Por Mohammad Jamal.
(Da série: “Epopeias da Capitania”)
O “homi” já chegou chegando: carnavalesco, espalhafatoso, alegórico, um Joãozinho Trinta e suas fantasias de brilho ofuscantes; como se Cleópatra adentrando ruidosa a Roma ao encontro do seu Marco Antonio ao tempo em que estarrece o mundo incivilizado da Colônia, exibindo luxo e riqueza aos senadores e à louca e desesperada população, em êxtase. O místico afoxé Filhos de Gandhi adentrando a Avenida Sete para socorrer com o “descarrego” os quebrantos dos agônicos soteropolitanos e neobaianizados em suas abadas coloridas.
Alto, bonito, corpulento, trazia um enorme sorriso cinzelado sobre o mármore branco-ofuscante dos dentes alvejados, perfeitos, instalados no semblante vitorioso/conquistador, tipo Alexandre Magno entrando na Pérsia submetida. Tinha em si, o que propositalmente deixava transparecer em evidente marketing pessoal: uma enorme bateria supercarregada muito acima da sua capacidade nominal de volts, a ponto de impregnar a todos à sua volta com o magnetismo e condutiva “eletrostática” arrebatadora que emanava isótropos irradiantes que a todos energizava com simpatias, autoconfiança, esperanças. Uma usina açucareira pronta pra derramar toneladas de glicose às bocas do povo hiperglicêmico, insulinodependente e desassistidos do SUS, um espanto; um Sidenafil em hipotenso! Podia-se dizer que trazia consigo, a tiracolo, o ufanismo meritório dos grandes vencedores, como se portasse o poderoso amuleto de Oxóssi e sua lança fálica vindos diretamente do Gantoir!
E cavalgou assim garboso, impassível e poderoso pelas ruas da decadente cidade, montado a seu cavalo branco, um árabe puro-sangue ricamente ajaezado que pisava cuidadoso, saltando ao desviar-se de montes de merda e lixo aqui e acolá espalhados a esmo. Em vultosa procissão, o povão, loucos e lazarentos, ao seu redor, desesperados, gritava o seu nome “Hão” entre rogos e súplicas lacrimosas. A certa altura do desfile ele estacou seu bagual puro sangue ali, – (ali, é advérbio de lugar e não Ali nome próprio árabe. O nome do cavalo é Bucéfalo, viu?) – bem no meio da praça, acionou os freios de estacionamento do corcel dos emirados e, “amuntado mermo” (em nordestinês), sem apear, promulgou a plenos pulmões a lá Consul Júlio Cesar, o seu Veni, Vidi, Vici: “Quando vi nessa cidade, tanto horror e iniquidade, resolvi tudo acudir*”. O “acudir*” é nosso e, aqui há um perceptível control C, control V, da Ode a Geni; poema musical do Chico Buarque.
De fato, o horror e a iniquidade estavam esparramados sobre a cidade arrasada. Havia desespero, choros, diarreias e depressão estampadas nos semblantes da população desesperada. As escolas em ruinas; transporte público insuficiente e irregular; as ruas imundas interditadas por montanhas de lixo e cocô brotando do chão incontrolavelmente; na saúde, faltavam medicamentos e insumos básicos nos postos; não havia pronto-socorro, postos médicos fechados nos bairros; não havia hospitais públicos nem pronto-socorro pediátrico para atender crianças e, as grávidas, essas morriam entaladas com suas crias sufocadas nos úteros, quedadas pelo chão das salas de pré-partos dos soturnos hospitais obstétricos.
E o nosso herói, nada a ver com Macunaíma, O Herói do Brasil, (de Mário de Andrade), assegurou peremptória e resolutamente seus condicionantes para a concessão salvadora dos seus adjutórios; umas coisinhas: Resolvo tudo! Limpo a cidade, asseguro assistência médica a todos e as prenhas não morrem mais com filhos enganchados nos buchos por falta de parteiras, aparadoras ou atendimento especializado! Para isso exijo em troca casa, roupa lavada, comida e bebida farta de primeira, padrão VIP para mim e meu fiel escudeiro o Sancho. Para meu séquito de escribas, serviçais, bobos-da-corte, arautos secretários, engraxates, pajens e equipe cerimonial, pode ser servida comida e bebida simples padrão cinco estrelas.
A população, loucos e lazarentos, acorreu em desespero; se cotizou, fizeram rifas de tudo, bazares e até feira de brechós, velhas virgens, feijoadas solidárias e as porras pra juntar o dinheirinho e custear o salvador da cidade, seu fiel escudeiro Sancho e seu incrível exército de ociosos Brancaleones. Em troca, o Salvador, agora já meio assemelhado ao famoso Macunaíma, Herói do Brasil, deu à Comissão Representativa do Povo um vistoso amuleto numa bolsinha de couro hermeticamente fechada, costurada à mão e vulcanizada, contendo em seu interior o valioso amuleto mágico solucionador. “Onde houver problema com mulher parindo, crianças doentes ou, velhos estrebuchando, esfregue esse amuleto e logo tudo se resolvera magnificamente!”.
Pois é; passados dezoito meses, tudo continua na mesma lesma lerda; muita gente ou, quase toda a população da cidade diz ter piorado muito mais após a intervenção do Salvador; que foi um erro banca-lo e a seu séquito nesses quase dois anos. Cansados e desiludidos, semana passada a Comissão Representativa do Povo decidiu violar o precioso conteúdo do amuleto, a fim de se conhecer o segredo da suposta mágica solucionadora que lhes fora vendida com salvaguardas e garantias irrefutáveis. Reunidos em audiência Pública na Câmara em presença de autoridades diversas, o conteúdo mágico do hermético amuleto veio finalmente a público após trabalhosa e demorada cirurgia ortopédica para abrir a bolsinha, calcificada pelo tempo de uso sem nenhum resultado terapêutico positivo.
E lá dentro, o segredo; todo dobrado e apertadinho estava um papelzinho onde se podia ler na inscrição: “Passando bem, eu, meu bagual, meu escudeiro e minha corte, para* – do verbo parir* – lá, morra ou estrebuche quem quiser. Mamãe! Eu te amo!”.
Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.








