
É justamente dessas aglutinações e coletivos que se ouvem vozes de alento ante a postura excludente e violenta do Estado, aparelhado pelo obscurantismo e negacionismo que caracterizam o bolsonarismo. O Brasil vive um grande retrocesso, cuja dimensão das suas consequências dependerá muito da intensidade das respostas populares. Mas que respostas são essas? Falamos da mobilização de vários segmentos da sociedade organizada denunciando o aumento da violência policial, do feminicídio, do racismo, etc.
Por Caio Pinheiro e Rans Spectro.
Com quem o povo pode contar? Essa pergunta, proferida reiteradas vezes, em variados contextos e por diversos agentes, nunca foi tão atual. E porque ainda precisamos fazê-la? Resposta: da classe política ao poder judiciário, dominam os interesses de uma elite há séculos encastelada no poder. Infelizmente, mesmo em tempos de excepcionalidades, a questão social e o povo continuam sendo caso de polícia. Na incapacidade de dar resolutividade às urgências nacionais; governantes, legisladores e autoridades judiciárias, usam o poder de coação policial para sufocar os gritos de indignação dos flagelados da pátria.
Contudo, distante da visibilidade midiática, o povo organiza-se. Coletivos, ONGS, associações, empreendedores(as) sociais etc., ganham revelo no auxílio e organização ao/dos marginalizados. A Covid-19 segue sua marcha fúnebre, todavia, o coletivismo e empatia entre os excluídos, tem interditado – menos do que desejamos – a sanha mortífera da crise sanitária. Outrossim, “mimimi” não é um comportamento das minorias, mas, sim, das maiorias. Falácias, prevaricações e demagogias definem o modus operandi dos mandatários.
O assassinato de George Floyd expôs uma ferida horrenda, que, invariavelmente, integra o caldo das iniquidades sociais. No entanto, essa tragédia tem capilaridade mundial, e, dado a obviedade dessa argumentação, é nossa responsabilidade cidadã discuti-la. No Brasil, as evidências desse quadro trágico são irrefutáveis. Segundo Bruno Lupion, da DWO-Consultoria, “o grupo de pessoas em pobreza extrema no Brasil, que inclui os que vivem com menos de 1,9 dólar por dia, ganhou cerca de 170 mil novos integrantes em 2019 e encerrou o ano passado com 13,8 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% da população do país”.
Já faz metade de uma década (2015-2020) que o número de brasileiros na miséria cresce. Este retrato do Brasil pré-pandemia foi divulgado pelo IBGE através da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD) Contínua de 2019. Lógico que os que ganham com a miséria imediatamente refutaram esses dados. Houve aqueles que atribuíram essa realidade estatística a conspiradores intergalácticos. Mas a precarização da vida instaura-se longe dos bairros nobres. Falta de comida, saneamento, energia, saúde, educação e possibilidades é uma realidade das periferias.
O cortiço ficcional de Aluísio de Azevedo – expoente da literatura nacional – materializa-se nas favelas. O Brasil idílico dos românticos, repleto de papagaios e maritacas, também é o território onde milhares de seres humanos subsistem sem desistir de existir. Falta tudo, menos resiliência. Aliás, resistir, sempre foi a única saída. À margem das posições sanguinárias dos liberais “à brasileira”, os esquecidos continuam reivindicando o direito de ser.
Civilizações antigas com suas concepções filosóficas, acreditavam que o planeta e a humanidade, são como grandes organismos vivos, e tal qual nós, também estão sujeitos a enfermidades e intempéries existenciais. Subjetividades à parte, é fato que mudanças são inevitáveis e cabe a nós saber extrair o saldo positivo das situações, em especial as adversas. Daí, diante de quadros catastróficos, a necessidade de sobrevivência faz com que reconheçamos a imprescindibilidade do fortalecimento das organizações populares.
É justamente dessas aglutinações e coletivos que se ouvem vozes de alento ante a postura excludente e violenta do Estado, aparelhado pelo obscurantismo e negacionismo que caracterizam o bolsonarismo. O Brasil vive um grande retrocesso, cuja dimensão das suas consequências dependerá muito da intensidade das respostas populares. Mas que respostas são essas? Falamos da mobilização de vários segmentos da sociedade organizada denunciando o aumento da violência policial, do feminicídio, do racismo, etc.
Quem melhor conhece as dificuldades do povo é o próprio povo. Com efeito, essa pandemia serviu ao menos para explicitar as intenções descompromissadas com o bem-estar da população. “Máscaras caíram” justamente quando se fez necessário seus usos. “Vidas importam”, desde que sejam geradoras de riqueza e consumidoras, e que não coloquem em risco a economia. “Morra quem morrer!”. As tragédias explicitam a essência dos detentores do poder.
Mas somos resistência! Nascemos apaixonados pelo improvável. Adoramos refutar prognósticos fatalistas. Negamo-nos a servir de telas emolduráveis. Preferimos a polissemia da palavra futuro, invés de resignação. Aprendemos que o certo a fazer é não deixar ninguém falar por nós. Acreditamos que se gritarmos de espaços diferentes, mas uníssonas, seremos ouvidos. Não porque declamaremos palavras doces e palatáveis aos ouvidos dos que nos oprimem, mas, sim, graças ao fato de que nosso grito é e será coletivo. Fogo nos…
Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.
Rans Spectro é um otimista apocalíptico, astrólogo canastrão e sócio fundador da OQuadro Corporation.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.









