BLOG DO GUSMÃO

A necessidade de ser asqueroso

julio nova

É preciso agredir com ações e com palavras, o tempo todo. É preciso humilhar, espezinhar, rir da desgraça de quem sepulta seus mortos.

Por Julio Gomes.

Foi preciso ver a mesma notícia em pelo menos cinco grandes sites de diferentes órgãos de imprensa, com credibilidade nacional, para acreditar que fosse verdadeira.

O Senhor Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (07/05) que “Estou cometendo um crime. Vou fazer um churrasco no sábado aqui em casa. Vamos bater um papo, quem sabe uma ‘peladinha’, alguns ministros, alguns servidores mais humildes que estão do meu lado” conforme publicado no site https://valorinveste.globo.com/ (acesso em 08/05/2020).

Diversos sites como UOL, Terra, Correio Braziliense e outros do mesmo conceito reproduziam esta fala inacreditável, surreal, do mandatário maior do país.

Não, não adianta amanhã pedir desculpas. Não adianta negar que falou isso. Ou dizer, que não teve a intenção de ofender ninguém. Ou que quis ser “engraçadinho”.

O Brasil teve ontem, dia 07/05, em números oficiais e reconhecidamente subnotificados, 610 óbitos, totalizando 9.146 mortes por COVID-19 desde o início da pandemia.

Por isso, a declaração de Bolsonaro, entre risos e brincadeiras com interlocutores, é como uma bofetada, como uma cusparada na cara dos brasileiros.

Não há o mínimo respeito pelas pessoas que perderam seus entes queridos. Não há a mínima compostura, o mínimo sentimento, nem mesmo de maneira meramente formal, ou dissimulada. Não há.

É preciso agredir com ações e com palavras, o tempo todo. É preciso humilhar, espezinhar, rir da desgraça de quem sepulta seus mortos.

Como não sou dado ao uso de palavras de baixo calão em meus textos, digo: o Presidente tem a necessidade de ter um comportamento asqueroso.

Para quem porventura não tenha pleno conhecimento do significado do vocábulo, segundo o dicionário do Google asqueroso significa: 1. que causa nojo, asco; repugnante, ascoso; 2. figuradamente: que tem conduta condenável; sórdido, ignóbil.

A morte das pessoas deve merecer de nós uma atitude de respeito. Pode ter morrido o pior criminoso do mundo, mas ainda assim devemos guardar respeito em relação ao ocorrido, senão pela pessoa do finado em si mesmo, mas ao menos por sua família, seus pais, cônjuges, seus filhos, que sofrem com sua perda.

Qualquer pessoa, por mais grosseira que seja, por mais que não tenha podido estudar, mesmo que seja completamente analfabeto, sabe perfeitamente disso, porque isso vem do coração, do sentimento humano.

Somente pessoas bestializadas, no pior sentido do termo, são capazes de rir enquanto uma pessoa morre vítima de uma doença atroz. De rir de seus parentes enlutados. De rir de um enterro em vala comum. De fazer piada com isso, usando a atividade que exerce e a posição pública que ocupa.

Na vida há limites para tudo. Até para errar, mesmo tendo boas intenções.

O apoio a Bolsonaro, e até mesmo o voto nele, como tentativa de mudar o país, de “dar um choque” no Brasil em direção a mudanças necessárias, é compreensível, é uma atitude, nesse sentido, respeitável.

Porém continuar apoiando o descalabro, o desrespeito, a estupidez, a insanidade e a conduta doentiamente asquerosa de alguém tem limite, sob pena de, ao passarmos deste limite, nos igualarmos à pessoa que assim se conduz.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Link para o canal do autor no YouTube.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.

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