
De José Henrique Abobreira.
O telefone tocou. Atendi reclinado na minha poltrona de paciente renal, era o início da sessão de tratamento, ainda manhã cedo, sendo dialisado. Era o meu filho Fred me comunicando a tragédia do acidente com Quito. Ele faleceu. Lágrimas teimaram em escorrer na minha face. Sentimento pela perda de um grande amigo valoroso e bom companheiro de lutas políticas e sociais.
O conheci na década de 80, há mais de trinta anos. Carismático, na sua cabana de praia na orla dos Milionários reunia uma turma enorme, uma fauna variada do ponto de vista político-ideológico, comunistas, socialistas, democratas. Lá você podia encontrar no fim de tarde de qualquer dia da semana a “companheirada” que fazia política na cidade: Oldeck Marques, Napoleão Marques, professora Diva Brito, Nelson Simões, Marilene Lapa, Abobreira, Luiz Fernandes, Gustavão, Jabes. Muitos bebiam na fonte da análise política sempre lúcida de Quito, que era um camarada amigo, atencioso com os seus pares e figura generosa para ajudar a quem necessitava de alguma ajuda. Acolhia as pessoas aflitas com alegria.
Na campanha de 1982, dentro do PMDB, Quito ainda muito jovem, era o cabeça da pule das esquerdas, candidato a vereador que verberava o pensamento do MR8 e grupos revolucionários empenhados em derrotar a ditadura militar. Foi Quito quem colocou o sal ideológico na campanha da chapa da legenda 2 do PMDB a prefeito, formada por Sá Barreto e Napoleão. Num comício dessa chapa no Pontal fui apresentado a Flory Nonato por Sandoval Souza, meu colega fazendário e apoiador ferrenho da candidatura a vereança de Quito. Comemoramos a apresentação após o comício no barzinho de Didiel, nas vizinhanças da praça São João local onde ocorreu o comício democrático.
O nosso contato amiudou-se dentro do movimento popular. Juntos trabalhamos na organização de diversas ocupações de terrenos ociosos urbanos da zona sul da cidade de Ilhéus, além de ajudarmos a fundação de associações e confederações de moradores e movimentos sociais que viriam a ter um papel preponderante na elaboração nossa Carta Magna. Corria o ano de 1987 e a Assembleia Nacional Constituinte presidida pelo saudoso Ulysses Guimarães, fervilhava com a participação popular e corria a todo vapor. Quito era um estrategista nato.
Em 1986, numa campanha organizada em Ilhéus pelo companheiro e amigo Carlos Pereira Neto, coordenador regional do Partidão na região cacaueira, eu e o Quito apoiamos o mesmo candidato a deputado constituinte, o comunista Fernando Santana que viria a ser uma voz importante na Assembleia Constituinte em defesa das causas populares e nacionalistas
Em 1996 nas eleições municipais, eu e Quito estreitamos mais os nossos laços políticos quando o seu partido, o PCB, participou da aliança política que formou a coligação Ilhéus vai voltar a sorrir, ele como candidato a vereador, eu a vice-prefeito, na chapa de Jabes Ribeiro. Foram meses de uma convivência política profícua. Antes em 1988, já tínhamos sido candidato a vereador na coligação da Frente Popular em apoio a João Lyrio Prefeito.
Quis o destino que eu estivesse presente nos acertos para a fundação do PCB-Partido Comunista Brasileiro na pós redemocratização, entre 1987\88. Veio um companheiro o Sinval Galeão, militante histórico do Partidão na Bahia desde antes do golpe de 64 e delegou a Quito a organização da valorosa legenda aqui em Ilhéus que veio a ser dirigido por Flory Nonato e Marilene Lapa inicialmente. O interessante é que essa mesma dupla, Galeão e Quito viriam a dar-me uma acolhida valorosa quando, com dificuldades políticas, solicitei filiação na legenda já então o PPS, ex-PCB. Inicialmente, recorri em Brasília ao então senador Roberto Freire presidente nacional do partido tendo ele me orientado a procurar Colbert Martins dirigente local e mais essas lideranças citadas acima. No ato de minha filiação ao PPS, numa noite com o plenário da Câmara de Vereadores lotado de populares, Quito proporcionou-me enorme alegria pela bela acolhida. Falei do compromisso que assumiria com o partido citando o exemplo, o sacrifício e a dedicação que o comandante Prestes, O Cavaleiro da Esperança, tinha ofertado ao PCB e ao povo brasileiro: a minha tarefa seria respeitar esse legado histórico. Fui candidato a vereador pelo PPS nas eleições de 2000.
A última vez que o vi foi no cafezinho da praça do teatro, há alguns meses atrás. Estava acompanhado do professor Ednei Mendonça.
Flory Nonato, o popular Quito, deixa um legado de lutas às novas gerações. Foi um guerreiro, soldado da causa socialista em Ilhéus, na Bahia e no Brasil.









Uma resposta
Sem delongas … Quito era um fenômeno política, um cara com o alto coeficiente de inteligência, talvez um dos caras mais inteligentes q eu conheci. Era articulador nato. Oriundo de família pobre, tornou-se um professor universitário com muito esforço e dedicação. Ele foi um exemplo de vida !! Como vc disse