncia deve acontecer sempre…. Ao querido Diego Alves, ninguém está culpabilizando os Policiais! No entanto é sensato reconhecer que os nosso policiais não são preparados para atuarem nessa situação. Fora que o militarismo, a doutrina onde ocorre a formação desses policias é baseada em um forte marchismo! Digo isso, com conhecimento de causa, pois fui vítima de tentativa de estupro dentro da minha própria casa. A minha primeira reação foi realizar a denúncia e dar início ao processo, mas nossa justiça está tão internalizada o machismo que menospreza a violência contra mulher.E em nenhum momento desde o dia do ocorrido, o atendimento na DEAM e as outras etapas, tive a assistência que realmente necessitava!! Tentei seguir com o processo, mas toda vez que tinha audiência eu tinha que contar todo o ocorrido e a sensação era que eu estava vivendo novamente, o que me causava muita dor e sofrimento, além do sofrimento de toda a minha família. E diante de todo esse sofrimento…Sabe o que a justiça fez? Nada! Até chegar a um ponto, em que eu desistir do processo e decidir seguir a minha vida! Hj sou uma mulher muito mais forte, cada vez que eu vejo que os anos passam e nada muda, isso me intristesse! Pq as primeiras a começarem com esse pensamento machistas somos nós mulheres, que justificam um caso de estupro pelo fato da mulher está com uma roupa curta ou mais provocante!! Acorda mulherada, a mudança começa dentro de nós!! Enfim, isso foi só um desabafo!!!
Fico aqui pensando, se fosse comigo que sempre viajo para Salvador nestes ônibus, o que faria numa situação desta,e sobe uma raiva de um traste desde que não respeita as mulheres, com certeza iria era dar era um muro bem dado na cara dele antes de sair da cadeira, desse no que desse…do mesmo jeito que a mão passada ninguém tira, o muro dado não seria retirado e problema dele.
Sim !! Devemos sempre estar preparados para bater de frente contra esse ato vergonhoso ao que somos (ainda) obrigados a vivenciar e testemunhar. Reunamo-nos pois contra este ato de agressão. Somos seres humanos e independente de classe social e condição financeira, devemos ser respeitados. Não à conivência com o crime !! Eficiência, respeito e garantia ao exercício de verdadeiros direitos ao cidadão !!
A professora devia ter medito a mão na boca dele comer lavagem, quebrado uma meia dúzia de dentes, ai aparecia um Delegado para registrar a queixa.
Melck Kalif
Oi Luana.
Quando era estudante universitária, saia daqui de Ilhéus quase toda semana para salvador. Numa dessas viagens aconteceu algo parecido comigo, só que um pouco mais constrangedor. Eu sempre dormia e de madrugada senti algo tocando em mim de forma repetida, foi quando percebi que o senhor que estava do meu lado estava se masturbando e fazia questão de tocar em mim. Mas ao seu lado também estava uma arma.Eu fingia que dormia com medo dele colocar a arma em mim e pedir para fazer algo.Foram horas de terror. Realmente não sabia o que fazer, só pedia a Deus que não deixasse este homem fazer nada comigo.Só tive paz quando chegamos em salvador, mas não tive ação para fazer nada. Ele desceu do ônibus e eu só fazia chorar (de alívio, raiva, impotência….)Foi a pior coisa que aconteceu comigo em toda minha vida.Parabéns pela coragem. Daniela
Constrangedor total!!!
Considere-se a possibilidade da divisão por sexo dentro dos ônibus…homens sentando ao lado de outros homens e mulheres ao lado de mulheres!!
Ninguem sabe quem vai ao lado…
Parabéns pela sua coragem , eu teria ainda feito muito mais , tipos como esses são animais , vá em frente não desista , conte com o apoio de nós mulheres .Uso essa empresa todo mês mas graças a Deus nada me aconteceu .
Fica minha solidariedade com a Profesora e colega Drª Luana Rosário. Parabéns pela coragem do enfrentamento, postura e tornar este fato vexatório público. Que sirva de alerta aos abusadores covardes de plantão e ao mesmo tempo sirva de incentivo às mulheres vitimas destes abusos.
Garanto que casos como estes não são poucos. Quando trabalhava no interior, meus deslocamentos eram pela ÁGUIA BRANCA. Tive o desprazer de presenciar um caso semelhante.
Na poltrona atrás da minha, tinha uma senhora e ao seu lado um rapaz. Lá pelas tantas das madrugada acordo com a reclamação da passageira com o rapaz. Já imaginando o que poderia ter acontecido, levantei de imediato. A passageira, muito nervosa, relatou o ocorrido.
Troquei de lugar com a mesma e repreendi o molestador. Esse perguntou se ela era minha mãe. Respondi que não. Caso fosse, ele iria parar em um hospital ou no necrotério.
Tive um auto controle para não agredí-lo. Em gesto continuo avisei ao motorista do ocorrido. E lamentamos não ter nenhuma delegacia de plantão no intinerário da viagem. Infelizmente já presencie outras situações deste tipo.
Até hoje lamento não ter dado VOZ DE PRISÃO a este oportunista. Ao chegarmos a Salvador, esta Senhora não teve palavras para agradecer. Disse que era minha obrigação.
Querida Luana, mais uma vez parabéns pela postura, e continue com a cabeça erguida e a consciência tranquila do dever cumprido.
Um grande ABRAÇO. Fique com DEUS.
Atenciosamente
Salvador, 27 de Março de 2015.
José Carlos Feitosa Ramos
Advogado