
Por Elisabeth Zorgetz
É interessante observar como a distância tempo-espaço-símbolo nos afasta da história de vida dos líderes que amamos ou tomamos como bastião de luta. Naturalmente, também acontece de forma ainda mais intensa com líderes autoritários e fascistas. Mas se nos determos na nossa sedução personalista dos bons líderes, a idealização é regra primeira. Se fôssemos seus militantes diretos no passado, quão conflituosa seriam as relações!
Nelson Mandela é um ícone ocidental pela capacidade de inspiração para superar a discriminação racial brutal de seu tempo. Vítima mais famosa do regime apartheid, que, apesar dos seus 27 anos de prisão, nunca procurou vingança contra os seus opressores e conduziu um processo de reconciliação histórica que transformou a África do Sul em uma democracia não-racial, em desenvolvimento, embora marcada pelas relações classistas como consequência neoliberal. Para muitos, especialmente neste nosso tempo de pessoas públicas obcecadas com questões mesquinhas, Mandela simboliza algo profundo: a disposição do indivíduo para dedicar a sua vida a uma causa grande e boa. Ele passou a simbolizar o desejo da humanidade de tomar uma posição contra a repressão e a injustiça, e criar um mundo mais livre, mais justo.
Meus amigos mais atentos à análise marxista não concordariam, e tampouco vários grupos radicais da resistência sul-africana não concordaram à época, mas Mandela impediu um banho de sangue e traçou um novo caminho moral baseado na reconciliação e compromisso. Com aqueles que pisaram no seu rosto, roubaram e mataram o seu povo. Não sei como ele pôde tomar essa decisão. Mal tenho palavras para o desenrolar dos fatos. Mandela sempre foi muito moderado, até mesmo conservador. Nascido em 1918, filho mais velho da família, preparado para a respeitabilidade, status e privilégio, Madiba, então advogado, tornou-se representante de uma emergente classe média negra educada na década de 1940. Para ser ainda mais clara, Mandela declarou que “o ANC nunca, em qualquer período de sua história defendeu uma mudança revolucionária na estrutura econômica do país, nem condenou a sociedade capitalista”. Não é o que eu mesma gostaria de saber, ao visitar os compêndios do passado, mas é a verdade. Acho que aprendi a compreender realizações importantes para a transformação do nosso mundo com a tolerância que a maioria dos militantes hoje não têm, e com uma perspectiva dos processos que garanta toda a nossa complexidade. Nesse momento posso estabelecer um paralelo de forma mais justa.
Bebeto Galvão cresceu em Ilhéus com toda a vivência que um jovem negro poderia ter no auge do cacau: amarras pouco folgadas com o passado escravista, discriminação da média e alta sociedade, baixa expectativa, exclusão dos espaços e muita luta para educar-se formalmente. Sua figura polêmica para a região ainda se reforçava pela militância no antigo PCdoB, mais aguerrido à época, e pela construção sindical. Bebeto formou-se na luta pelos trabalhadores. E foi vereador, definido como o melhor de sua época. Após a incursão no legislativo municipal, Bebeto foi repelido da região pela crise do cacau, e foi em busca de trabalho em outras cidades para salvar seus filhos da fome. Em Salvador, ergueu um sindicato elementar para o período de crescimento estrutural e investimentos na Bahia, e instrumentalizou os trabalhadores com conhecimento e luta de forma incontestável. Foi eleito deputado em 2014 pelos trabalhadores e pela esperança dos ilheenses numa votação exponencial. Também é secretário de Políticas Raciais Étnicas de sua central sindical e vice-presidente Regional da ICM para América Latina e Caribe. Enraizado até a alma na luta pelos brasileiros que brotam o verdadeiro suor do trabalho, Bebeto Galvão votou contra a abertura do processo de impeachment de um governo que já não nos representava, mas advertido pelo que viria a ser o prenúncio do presente no atual governo: o ataque a educação pública e a superexploração do trabalho, coordenados entre cartéis empresariais e a política à direita. Nunca houve decisão mais acertada.
