Por Mohammad Jamal.
Na era da comunicação em massa, paradoxalmente ainda existe muita que vive em absoluta solidão; a solidão de si. Sei que causarei algum impacto com essa afirmação que vai de encontro aos sistemas ou pressupostos que se impuseram como incontestáveis ao pensamento, digo, contra aqueles que ainda pensam analítica e reflexivamente.
Reflexiono oportuno, sobre os Cem anos de Solidão, onde o Gabriel Garcia Marques, corajosamente, foi revolver o terreno do imaginário, exumar múmias inspiradas, talentos sepultados por séculos, numa tentativa desesperada para devolver à literatura a imaginação e personalidade perdidas. Não como o grito de arrebatamento proferido magistralmente sobre o degredo miserável exposto em O Arquipélago de Gulag por Alexander Soljenítsin, quando descreveu as dores e sofrimentos, no intenso conteúdo literário sobre suas memórias vívidas na gélida e distante Sibéria, os horrores praticados por um dos maiores assassino e fraticidas da história moderna Josef Stálin.
Vivemos uma era de admissibilidades e inexigibilidades comportamentais quase absolutas, onde tudo, ou quase, é corriqueiro, usual, comum… Não importando o “quantum” do agravante e desconfortável impacto é causado àqueles que ficaram para trás, que não entraram no clima, não assimilaram o “moderno” e, por isso, entraram para o rol das obsolescências, perderam as personalidades ante os novos “perfis” do moderno, ante a dinâmica “evolutiva” das populações e as variações de ocorrências comportamentais de indivíduos da mesma espécie (população); tudo isso por não conseguir, sem admitir concessões, defini-las entre os milhares de porquês subjetivos. Essa ignorância e desajuste a uma nova ordem social e sua pseudofilosofia comportamental os segrega e confina no gueto da obsolescência como um Gulag destinado ao arcaísmo sociológico de velhos cafonas.
Vivemos um mundo de fantasias megalomaníacas envoltas em transtornos obsessivo-compulsivos, dissociativos e conversivos amparados numa paranoia que força à compulsiva busca pelo destaque pessoal e meritocracia a qualquer custo. Gigantes num mundo liliputiano. Isso leva inúmeras pessoas a viver uma existência surreal e fantasiosa, porquanto dominadas pela ditadura dos modismos, das ambivalências alienistas. Você pode ter constituído talvez até mesmo introjectado e se revestido com dezenas “perfis” – vou omitir as inúmeras redes sociais – mas estará restrito uma única e exclusiva personalidade, porque de resto, tudo não passa de uma delirante surrealidade existencial. Ao desligar seu smartphone, seu notebook ou desktop você voltara ao confinamento no seu Gulag existencial, vestindo os panos que você considera desbotados e fora de moda com seu “eu” apequenado na penumbra.
Sentir-se anã. A autoviolentação é como denomino esse conceito errôneo com que muitas pessoas, por não se aceitarem como o são, por rejeitarem o seu real existir, teatraliza a própria vida travestindo-se com personalidades grandiosas, ricas e poderosas estandardizando-se nos palcos cibernéticos das redes sociais numa opera bufa de mentirinha, onde se supõem em papel principal. Um estoicismo postiço, emprestado e adotado de alguém em particular ou um blended copiado de muitas celebridades, construído a partir de modelos famosos e de grande destaque nas redes sociais e mídias televisivas, inclusive os extravagantes e vaidosos hábitos de consumo, as ostentações, muito populares entre os MCs. Um uma solução meramente sintomática e paliativa, consideradas as impossibilidades emocionais que se interpõem e impedem o tratamento efetivo e a cura definitiva da enfermidade existencial, a baixa autoestima.
Há pessoas morrendo em acidentes automobilísticos e de trabalho usando celulares em redes sociais; há pessoas demitidas do emprego, porque estão mais atentas aos acessos à rede Internet que às tarefas do Trabalho. Gente que passa o dia com o smartphone à mão como se o mesmo houvesse sido implantado à mão. Que não dormem nem acordam sem ter ao lado da cabeça o celular. Que possuem desesperados, várias baterias e carregadores para casos de battery low! Gente que passa o dia e a noite em frente ao notebook e desktop online em todas as redes sociais. Mas não cabe a ninguém demonizar ou minimamente negar a importância das comunicações via redes sociais. Em menor escala, essas redes permitem a comunicação entre pessoas, familiares, amigos, clientes, etc. inclusive com os recursos de imagem e voz sobre IP em tempo real. Elas já fora e ainda são de alguma forma, a maneira pratica para unir opiniões ou gerar boas e más tendências sobre seus usuários, haja vista os crimes e assassinatos massivos, articulados e praticados por pessoas susceptíveis às influencias e informações veiculadas entre grupos formados nas redes sociais, em sua maioria, à cata de manchete e notoriedade impactante manchada pelo sangue de inocentes à custa das vidas foram ceifadas pela violência insana dos recalcados induzidos.
Tem gente que exibe orgulhosamente centenas de “amigos” (eu sou popular sou celebridade) como se fosse sua conta bancária na Suíça, apinhada de dólares, euros, Guaranis! Contatos e seguidores no Whatsapp, instagram e as porras são uma conquista valiosa. Gente que fala grosso e valente no Facebook; que tecem críticas ferozes contra governantes e políticos; que fazem análises rasas com se pensassem e escrevessem com a credibilidade de futurologistas como Alvin Toffler ou o Herman Kahn! Há ainda aqueles que pregam golpes de estado, que fecham o Congresso Nacional, implantam a pena de morte, crucificam o Lula enquanto outros o canonizam santo, que aplicam clisteres no José Dirceu, no Palocci, no Eike, que põem a ferro e grilhões os multimilionários Joesley e o irmão Wesley Batista, ufa! E tem aqueles que posam em fotos sentados em mesa à beira de piscina alheia ou de hotel com uma garrafa de Whisky Johnnie Walker Double Black 1000ml, alugado só para a foto ostentação! E no estrangeiro, tendo atrás de si aqueles monumentos manjados, tipo Torre Eiffel, Estátua da Liberdade, torre do Relógio Big Ben, o Mickey e a Minnie da Disney, manipulados por Photoshop ou ao vivo via Pacotes CVC tri anual com sacrifícios financeiros e a duras penas para exibir nas redes sociais. Que usam o Ctrl C x Ctrl V sobre textos alheios de escritores renomados e os “reautoram” (desculpe o neologismo) subscritos em seus perfis, esquecendo a referência. Eu ficaria por aqui descrevendo esse mundo de fantasias delirantes, de fake news, de faz de conta. Um mundo onde seres humanos de estatura normal, inteligentes e articuladas, não se sabem os porquês, perdem a sensatez imaginando-se anãs imaginando que o importante é o ter e não o ser. O Ronald Biggs foi celebrizado como assaltante. O Kid Bengala o foi como ator pornô e a Cecília Meireles foi a mais celebre poetisa brasileira. Olha um poema dela aí. Como queres tu ser lembrado? Há analistas de Bagé de plantão!
Retrato (Cecília Meireles)
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida a minha face?
Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.









