BLOG DO GUSMÃO

FIDEL CASTRO, O SOCIALISMO E CUBA

Fidel Castro.
Fidel Castro.

Por Sérgio Ricardo Ribeiro Lima

Sérgio RicardoArbitrariamente[1], escolhi fazer uma análise despretensiosa da importância de Fidel Castro para Cuba em dois recortes temporais. Uma, antes de Fidel e depois dele, até meados da década de 1980; e outra, a partir da década de 1990[2]. O primeiro seria a realização do ideal moral, político e ideológico; o segundo, o ideal dos sonhos e das oportunidades de construção de um novo padrão e esperança de vida para as gerações pós-Fidel.

Cuba, em particular, e a América Latina, em geral, era um país dominado por uma ditadura capitalista, com forte influência dos Estados Unidos da América, cuja base econômica e social era formada por uma elite de grandes proprietários rurais (latifundiários) e por uma massa de trabalhadores assalariados ou não, depauperados, que viviam à sombra do poder econômico e político, interno e externo. Cuba era apenas uma pequena ilustração do que se passava na América Latina e, em especial, no Brasil.

Para aqueles que viveram sob esse regime e sua mudança para o regime comandado por Fidel, relatam que havia muita injustiça e pobreza e, portanto, uma profunda desigualdade.

A revolução cubana instaurada por Fidel veio com a promessa de dar democracia e liberdade ao povo cubano. Quando se fala em “povo” está se falando na classe desfavorecida e marginalizada sob o regime anterior. A 1ª medida de Fidel ao assumir o comando foi fazer uma reforma agrária e dar acesso à terra aos pobres.

Conforme relatou um cubano que vivenciou este momento de transição: “Nós éramos uma família pobre e sem educação antes da revolução” (Juan Montes Torre, após a morte de Fidel). E ele resume o socialismo: “Aqueles homens barbados, mal vestidos –eles venceram! E em nome das classes inferiores!”.

A neta de Juan se disse inconformada com o regime de Fidel, mas reconhece: a liberdade nas ruas, sem crime e raramente expostas ao tráfico; a ênfase em educação e cultura” (Rocío Torre).

Outro cubano exprimiu exatamente a característica do capitalismo ao afirmar: “o socialismo não funciona, mas, se o capitalismo chegar, os pequenos vão sumir. Quem tem capital vai mandar e o resto vai trabalhar para eles” (Faustino Garcia Prendes) (o grifo em itálico é meu). O que ele chama dos “pequenos” é a grande massa do povo que vivia, antes de Fidel, na miséria e que trabalhava para enriquecer os grandes proprietários.

Uma característica essencial do capitalismo é o grande abismo que separa ricos e pobres. O socialismo, por sua vez, é um regime cuja característica é, justamente, reparar esse profundo abismo, cuja essência conhecemos por “desigualdade social”.

Enquanto o capitalismo, por meio de sua filosofia utilitarista, prega as iniciativas individuais como instrumento essencial para a liberdade, também individual (Friedman); visto que para os utilitaristas e liberais, a liberdade geral ou coletiva é a soma das liberdades individuais; o socialismo acredita nas iniciativas coletivas, o bem-estar coletivo, pois, para este, a liberdade coletiva não é a soma das iniciativas e liberdades individuais, pois os indivíduos compõem uma instituição (no sentido de Veblen) que se chama classe social, cujas raízes estão na propriedade privada dos meios de produção e no núcleo da divisão social do trabalho, entre os donos do capital e os que vendem sua força de trabalho (Marx). Para os socialistas, só o Estado é a instituição capaz de promover a correção dos profundos desequilíbrios sociais.

Portanto, iniciativas individuais supõe harmonia de interesses e equilíbrio econômico e social, enquanto a existência de classes sociais supõe conflito de interesses entre aqueles que têm o capital e os outros que detêm a força de trabalho.

Os ideais naquele momento da revolução cubana eram de natureza política, ideológica e moral: suplantar um regime que imprimia e consolidava cada vez mais uma profunda desigualdade social.

A revolução superou a profunda exploração e desigualdade social a que estavam expostos os trabalhadores cubanos. Mas era preciso, daí em diante, a reconstrução econômica socialista de Cuba. Cuba era, literalmente falando, uma ilha socialista num oceano capitalista. A União Soviética, a esta época, uma potência econômica, deu apoio e sustentação econômica a Cuba, enquanto os EUA, capitalistas e imperialistas, promoveram um duro e longo embargo comercial a Cuba. E Cuba conseguiu superar, com grandes dificuldades, principalmente, depois da queda do “socialismo” na União Soviética.