A história de Ilhéus e das cidades do entorno é narrada de vários modos, e algumas vozes ecoam muito mais que outras. Temos as ancestrais e brutalmente atacadas populações indígenas que sempre resistem, os descendentes de negros escravizados, as famílias brancas tradicionais, os migrantes sergipanos mais e menos remediados e os imigrantes estrangeiros. Assim como a história amadiana da boêmia se eleva no imaginário em relação às histórias do povo negro e da vida nos engenhos, a memória de todo o nosso povo foi abafada e predomina a dos herdeiros, privilegiados, carregada de muito racismo, etnocentrismo, discurso de ódio e um potencial fascista. Grupos inteiros, e da mesma forma, partidos políticos, carregam o discurso discriminatório na disputa do próprio discurso histórico. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos a velha elite regional se valendo do discurso racista mais odioso contra Bebeto, revisaria a perspectiva.
Enquanto deputado, Bebeto não negou, em nenhuma ação decisória, que o povo trabalhador, do campo e da cidade, seriam suas bandeiras maiores. A consulta de toda trajetória parlamentar está disponível no portal da Câmara de Deputados, para quem deseja confirmar com honestidade de avaliação. Com o perdão das relatividades e analogias, tal como Mandela, Bebeto retorna a vida política no seio do seu povo, após uma estrada de muitas lutas, para tomar a decisão mais difícil de todas. Acatar a guerra e a sectarização imediata, num terreno de baixíssima conscientização política, inviabilizando o trabalho, ou ir em direção oposta. Sentar com seus antigos adversários, e muitas vezes, adversários de sua memória, para construir, através da coligação e do diálogo, para transformar a cidade de Ilhéus com seu primeiro prefeito negro e proletário. Enquanto os isolados e ditos independentes fortalecem a vitória de um projeto que atingiu quase a totalidade da rejeição dos ilheenses, com o vice-prefeito Cacá na cabeça de uma chapa sustentada pelas relações da máquina pública.
Recordo como se fosse ontem o primeiro dia que vi este homem, Bebeto. Enquanto a juventude, com toda prerrogativa, convulsionava em palavras de ordem sob as escadas da prefeitura, ele tentava dialogar para buscar alternativas. Me dizia: vocês precisam conversar, para avançar e ter as conquistas tão necessárias ao segmento. Naquele tempo, acredita menos ainda que fosse possível dialogar com quem nos desprezava, e tinha horror ao apaziguamento de classe. Talvez, depois que nos tornamos pais e mães, conheçamos melhor as urgências da fome, da sede, do conhecimento, de ter saúde, de viver e não permitir que os nossos e os outros filhos sucumbam. Para quem nunca pensou coletivamente, essa necessidade se torna mesquinhez e corrupção pessoal. Mas tenho a firme crença que na militância, essa etapa coloca os desafios da multiplicidade para que possamos encarar de frente, de forma táctil, e expõe cruamente todas as nossas contradições. A urgência do hoje e o valor do amanhã, que são tão latentes para o nosso povo de Ilhéus, pedem uma humanidade presente. Essa postura não será garantida derramando lágrimas de crocodilo em cada ponto da cidade. A humanidade e a diversidade só podem ser garantidas com a consciente escolha de deixar, por um momento, sua própria dor de lado e ter a coragem de buscar as alternativas para aplacar a dor de todos. Sem nunca esquecer o sangue que pulsa em suas veias e do intenso legado de luta que reservou ao seu povo, Bebeto se propôs a iniciar um processo de transformação de sua terra assentado no diálogo e no fortalecimento das responsabilidades. Madiba também o fez.
Elisabeth Zorgetz é colaboradora do Núcleo de História da Dependência Econômica na América Latina.











Respostas de 6
Aprendendo a puxa o saco em 3,2,1.!! kkkk
Você deve ser doente! Fazer uma comparação dessas é o cúmulo da ignorância!
Pô forçou a “BARRA”! Colocando Bebeto no mesmo patamar de Mandela. E pra uma historiadora escrever isso, que é pior!
Acompanho a trajetória de Bebeto desde jovem lutando no SindiCacau de Ilheus, desenvolvendo seu potencial intelectual para o Sindicalismo da classe trabalhadora, atuando em diversas partes do Brasil….
Tem todas as condições de administrar a cidade de ailheus que não possue uma liderança local há mais de duas décadas.
Walter Telles
Seguindo sua analogia o Mano Brown agora é o Malcom X e você a Hillary Clinton.
Me respeite! Respeite a inteligência do trabalhador!
Fiz esse exercício em sala de aula semana passada. Tomadas de atitudes e posturas semelhantes, em situações de vida diversas e anacronicas. Aproxima do entendimento sobre os grandes líderes e os líderes do nosso cotidiano. Parabéns pela leitura das personalidades.