Por Diego Brito
Dificilmente presenciamos momentos que ficam registrados nos anais da história. É difícil prever o que estará escrito nos livros de história daqui a 10, 20 anos. Assim como é difícil prever quais temas e debates serão travados por historiadores e pesquisadores de movimentos sociais. Será que os estudantes que encabeçaram os “caras-pintadas” tinham noção de como marcariam a história? A história é feita através de eventos marcantes, entretanto, o reconhecimento de tais episódios, muitas vezes, só ocorre anos depois. Há anos em que nada acontece, mas há semanas que parece que as estruturas se reviram e que algo vem por aí.
Sob uma ótica cíclica da história, há momentos em que estas agitações ficam mais latentes, e momentos de refluxo nessas organizações e mobilizações. Fazendo um apanhado desde o período pré-golpe em 1964, notamos naquele momento uma grande agitação por parte dos movimentos sociais. A UNE era comandada por uma junção entre a Ação Popular, mais ligada à Igreja Católica, e o partidão, o PCB, que também liderava o movimento sindical, através do Comando Geral dos Trabalhadores, a CGT, além de diversos movimentos no campo e na cidade por uma ampla mobilização popular em torno de propostas de reformas políticas e econômicas.
Toda essa mobilização culminou no grande Comício da Central do Brasil, quando o então presidente João Goulart assinou dois decretos, o primeiro desapropriando refinarias que ainda não estavam nas mãos da Petrobrás, e o segundo declarando sujeitas à desapropriação propriedades subutilizadas, a fim de implementação da Reforma Agrária, além de compromissos com as chamadas Reformas de Base, como a reforma urbana, tributária e eleitoral. Infelizmente, todo esse ascenso de organização e mobilização, por parte de trabalhadores, estudantes, camponeses, sofreu um revés com o Golpe Militar de 1964, junto a uma certa falta de articulação e resistência dos principais líderes da esquerda a época, cujos motivos e resultantes merecem outro texto. Todavia, vale destacar o otimismo legalista do então presidente “Jango”, que acreditava ter controle sobre as forças armadas, desarmando as organizações a cerca de um eminente golpe. O que ocorre é que no período pós-golpe, acontece todo um desmonte, pelas vias mais cruéis possíveis, das organizações de esquerda. Perseguições, cassações de direitos não só políticos, mas humanos, torturas e diversas outras intervenções que resultaram no período mais sombrio da história do nosso país.
Durante alguns anos, o esfacelamento da esquerda e o assassinato das principais lideranças, juntamente à censura da imprensa, e o sentimento de medo que pairava no ar, somado a uma grande máquina de propaganda ufanista, linkada a conquistas como o tri campeonato mundial pela seleção brasileira de futebol e o período conhecido como “Milagre Econômico”, resultaram em um refluxo, forçado, por parte das mobilizações populares. Ainda podemos elencar um importante debate feito pela esquerda a cerca das guerrilhas a época. Enquanto um setor defendia a essencialidade de organismos da classe com influência massiva em fábricas, bairros, escolas e universidades, criando assim mecanismos de poder popular voltados ao convencimento das massas à luta contra o regime, outro setor optou pelas guerrilhas, a exemplo do modelo Cubano, o que gerou a aniquilação dos principais quadros da esquerda além de um refluxo com a estigmatização de organizações revolucionárias. Desta forma, houve uma necessidade de reconstrução destes setores, que se iniciou no fim da década de 70, início da década de 80. O Congresso de Reconstrução da UNE, em Salvador, em 1979, as grandes greves no ABC paulista, capitaneadas por sindicalistas como Lula, Zé Maria e outros, e a junção de intelectuais, representantes dos movimentos sociais e católicos militantes da Teologia da Libertação na conformação do Partido dos Trabalhadores (PT), que anos depois assumiria papel hegemônico enquanto partido representante da esquerda brasileira, papel que outrora coube a PCB. Todas essas mobilizações resultaram na grande candidatura de Lula a presidência em 1989. Naquela eleição tínhamos um Lula com a cara e os ideais da esquerda brasileira. Um Lula que abertamente defendia a Reforma Agrária, a desapropriação de indústrias dos setores bases para o controle por parte dos trabalhadores e diversas outras demandas históricas dos trabalhadores. Infelizmente, mais uma vez, por motivos que também caberiam em um novo texto, fomos derrotados, iniciando mais um processo de refluxo nas organizações e mobilizações aprofundado com os governos neoliberais da década de 90/2000.