Enquanto ideal político, moral e ideológico, Fidel Castro cumpriu relativamente bem sua pretensão revolucionária. Mas, revolução é um processo histórico de profundas transformações em todos os âmbitos da vida e mexe com a vida das pessoas, e, o que é mais sério, por uma geração inteira, como foi o caso de Cuba.

Não bastava instaurar a revolução e o socialismo, era necessário preparar política, ideológica, cultural, social e economicamente as pessoas para a nova realidade.

As pessoas – não importam a idade – têm ideais espirituais e materiais. Os ideais da geração de Fidel foram conquistados. Agora era preciso realizar os ideais daquela geração pós-revolução que, poderia resumir aqui em duas palavras: oportunidade de vida e satisfação das necessidades[3] materiais.

A mesma neta do Juan assim se expressou: “Minha geração não se preocupa com política ou ideais”; “Só queremos sair. No estrangeiro se pode conseguir muito mais. Você pode ser reconhecido por seu trabalho, internacionalmente, pelo mundo”.

O filho do Juan, por sua vez, faz parte da geração que se chamaria de “resolvedora”, que não adianta ficar esperando pelo regime e tem que tomar suas iniciativas, assim como no capitalismo, com a diferença que no socialismo de Cuba se tinha menos oportunidades. Seu ideal era trabalhar para melhorar seu padrão de vida e de sua família.

Portanto, enquanto processo histórico da superação da exploração e da fome, prioridade à educação, à saúde e à cultura, excepcionalmente para as pessoas anteriormente marginalizadas no regime do ditador Fulgêncio Batista, obedecendo às ordens imperialistas dos EUA, Cuba teve e tem avanço significativo, quando comparado a países capitalistas na América Latina, em especial, o Brasil.

Mas quanto ao processo seguinte de progresso material e realização dos sonhos e dos potenciais para as novas gerações cubanas, Cuba deixou a desejar. Não por incapacidade, mas pelo fato de uma revolução ensejar um longo processo histórico de transformação em todas as esferas da vida, tal qual aconteceu no capitalismo à época da revolução burguesa. A história da revolução capitalista no século XVIII foi a história, de um lado, da opulência e da riqueza, e de outro, da massa de miséria da classe trabalhadora, que estava livre da servidão e da escravidão e que conheceu novos fantasmas: o desemprego, a fome e a miséria.

Cuba não estava e não está preparada para os novos anseios dos novos tempos da geração jovem, que quer realizar sonhos, despontar seu potencial, progredir profissionalmente e materialmente, encontrar oportunidades, construir, a partir de seu trabalho, um novo padrão de vida para si e para seus filhos. Mas, me parece, está caminhando nesse sentido.

O socialismo é um regime que buscou a superação da exploração dos trabalhadores e, da consequente, miséria e profunda desigualdade social. Portanto, como relataram alguns cubanos à época de Fidel (exposto no texto acima), é um regime que ampara as classes inferiores, movendo o pêndulo da balança da distribuição da propriedade e da riqueza em favor dos pobres; portanto, não permite e não admite a abundância, a opulência e a ostentação de uns em detrimento de outros. Mas uma formação econômico-social não pode estancar aí; tem que oferecer oportunidades e esperança de vida para as novas gerações.

Sérgio Ricardo Ribeiro Lima é professor do Departamento de Economia da UESC.

Notas do autor:

[1] Esse texto não pretende nenhuma conclusão definitiva sobre o tema tratado, dada a sua complexidade, mas apenas algumas considerações sobre alguns dos processos históricos que permearam o governo de Fidel e de Cuba nesse intervalo temporal. Esse texto foi inspirado numa matéria intitulada “Como três gerações de uma família em Cuba veem a revolução de Fidel Castro”, publicada no UOL em 28/11/2016 (http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2016/11/28/como-tres-geracoes-de-uma-familia-em-cuba-veem-a-revolucao-de-fidel-castro.htm).

[2] Reconheço que mesmo no 1º recorte temporal já havia uma geração ansiosa por mudança em seus padrões de vida, portanto, não conformada; mas, o fim do apoio da União Soviética a Cuba foi, para mim, mais determinante para os motivos da exposição aqui feita.

[3] Quando coloco “necessidades” em itálico estou me referindo às necessidades naturais das pessoas à medida que seus desejos espirituais e materiais avançam em resposta ao desenvolvimento econômico e não em relação às necessidades criadas e inventadas e alimentadas pelo consumismo.

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