Mesmo com a ascensão ao governo pelo Partido dos Trabalhadores em 2002, ainda há uma continuidade no refluxo das organizações populares, o aparelhamento de sindicatos e entidades estudantis como a UNE, fez com que muitas destas organizações perdessem a referência com suas bases, aprofundando um processo, sobretudo, de despolitização. Esse processo resulta ainda da política de apaziguamento e conciliação a qual os Governos do PT implementaram durante 13 anos. Políticas que por um lado garantiam um maior acesso a uma parcela significativa, que historicamente passou por uma negação de direitos básicos, como educação e moradia, tinham também como plano de fundo o enriquecimento daqueles que sempre estiveram confortavelmente do lado dos que negavam estes direitos à população.
Dentro deste cenário, surge em Junho de 2013, um marco político, que pode ter sido o surgimento de uma nova onda de mobilizações, e uma nova forma de se fazer política. Assim como, nos meados da década de 80 o PT reformulou a forma de se fazer política, inserida nas periferias através do trabalho de base, quebrando os velhos ranços da velha esquerda e do PCB, agora temos também o fim de um ciclo. Junho de 2013 traz à tona a falência do sistema político em vigência, em que cada vez mais, elegemos cada vez menos representações que possuem inserção nos movimentos populares. Entretanto, assim como a esquerda em junho de 2013 se reinventou, não por ordem de seus setores hegemônicos, mas sim pelo espontaneísmo de setores que não se sentiam representados pelos movimentos em questão, a direita também busca se readequar ao período que vivemos. Em junho de 2013 setores que se colocam na contramão das mobilizações populares, a todo o momento disputavam as massas que a cada dia superavam os números dos dias anteriores, sob o mote do “amanhã vai ser maior”. Tal disputa reverberou de certa forma nos atos pró e contra o impeachment, de um lado os setores “a favor da democracia” com atos de rua engessados, com os coletes de sindicatos, os balões, o velho formato, onde o discurso da democracia era deixado de lado ao som do primeiro “olé, olé, olé, olá, Dilma, Dilma!”, que não tinha o menor envolvimento com os trabalhadores que desde aquele momento já tinham seus direitos retirados. Do outro lado os atos pró-impeachment, que por mais que saibamos por quem eram dirigidos, apresentavam um esponteísmo, onde as pessoas levavam seus cartazes, na fictícia festa da democracia brasileira.
Neste bojo de mobilizações surgem as ocupações das escolas pelos estudantes secundaristas, em um primeiro momento em São Paulo, contra a proposta de reformulação da rede estadual de educação proposta pelo Governo Alckmin, que resultaria no fechamento de diversas escolas no estado. Já no ano de 2016, as ocupações retornam com toda força, contra os ataques provocados pelo Governo de Michel Temer, como a PEC 241, atual PEC 55, além da Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio, da Lei da Mordaça, entre outras. A dinâmica das ocupações, e sobretudo, a forma como os secundaristas vêm se apropriando da política, por si só, já demonstra um marco histórico, todavia, podemos ir além nesta análise. O modelo de comunicação que vem reverberando por fora das grandes mídias que optam por omitir um lado da história, as redes sociais, demarca também uma nova geração antenada com as tecnologias da informação. Mas, não podemos deixar de ressaltar a rebeldia dessa nova geração. Se isso, de fato, irá gerar um novo ciclo histórico que, esperamos, venha a culminar com a vitória dos trabalhadores, dos estudantes, dos camponeses, só o tempo irá dizer. Mas a história está sendo escrita, por mais que só seja lida daqui a 20, 30 anos.
Diego Brito é estudante de Engenharia de Produção da UESC, membro do Coletivo Juntos e Secretário de Juventude do PSOL-Itabuna.









